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quarta-feira, novembro 15, 2017

Da série ‘Causos’: o dueto de João Gilberto e Rita Lee


Em 1980, João Gilberto preparava o seu especial da série global Grandes Nomes – que se transformaria no LP João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, lançado naquele mesmo ano. E decidiu convidar Rita Lee, com quem nunca havia tido nenhum contato, para um dueto em “Jou Jou Balangandans”.

Telefonou para Rita. Ela, no entanto, não acreditou que estava falando com o mito. Sendo assim, João lançou mão de um recurso: com seu estilo incomparável, cantou um dos sucessos da cantora “Chega Mais”. Do início ao fim. Boquiaberta, a rainha do rock se convenceu de que o seu interlocutor não era um impostor.

Insegura diante da ideia de atuar ao lado do papa da bossa-nova, Lee confessou que não conhecia a composição do grande Lamartine Babo. João, contudo, tranquilizou-a: “Não tem problema. Na verdade, é até melhor que seja assim”. Enviou para ela uma fita K7 com a música e, ao longo dos dias, telefonava para passar instruções. E fez um pedido: que Rita se apresentasse usando um vestido.

No dia do ensaio – Rita Lee, claro, estava presente –, João, com seu ouvido absoluto, percebeu um erro do violoncelista. Mesmo sem elevar a voz, deu um esporro monumental na orquestra. E cancelou o ensaio.

Resumindo: um dos mais inusitados – e carinhosos – duetos da história da música brasileira aconteceu praticamente sem ensaio. E tudo transcorreu às mil maravilhas. Detalhe: provavelmente foi a única vez em que João Gilberto cantou em público sem o seu inseparável violão.




quinta-feira, agosto 17, 2017

Da série ‘Causos’: ‘That's The Way It Is’, de Elvis Presley


Sempre que penso em Elvis Presley — cujo falecimento completou ontem exatos 40 anos —, inevitavelmente lembro do ótimo That's The Way It Is [1970], trilha sonora do documentário homônimo, batizado no Brasil de Elvis É Assim. Explico.

Quando o Rei do Rock morreu, eu sequer havia chegado na idade escolar. Mesmo assim, não fiquei imune à comoção que tomou conta dos meios de comunicação naquele momento. Ao lado de Roberto Carlos, Elvis instantaneamente se tornou o meu primeiro ídolo. E minha mãe, embevecida com o fascínio do filho tão pequeno pelo cantor, me deu de presente o álbum supracitado. Muito provavelmente aquele foi o meu primeiro disco.

A despeito da pouca idade, logo percebi que tinha um biscoito fino nas mãos. E rapidamente escolhi as minhas preferidas: a arrasadora versão de “You've Lost That Lovin' Feeling”, do produtor Phil Spector (uma das faixas mais tocadas durante a cobertura do funeral do artista), “You Don't Have To Say You Love Me”, além de “Bridge Over Troubled Waters”, pérola de Paul Simon. Sem esquecer, claro, “I Just Can't Help Believin'”, que abre maravilhosamente os trabalhos.

Mas, infelizmente, tudo passa. Em uma ensolarada tarde de sábado, recebemos a visita de uma tia, irmã de minha mãe. Inadvertidamente, eu havia deixado o disco em uma cadeira. Distraída, ela sentou em cima dele, estilhaçando-o. Embora não tenha chorado, não consegui disfarçar minha desolação. Ela percebeu e tentou me consolar: “Oh, não fique triste… A tia vai anotar o nome e comprar um novo para você, está bem?”

Estou esperando até hoje. Felizmente, com o advento do CD, foi lançada uma edição Deluxe. De qualquer forma, ainda guardo a capa vazia do vinil como recordação.


***


Por sorte, meu padrinho, também irmão de minha mãe, sempre foi fá ardoroso do Elvis. E, pouco tempo depois, provavelmente sensibilizado pelo pequeno incidente, tirou de sua coleção a coletânea Disco de Ouro [à esquerda, a capa] e me presenteou. Imediatamente, a bolacha começar a tocar até furar na minha estimada vitrolinha. 

