Exibido na Broadway este ano, o musical Lazarus foi, ao lado do CD Blackstar, um dos últimos trabalhos de David Bowie, falecido no dia 10 de janeiro. E a trilha sonora do espetáculo, formado inteiramente por canções do Camaleão interpretadas pelo elenco, chega agora às prateleiras, via Sony Music, em edição nacional.
Os arranjos de algumas faixas, como “Valentine's Day”, “Where Are You Now?”, “Love Is Lost” e o blues “Dirty Boys” — curiosamente, todas do penúltimo álbum de Bowie, o ótimo The Next Day [2013] — são idênticos aos originais. O que resulta em uma grande perda de tempo — afinal, se é para ouvir covers, melhor recorrer à (vasta) discografia do artista.
Os melhores resultados são alcançados justamente nas releituras que “desconstruíram” as gravações originais. É o caso de “This Is Not America”, quase irreconhecível na voz de Sophia Anne Caruso, e da abordagem minimalista de “Heroes” na voz de Michael C. Hall, protagonista do extinto seriado Dexter. Mas nada se compara à (acachapante) versão eletrônica de Charlie Pollack de “The Man Who Sold The World”, também regravada com sucesso pelo Nirvana em 1994. Bowie — que, felizmente, teve tempo de assistir a peça — deve ter adorado.
Entretanto, o grande trunfo da trilha é o CD bônus que traz as três últimas faixas inéditas de David Bowie, gravadas na companhia do Donny McCaslin Trio durante as sessões do já mencionado Blackstar. “When I Met You” é uma tocante canção pop com melodia tipicamente Bowie, em que os vocais “dobrados” passam a impressão de que ele “dialoga” consigo próprio. Já a pesada e raivosa “Killing a Little Time” parece falar sobre a doença que o vitimou: “Estou caindo, cara / estou sufocando, cara / Estou desaparecendo, cara”.
A lenta “No Plan” é a melhor das três. Capcioso, Bowie brinca com a palavra “plano” — que tanto pode se referir a “planejamento” quanto a outro plano… existencial: “Todas as coisas que compõem a minha vida / meu humor / minhas crenças / meus desejos / eu, sozinho / nada a se arrepender / este não é lugar nenhum / mas aqui estou eu”.
Entre obviedades e bons momentos, Lazarus se impõe, principalmente, pelo valor documental: trata-se do último estertor criativo de um artista incomparável. E que deixou muita saudade.
Ouça a (acachapante) versão eletrônica de “The Man Who Sold The World” de Charlie Pollack...
...e também “No Plan”, uma das três inéditas deixadas por Bowie:
Além dos dois (impactantes) vídeos gravados pelo próprio David Bowie, Blackstar ganhou um terceiro audiovisual — o primeiro póstumo.
Utilizando recursos de computação gráfica, Jonathan Barnbrook — também responsável pelo design do álbum — criou um caprichado lyric video para a comovente “I Can't Give Everything Away”, faixa que encerra (com chave de ouro) o último CD de Bowie.
Barnbook explicou suas escolhas:
— Começamos [o vídeo] com o mundo preto-e-branco de ★. Contudo, no refrão final, mudamos para um colorido brilhante, como uma espécie de “celebração” ao David. Uma forma de dizer que, apesar da adversidade que enfrentamos, das dificuldades que surgiram com a morte do David, os seres humanos são naturalmente positivos. Eles olham para frente e conseguem tirar algo positivo do passado e usar como algo para ajudá-los no presente. Somos uma espécie naturalmente otimista e sempre celebramos o bem que nos é ofertado.