Mas isso é assunto para outra postagem.



Veja o vídeo da infalível “I Just Can't Help Believin'”. Como diria uma obscura canção de Luiz Melodia: “Porque quando um rei diz que é rei / é rei:

sexta-feira, agosto 04, 2017

Da série ‘Causos’: Luiz Melodia (1951 – 2017)


Sempre nutri grande respeito pelo trabalho de Luiz Melodia, falecido hoje, aos 66 anos. Em mais de quatro décadas de carreira discográfica, foi o autor de canções importantes da música brasileira como “Estácio Holly Estácio”, “Magrelinha”, “Juventude Transviada” e, claro, “Pérola Negra” (sucesso na voz de Gal Costa), entre outras. Mas a grande verdade é que, como pessoa, Melodia, infelizmente, não me deixa boas recordações.

Há cerca de dez anos, dirigi-me a um luthier situado na Praça Tiradentes, Centro do Rio, para pedir uma informação. Após subir a enorme escadaria do antigo sobrado, aproximei-me do balcão para esperar o atendimento. De imediato, notei que o homem alto e magro à minha esquerda, acompanhado presumivelmente da esposa, lançou um olhar para mim: era Melodia. 

Sorridente, cumprimentei-o em voz baixa: “Luiz Melodia, boa tarde”. Por alguma razão que até hoje não consigo compreender, ele sentiu-se, pasmem, desconfortável com o cumprimento. E, para meu espanto, colocou-se à esquerda da jovem senhora que o acompanhava, no intuito de se afastar.

Desapontado, esperei que um funcionário do estabelecimento me atendesse, tirei a dúvida que precisava, agradeci e me retirei. Assim que virei as costas, percebi que Melodia me observava. Mas não olhei para ele novamente.

Enquanto caminhava, lembrei de uma entrevista que o cantor concedeu, em 1996, ao Barão Vermelho, na extinta revista Bizz. Na ocasião, a banda carioca havia acabado de lançar Álbum, com regravações de Ângela Rô Rô (“Amor, Meu Grande Amor”), Gang 90 (“Perdidos na Selva”) e do próprio Melodia (“Vale Quanto Pesa”), entre outros. Em um determinado trecho da conversa, ele disparou: “Sempre digo para os artistas que me regravam que pego o CD deles e ouço só a minha música”. Após o lamentável episódio do luthier, concluí que ele provavelmente não estava brincando com o grupo.

Neste dia, reforcei a minha convicção de que, como seres humanos, artistas podem ser muito diferentes da imagem pública que constroem. E, com a minha dificuldade em “separar a pessoa Física da Jurídica”, confesso que, desde então, nunca mais consegui ouvir um disco dele.

Todavia, apesar de tudo, lamento sinceramente a sua partida. Descanse em paz.


segunda-feira, abril 24, 2017

Da série ‘Causos’: Jerry Adriani (1947 – 2017)


Em um meio artístico dominado pelo egocentrismo e pela antipatia, é fundamental destacar que não há ninguém que, em algum momento, tenha criticado o comportamento de Jerry Adriani, falecido ontem, aos 70 anos. Carinhoso com os colegas e afável com os fãs, foi, ao longo de 53 anos de carreira, um exemplo de caráter e humildade. Um autêntico boa-praça. Uma pessoa do bem. Um espírito elevado.

Existe, aliás, um episódio envolvendo Jerry que é sempre relembrado pelos meus familiares. Há décadas, meu avô paterno dirigia na companhia de minha avó por uma das principais ruas da zona norte do Rio. E, em um determinado momento, levou uma baita “fechada”.

Ainda sem se refazer completamente do susto, ele observou que o autor da imprudência começou a reduzir a velocidade. Quando os dois veículos emparelharam, o motorista se desculpou pelo ocorrido e fez questão de perguntar se estava tudo bem. Era Jerry Adriani em pessoa.

A ele, todo o nosso respeito e admiração. E não apenas como artista, mas, principalmente, como ser humano. Descanse em paz.