Sting nunca escondeu que o fator surpresa sempre foi o principal motor de seu trabalho. Em 2007, depois de gravar o CD de alaúde mais vendido da história (o medieval Songs From The Labyrinth), deixou o mundo estupefato ao reativar o Police para uma bem-sucedida turnê mundial – algo que passou duas décadas repetindo que “jamais” faria. Terminada a excursão, passou a ostentar uma barba típica de um profeta e debruçou-se nas canções invernais do melancólico If On A Winter's Night [2009]. Em outra reviravolta, decidiu reler faixas de sua carreira solo e de seu antigo grupo acompanhado por uma grande orquestra em Symphonicities [2010]. E, por fim, compôs a trilha do seu primeiro musical exibido na Broadway, The Last Ship [2013]. Portanto, o que surpreenderia o seu público? Um retorno ao formato básico de baixo-bateria-guitarra, sem dúvida. Bingo: essa é justamente a proposta do inglês no recém-lançado 57th & 9th – esquina nova-iorquina que ele atravessava diariamente no caminho para o estúdio de gravação. Detalhe: o seu último disco “de carreira”, o bom Sacred Love, foi lançado em 2003 (!).
É bem verdade que a irresistível “I Can't Stop Thinking About You”, que abre os trabalhos, e a pesada “Petrol Head” não soariam deslocadas no repertório do Police. Aliás, perguntado se o disco novo teria o som característico do trio, Sting respondeu à moda Newcastle (região do norte da Inglaterra onde nasceu, na qual as pessoas são reconhecidamente… rudes): “I am the fucking Police”. Contudo, é mais apropriado definir 57th & 9th como um álbum de pop rock – como a agradável “One Fine Day”, que clama para que, “um dia desses”, líderes mundiais se mobilizem acerca do aquecimento global.
Um dos pontos altos é a amarga “50,000”, que mostra o impacto que as mortes de David Bowie, Prince, Glenn Frey e do amigo Alan Rickman (o “Snape” da série Harry Potter) exerceram sobre Sting, que completou 65 anos no mês passado. “Outro obituário no jornal de hoje”, lamenta. Em um determinado trecho, ele parece se dirigir aos seus ex-colegas de banda: “Como lembro bem dos estádios em que tocamos / e as luzes que varriam o mar de 50.000 almas que enfrentaríamos”. E, ciente da “imortalidade” que os seus companheiros de profissão costumam atingir, conclui: “Astros do rock nunca morrem / apenas desvanecem”.
Por outro lado, o Sting reflexivo dos últimos 30 anos se faz presente nas acústicas “Heading South On The Great North Road”, balada com ares celtas que poderia tranquilamente estar em The Last Ship, e “The Empty Chair”, que encerra os trabalhos com um pedido: não ser esquecido depois de partir (“Guarde o meu lugar e a cadeira vazia / e, de alguma forma, estarei lá”).
Bom letrista, ele se mostra afiado na arabesca “Inshallah”, que aborda a questão dos refugiados. O título é uma expressão bastante utilizada no mundo islâmico, que, em uma tradução livre, equivale ao nosso “se Deus quiser”. Na edição Deluxe do álbum, há uma outra versão dessa faixa, gravada em Berlim na companhia de músicos egressos da Síria. No entanto, a melhor letra provavelmente é a tocante “If You Can't Love Me” (“Não quero nada pela metade (…) / se você não consegue me amar assim / então você tem que me deixar”).
Embora um tanto incompreendido – e subestimado – desde o início de sua trajetória solo, Sting já foi indicado 38 vezes para o Grammy, tendo vencido em 16 ocasiões. Está indiscutivelmente inserido no panteão dos grandes compositores pop do século passado, onde já se encontram Lennon & McCartney, Jagger & Richards, Elton John & Bernie Taupin, o supracitado David Bowie e Bob Dylan, entre outros. E, em 57th & 9th, a mensagem é clara: a canção popular ainda é assunto dele, sim.
Apesar da idade avançada (82 anos), recebi com espanto — e tristeza — a notícia do falecimento de Leonard Cohen. Sobretudo porque ele lançou um CD novo, You Want It Darker há apenas três semanas. A causa da morte não foi divulgada.
Poeta que se tornou cantor e compositor somente depois dos 30 anos de idade, o canadense de origem judaica intensificou a sua atividade profissional nos últimos 15 anos de vida. De 2012 para cá, chegou a lançar discos ano-sim-ano-sim. O “surto criativo”, contudo, tem uma explicação prática: a descoberta de que uma ex-agente havia abalado as suas finanças.
Dono de uma obra de raro lirismo, Cohen pode ser considerado um dos três maiores letristas da música pop de todos os tempos — os outros dois são Lou Reed e, claro, Bob Dylan. E, com sua voz grave e seu estilo declamado de cantar, acabou se tornando um intérprete peculiar para as próprias canções.
Em agosto desse ano, enviou um e-mail para a amiga (e ex-namorada) Marianne Ihlen — inspiradora de “So Long Marianne”—, que veio a falecer no dia seguinte, vítima de leucemia. Na carta, lida no funeral da norueguesa, Cohen foi fiel ao seu melhor estilo: “Bem, Marianne, chegou aquela altura em que estamos tão velhos que os nossos corpos começam a se desfazer e acho que vou lhe seguir muito em breve. Quero que saiba que estou tão próximo que se estender a mão talvez consiga tocar na minha. (...) Quero apenas lhe desejar boa viagem. Adeus, velha amiga. Encontramo-nos no caminho”.
Em 2016, a música popular perdeu David Bowie, Glenn Frey, Prince e, agora, Leonard Cohen. Um ano para lá de esquisito.
Cohen será sempre lembrado pela sua obra-prima “Hallelujah” [1984], que, curiosamente, tornou mais conhecida nos últimos anos como “a música do filme do Shrek”. A versão definitiva, no entanto, é a do também falecido Jeff Buckley, que integra o único álbum que lançou em vida, o estupendo Grace [1994]:
Dentre todas as biografias de músicos de rock já editadas, David Bowie Está Aqui é, sem dúvida, uma das que mais impressionam pelo acabamento. Convenhamos: Bowie merece tal deferência.
Enorme (31,2 x 24,2), trata-se de um misto de enciclopédia (pela pesquisa minuciosa) e livro de arte (por ser fartamente ilustrado com fotos de várias fases da vida do cantor, seus trajes e até de manuscritos de suas letras). A explicação: foi a primeira obra que teve acesso irrestrito ao The David Bowie Archive, o acervo pessoal do cantor.
A publicação data de 2013, por ocasião da exposição itinerante homônima de Bowie, exibida inicialmente no Victoria and Albert Museum, em Londres, de março a agosto daquele ano, e que foi reapresentada no Museu da Imagem do Som, em São Paulo, no ano seguinte. Os curadores do museu londrino dissertam sobre a influência do autor de “Fashion” – que se estendeu, inclusive, ao mundo da moda (!).
A má notícia é que a editora Cosac & Naif encerrou as suas atividades em novembro de 2015 – o que, em breve, transformará “David Bowie Está Aqui” em um item de colecionador. Algumas lojas virtuais, contudo, ainda possuem o item em estoque. Portanto, fica a dica: não deixe para amanhã para adquirir esse documento essencial sobre a vida e a trajetória singular do Camaleão.
Três meses após o abrupto desaparecimento de David Bowie, 2016 levou mais uma estrela de primeira grandeza do pop. Prince, 57 anos, foi encontrado sem vida no elevador de seu estúdio-residência Paisley Park, em Minneapolis, EUA. A causa do óbito ainda é desconhecida.
Em 38 anos de carreira fonográfica, deixou 39 álbuns, nos quais transitou com insuspeitada desenvoltura entre a black music e o rock. Além de cantar, compunha, produzia, dançava como poucos e era um exímio guitarrista. Não se deve classificar qualquer um como “gênio”. Mas ele bem que merecia o adjetivo.
Teve o seu auge comercial nos anos 1980, através de uma coleção de hits como “Purple Rain”, “When Doves Cry”, “Raspberry Beret”, “I Feel For You” (sucesso retumbante na voz de Chaka Khan) e “Nothing Compares 2 U” (conhecida mundialmente na versão de Sinéad O'Connor), entre outros, rivalizando com pesos-pesados com Michael Jackson e Madonna.
Na década seguinte, entrou em rota de colisão com as gravadoras e, desde então, passou a editar seus álbuns de modo independente. E foi além: começou a assinar os seus trabalhos com um símbolo ininteligível e impronunciável, exigindo que a imprensa musical o chamasse de O Artista. Por sua vez, os repórteres o denominavam como The Artist Formerly Known As Prince (O Artista Anteriormente Conhecido como Prince) — embora alguns repórteres se referissem a ele como… O Símbolo.