Quando a Legião Urbana gravou o seu primeiro álbum, em 1984, o público e a crítica perceberam a (inegável) semelhança entre as vozes de Jerry Adriani e Renato Russo. Em 1999, Jerry homenageou Renato – que falecera três anos antes – com o (belo) álbum Forza Sempre, no regravou sucessos da Legião vertidos para o italiano:

quinta-feira, março 02, 2017

Da série ‘Causos’: a introdução de ‘Samba do Avião’, por Jobim e Dorival Caymmi


Apesar de amigos e confidentes desde a década de 1960 – quando gravaram juntos o álbum Caymmi Visita Tom e Leva seus Filhos Nana, Dori e Danilo [1964] –, Antonio Carlos Jobim e Dorival Caymmi, ironicamente, nunca compuseram em parceria. A única exceção foi uma introdução do sucesso “Samba do Avião” criada por Dorival.

Certa vez, o autor de “Samba da Minha Terra” estava no apartamento de Tom e decidiu colocar letra no trecho final da melodia da canção lançada em 1962. Como mote, lembrou da saudação que a esposa, a cantora Stella Maris, escrevia em todas as cartas enviadas para o marido – que, à época, frequentava um centro espírita em Niterói: “Salve Deus e Thiago e Humaitá”.

Jobim completou mencionando o desconforto que sentia ao aterrissar no aeroporto do Galeão, que hoje leva o seu nome: “Ê, Xangô / vê se me ajuda a chegar”.

A primeira parte da introdução (em letras itálicas) foi composta por Caymmi. A segunda foi inteiramente criada por Tom:


Epa Rei 
Aroeira
Beira de Mar
Canoa
Salve Deus e Thiago e Humaitá.

Eta costão de pedra
Dos “home” brabo do mar
Ê, Xangô
Vê se me ajuda a chegar.”


Curiosamente, a versão de “Samba do Avião” com a introdução criada pela dupla só foi registrada em disco duas vezes: no CD póstumo (gravado em 1987 sob encomenda da Odebrecht, como brinde para os funcionários da empreiteira) Inédito [1995], de Tom Jobim (com vocal solo de Danilo Caymmi); e em Novas Bossas, editado por Milton Nascimento na companhia do Jobim Trio em 2008.



Veja o vídeo de “Samba do Avião” – com direito a introdução, claro:

terça-feira, novembro 29, 2016

Da série ‘Causos’: George Harrison e Ringo Starr


No dia em que George Harrison​ completa exatos 15 anos de falecimento, vamos relembrar uma passagem comovente, que ilustra a sua amizade com Ringo Starr​.

Em 2001, o ex-baterista dos Beatles decidiu fazer uma visita ao seu companheiro de banda — que já se encontrava em estágio terminal — em um hospital da Suíça. Em um determinado momento, Starr pediu desculpas e disse que precisava se retirar: iria para Boston acompanhar a filha, Lee, que se submeteria a uma cirurgia para retirar um tumor do cérebro — da qual, felizmente, se recuperou. 

Totalmente devastado pela doença, Harrison mal conseguia se mexer no leito de hospital. Mas, mesmo assim, perguntou a Ringo:

— Quer que eu vá com você?

E estava falando sério.

Starr revelou esse episódio em uma entrevista concedida em abril de 2015 à revista Rolling Stone. E não conseguiu conter as lágrimas.


quarta-feira, outubro 14, 2015

Da série ‘Causos’: Luiz Carlos Miele (1938 — 2015)



Há cerca de cinco anos, eu estava saindo do estacionamento de um shopping da zona sul do Rio, quando percebi que conhecia de algum lugar o motorista do veículo cor prata que se encontrava à minha frente. Era o Miele.

Levemente impaciente, ele estava às voltas com o ticket do estacionamento — não conseguia inseri-lo no terminal de jeito nenhum. Quando finalmente a cancela abriu, ele rapidamente engatou a primeira e seguiu em frente. Chegando a minha vez, tive que remover o ticket dele, que havia ficado engatado na máquina.