Do ponto de vista empresarial, Prince não lidou muito bem com o advento da internet. É bem verdade que vários de seus últimos singles foram lançados somente em formato digital. Mas, em contrapartida, por determinação judicial, a maioria de seus vídeos oficiais está disponível no YouTube sem a pista de áudio — ou seja... mudos. Tampouco permitiu que suas canções fossem incluídas em serviços de streaming como Spotify e Deezer. Resultado: embora continuasse lançando trabalhos de qualidade e com espantosa produtividade — eventualmente, mais de um CD por ano (!) —, os mesmos não chegavam ao grande público como deveriam.
Espera-se que o espólio de Prince reconsidere a relação de sua obra com as plataformas digitais. Para que as novas gerações tenham o privilégio de conhecer o talento de uma artista único.
Veja o vídeo de “Purple Rain”, tema do filme homônimo que, em 1984, permaneceu 24 semanas (!) no primeiro lugar da Billboard:
Pop
rock melodioso, “Valentine's Day”
foi o quarto single — e uma das melhores
faixas — do penúltimo álbum de David Bowie, o ótimo The Next Day
[2013]. O título alude ao Dia de São Valentim*, celebrado em vários
países como o Dia dos Namorados a cada 14 de fevereiro. Não se
trata, contudo, de uma música sobre a data.
A
letra fala de um certo Valentim, presumivelmente um adolescente que,
como a maioria, vive “em seu próprio mundo” (“Sentimentos que
ele guarda mais do que tudo / os professores e os astros do
futebol”), em total inadequação com o que se passa ao seu redor
(“Como se o mundo inteiro estivesse nos seus calcanhares”).
Portanto, apesar do nome — e de ter “algo a dizer” —, ele não
tinha motivos para comemorar o Dia de São Valentim.
No
vídeo, Bowie apresenta-se despido de qualquer persona. Vestido
informalmente, era apenas um senhor de 66 anos, empunhando uma
guitarra G2T Hohner em um silo aparentemente abandonado e
interpretando sua canção com enorme intensidade. Observem os
olhares que ele lançava para a câmera.
Ao
final, com a respiração pesada, o artista ergue o seu instrumento,
triunfante. E certo de ter conseguido, com a sua antítese, fugir de
todos os clichês que se poderia esperar de uma faixa com esse
título.
*
Há inúmeras controvérsias acerca de São Valentim. A versão mais
aceita sobre a sua origem é a de que teria sido um bispo que,
clandestinamente, decidiu continuar realizando casamentos em períodos
de guerra, contrariando a ordem do imperador Cláudio II — que
considerava homens solteiros mais aptos para as batalhas. Descoberto,
foi preso e condenado à morte. Enquanto aguardava a execução,
recebia cartas e bilhetes de jovens solteiras, em sua maioria
reafirmando sua crença no amor. Acabou iniciando um romance (!) com
a filha de um dos carcereiros, que era cega e, milagrosamente,
recuperou a visão — de onde se explica a canonização. No dia de
sua execução, deixou para a moça uma mensagem de adeus, assinando
“do seu Valentim” — expressão que, no hemisfério norte,
passou a ser sinônimo de “namorado”. Exemplo: “My Valentine”,
canção composta e gravada por Paul McCartney em 2013.
Veja
o tocante vídeo oficial de “Valentine's Day”:
Em
08 de janeiro de 2013, dia em que completou 66 anos, David Bowie
pregou um susto em todo mundo. Após um silêncio de quase uma década
— no qual se submeteu a uma cirurgia cardíaca —, lançou uma
música nova, pegando de surpresa até a sua assessoria de imprensa.
A
serena “Where Are We Now?” era o retrato de um homem nostálgico
passeando pelas ruas de Berlin, onde viveu entre 1976 e 1979. Vários
pontos da cidade, inclusive, citados na letra.
A
faixa era a prévia do roqueiro The Next Day, que chegaria às
prateleiras dois meses depois. Diferentemente do experimentalismo dos
anos anteriores, Bowie concebeu um disco básico, “tradicional” —
para os seus padrões — e com muitas guitarras. E a citação a
Berlin no primeiro single não é isolada: a capa [no detalhe] evoca
a arte do clássico “Heroes” [1978], segunda parte da chamada
“trilogia de Berlin”.
Curiosamente,
na letra de “Where Are We Now?”, Davie Bowie se define como um
“homem perdido no tempo” que se encontra… “caminhando com os
mortos”:
Ambas
regravadas em ★, “Sue (Or In a Season of Crime)” e seu lado B,
“'Tis a Pity She Is a Whore”, já haviam sido editadas em single
por David Bowie. Eram as duas faixas inéditas da coletânea Nothing
Has Changed, de 2014. Gravada na companhia da orquestra de Maria
Schneider [que aparecer no detalhe, ao lado do cantor], “Sue...” já indicava o
desejo de Bowie de se aproximar do jazz — o que, de certa forma,
veio a se materializar em seu último álbum.
Na
ocasião, uma matéria do jornal francês Le Monde apontava a
(inegável) semelhança entre a melodia de “Sue...” e a de
“Cais”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Logo após a
publicação, Maria Schneider, coautora da faixa, enviou uma elegante
mensagem para Bastos, argumentando que “embora tenha enorme apreço”
pela composição da dupla, não teve intenção de
fazer referência a ela.
Bastos
afirmou que ouviu a gravação de Bowie antes de ler o artigo e não
percebeu semelhança com “Cais”. Voltou a ouvir depois de ler a
reportagem e, dessa vez, notou sequências harmônicas e notas
parecidas, mas “nada que possa ser considerado plágio”. Através
de sua assessoria de imprensa, Milton também reconheceu que as duas músicas
são “parecidas”. Contudo, assumiu a mesma postura de seu
parceiro.
A
letra de “Sue (Or In a Season of Crime)” já apresenta menções
à doença (“Sue, a clínica telefonou / o raio x está bom”) e à
morte (“Sue, você falou que queria escrever ‘Sue, a Virgem’ /
na sua lápide / para o seu túmulo”, em uma tradução livre). E,
apesar do arranjo classudo, tradicional, a narrativa tem um
inesperado desfecho rodrigueano: ao descobrir um bilhete de Sue
informando que iria fugir com outro, o eu-lírico, durante um passeio
de trem, a atira “nas ervas daninhas”, matando-a.
Veja
o vídeo oficial da primeira gravação “Sue (Or In a Season of
Crime)” — amplamente superior à versão regravada em ★:
Segunda
faixa do
estupendo Clube da Esquina, de
1972
[no
detalhe, a capa], “Cais”, além da exuberante melodia de Milton
Nascimento, apresenta inspirada letra de Ronaldo Bastos, que pode ser
compreendida como o relato de um relacionamento encerrado porque uma
das partes precisava de “liberdade” (“Para quem quer se soltar
/ invento o cais”).
Ainda
assim, o narrador se mantém firme em suas convicções (“Para quer
quem me seguir / eu quero mais / tenho o caminho do que sempre
quis”), se mostra aberto a novas possibilidades (“E um saveiro
pronto para partir”) e não abdica de seus sonhos (“Invento em
mim o sonhador”).
Milton
abriu o DVD ao vivo Uma Travessia — 50 Anos de Carreira [2013] com uma
magnífica versão de “Cais”. E não abriu mão de sentar ao piano
para executar o belo tema instrumental que encerra a gravação
original — e que retorna em “Um Gosto de Sol”, também de Clube
da Esquina:
No dia 08 de janeiro, data em que completou 69 anos, David Bowie editou ★ (que tornou-se imediatamente conhecido como Blackstar), seu 25º álbum de inéditas, já disponível no iTunes e em serviços de streaming como o Deezer e o Spotify — a edição física nacional ainda encontra-se em pré-venda. Na ocasião, tanto o público quanto a imprensa sequer suspeitaram que esse seria o seu último trabalho — o cantor faleceu dois dias depois, após 18 meses combatendo em total sigilo um câncer de fígado. Embora a necrofilia seja, infelizmente, uma realidade, o seu desaparecimento não faz com que o disco se torne “melhor”. Contudo, o desenlace ajuda a elucidar os “enigmas” espalhados por Bowie nas (experimentais)sete faixas que compõem o disco.