Luiz Carlos Miele era uma artista completo. Um showman, na acepção da palavra. Atuava. Cantava. Dono de um humor fino, era um exímio contador de histórias, dotado de uma elegância que já não existe nos nossos dias. E, na companhia do também saudoso Ronaldo Bôscoli, produziu espetáculos de artistas do calibre de Roberto Carlos e Elis Regina, entre outros.

Mesmo sendo clichê, é inevitável dizer: com ele, um capítulo importante da história do show business brasileiro se vai. Até hoje, arrependo-me de não ter levado comigo o ticket de estacionamento que ele deixou preso no terminal. Seria uma boa recordação.

Descanse em paz.


terça-feira, dezembro 04, 2012

Da série ‘Causos’: Cream




Impossível falar sobre power trios como The Jimi Hendrix Experience sem mencionar o Cream [no detalhe], supergrupo por formado por Jack Bruce, Eric Clapton e Ginger Baker na década de 1960. 

Em apenas três anos (1966-1969), o Cream gravou quatro álbuns de estúdio — Fresh Cream, Disraeli Gears, Wheels of Fire e Goodbye — e encerrou as suas atividades, devido às brigas constantes entre Bruce e Baker. As apresentações da banda em sua reta final acabaram se tornando um mero espetáculo de exibicionismo por parte do baterista e do baixista/vocalista. 

Reza a lenda que, durante um show, Baker e Bruce começaram a improvisar alucinadamente, como se quisessem provar um para o outro quem era o instrumentista mais competente. Clapton, obviamente, percebeu a situação. E, para ver qual seria a reação da dupla, parou de tocar a sua guitarra.

Pasmem: os dois rivais sequer perceberam (!). E prosseguiram o seu “duelo” particular.




Em 2005, o Cream se reuniu para cinco apresentações no Royal Albert Hall, em Londres. Clapton revelou à imprensa que a ideia partiu dele. E foi motivada pelo estado de saúde dos ex-companheiros — Baker sofria de artrite e Bruce, vítima de câncer, havia passado por um transplante de fígado. A fragilidade física da dupla é visível no vídeo abaixo, do maior clássico do grupo, “Sunshine Of Your Love”, extraído do DVD Royal Albert Hall London May 2-3-5-6, 2005. A (exuberante) técnica instrumental do trio, entretanto, não se dissipou com o tempo. E, infelizmente, o mesmo se pode dizer das rusgas do passado. Observem que, antes de saírem do palco, Clapton e Bruce, sorridentes, se abraçam. Este e Baker, por sua vez, mal se olham... 


domingo, dezembro 02, 2012

Da série ‘Causos’: ‘Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band’, com Jimi Hendrix



Para finalizar, por ora, o assunto Jimi Hendrix, um episódio que ajuda a ilustrar toda a sua genialidade. Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, considerado o melhor e mais influente álbum da história da música pop, foi lançado pelos Beatles no dia 01 de junho de 1967, uma quinta-feira.

Pois bem: Hendrix comprou o álbum e, provavelmente antevendo o que aquele trabalho viria a representar, aprendeu a tocar a faixa-título. Na noite de domingo — apenas três dias (!) após o lançamento do disco —, o guitarrista abriu o show que realizou no Saville Theatre, em Londres, com ela. 

Detalhe: na plateia, estava um atônito Paul McCartney, que mal acreditava no que estava vendo/ouvindo...



Veja o vídeo com a versão de Jimi Hendrix para o clássico “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band:


sábado, março 10, 2012

Inaugurando a série ‘Causos’: Roberto Carlos & Erasmo Carlos



O fato já foi mencionado publicamente inúmeras vezes tanto por Roberto quanto por Erasmo Carlos. Quando um dos faz aniversário, o aniversariante telefona para o outro e diz:

Bicho, você pode ligar para cá e o telefone estar sempre ocupado. Ou acontecer de eu ter saído. Então, estou ligando só para você me dar os parabéns....