A capa apresenta uma estrela negra em um fundo branco, representando graficamente o título do álbum. Nas lápides, todos sabem, estrelas indicam a data de nascimento. Entretanto, se o símbolo é negro, provavelmente indicam uma espécie de... “renascimento” ocorrido post mortem. O nome do artista, aliás, é “escrito” através de partes dessa mesma estrela. Vale observar que, em 49 anos de carreira discográfica, foi a primeira vez em que a imagem de Bowie não aparece na capa de um trabalho seu.
Do ponto de vista sonoro, a ordem, segundo o produtor Tony Visconti, era “evitar o rock”. De fato, músicos de jazz foram arregimentados para as gravações — o quarteto de Donny McCaslin — e, evidentemente, elementos jazzísticos permeiam ★ em sua totalidade. Todavia, é um equívoco classificá-lo como “um álbum de jazz”. Bowie, todos sabem, sempre passou ao largo de qualquer obviedade — e agora não seria diferente agora. Outro detalhe curioso é a onipresença do saxofone de McCaslin no disco, considerando que o sax foi o primeiro instrumento do Camaleão. “No início, eu não sabia se queria ser um roqueiro ou John Coltrane”, declarou certa vez.
Duas canções já haviam sido lançadas em single: “Sue (Or In a Season of Crime)” e “'Tis a Pity She Is a Whore”, as inéditas da compilação Nothing Has Changed, de 2014. Já “Girl Loves Me”, que emula a batida do hip hop (!), é cantada, em parte, no dialeto ficcional Nadsat, que mistura o russo com o inglês, utilizado no livro Laranja Mecânica. E repete inúmeras vezes uma pergunta, no mínimo, estranha: “Where the fuck did Monday go?” (“Onde foi parar a porra da segunda-feira?”, em uma tradução livre). Bowie faleceu em um domingo…
A emoção transborda nas duas faixas que encerram o álbum. Na suave “Dollar Days”, Bowie brinca com as palavras: “I’m dying to (...) / fool them all again and again” (“Estou louco para (…) enganá-los a todos de novo e de novo”). Contudo, no final, ele canta repetidamente “I'm dying to” que também pode significar... “estou morrendo”. E é impossível não se comover ao ouvir o verso: “Não acredite, nem por um segundo / que estou esquecendo você”. Por sua vez, “I Can't Give Everything Away”, que finaliza o trabalho, apresenta, na introdução, um trecho da instrumental “A New Career In a New Town”, do clássico Low [1977]. A letra trabalha com antíteses (“Vendo mais e sentindo menos / dizendo ‘não’, mas querendo dizer ‘sim’ (…) / Essa é a mensagem que deixei”). E, cantando como nunca, se despede como quem se desculpa, em um refrão tão simples quanto… arrebatador: “Não posso revelar tudo”.
Com ★, David Bowie escreveu o seu próprio réquiem. Provavelmente a música popular jamais viu um artista, estando ciente de que lhe restava pouco tempo, produzindo com tamanha lucidez e planejando cada etapa de modo tão meticuloso. Bowie não nos deixa dúvidas de que sempre teve controle total sobre a sua obra. Até o fim.
Divulgado em novembro de 2014, o vídeo da faixa-título — de quase dez minutos de duração (!) — é um praticamente um curta-metragem. Nele, Bowie criou uma nova personagem, que batizou que Buttom Eyes (Olhos de Botão), talvez se inspirando na tradição da Grécia Antiga de se colocar moedas nos olhos dos mortos. Apesar dos arabescos, a segunda parte de “Blackstar” adquire, na segunda parte — quase na metade — um tocante (e quase messiânico) acento soul. Tudo leva a crer que se autointitular “uma estrela negra” alude à própria mortalidade. E a imagem da caveira de um astronauta — uma provável referência a outra personagem, Major Tom — só reforça essa ideia:
Lançado dois dias antes do álbum, o impactante vídeo de “Lazarus” (o discípulo ressuscitado por Jesus Cristo, de acordo com o Novo Testamento), segunda faixa de trabalho, permanecerá na mente dos fãs de Bowie por muitos e muitos anos. Mais uma vez, Buttom Eyes se faz presente, mas, dessa vez, em um leito hospitalar (!). Após a notícia do desaparecimento do artista, a letra tornou-se clara como água: “Olhe aqui / estou no Céu / tenho cicatrizes que não podem ser vistas (…) / Olha aqui, cara / estou em perigo / não tenho nada a perder”. E, enquanto canta, seu corpo parecer querer levitar, mas é impedido por mãos femininas que “brotam” de baixo da cama — os possíveis laços familiares. Em um outro momento, ele já aparece de pé, sem a venda nos olhos, e tenta escrever algo — uma carta de despedida? Mas se detém. Pensa. E recomeça. Após terminar, um envelhecido Bowie afirma que “será livre” — do calvário da sua enfermidade, presume-se. E se refugia lentamente dentro de um armário — que pode muito bem representar um caixão...
Durante
as gravações do álbum Young Americans— um
mergulho no universo da soul music —, em 1975, no estúdio Record
Plant (Nova York), David Bowie e banda trabalhavam em um cover de
“Foot Stoppin'”, faixa de 1961 do grupo Flares. E o guitarrista
Carlos Alomar criou um riff que, na opinião do cantor, seria um
“desperdício” se fosse utilizado em uma canção alheia.
Dias
depois, John Lennon apareceu no estúdio, como fazia habitualmente, e
Bowie mostrou a ele o riff de Alomar. Lennon rapidamente aprendeu a
sequência e ficou tocando em um canto, grunhindo algo como “aim,
aim”. Até que, do nada, o ex-beatle murmurou a palavra mágica:
“Fame”.
Quando
ouviu, Bowie deu um pulo: “É isso! ‘Fame’! O John acaba de nos
ajudar a compor a canção!”
Lennon
continuou tocando a guitarra rítmica e, em cerca de vinte minutos, a
banda finalizou a base da faixa. Naquela mesma noite, em casa, Bowie
escreveu a letra, se orientando pelo conceito de “fama”.
No
dia seguinte, John retornou ao estúdio. E aprovou o resultado final
de sua “parceria” com Bowie e Carlos Alomar:
Em
1983, David Bowie encontrava-se em estúdio gravando um novo álbum,
até então sem título, sob a batuta do produtor Nile Rodgers. Um
belo dia, Bowie mostrou uma nova canção —
“descartável”, segundo a avaliação do músico inglês — para
Rodgers:
—
Olha,
tenho aqui uma coisinha chamada “Let's Dance”. É bem caretinha,
mas acho que dá para entrar como algum lado B, só para encher
linguiça.
Após
ouvir a música, o guitarrista do Chic disse:
—
Não,
deixa ela comigo.
O
resto é história. Em entrevista concedida em 1990, o cantor
comentou com entusiasmo:
—
Rodgers
fez o arranjo e mudou completamente a música, criando um “monstro”,
uma verdadeira obra-prima para as pistas! Algo que eu nunca poderia
imaginar!
Além
de se tornar a faixa-título do álbum [no detalhe, a capa], “Let's
Dance” foi um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Bowie:
Eu era apenas um menino quando ouvi falar em David Bowie pela primeira vez. E foi, pasmem, em um divertido comercial da Pepsi, veiculado em meados da década de 1980. No anúncio, Bowie era um cientista que introduzia várias fotos — e até um salto alto — de beldades em uma máquina que criaria a “mulher ideal”. Iniciado o processo, o “professor Pardal” esbarra no refrigerante e causa uma pane instantânea. Em meio à fumaça, sai de dentro do equipamento a sua tão desejada criatura: Tina Turner.
A canção tema era a infalível “Modern Love”, faixa de Let's Dance [1983]. E, apesar da minha pouca idade, percebi que estava diante de algo muito especial — tanto que é uma das minhas preferidas de Bowie até hoje. Mais uma vez, ficava claro que a canção pop poderia ser algo profundo, sem abandonar o seu caráter infeccioso. E comover.
Somente anos depois vim a conhecer a fase Ziggy Stardust e a trilogia Low [1977], “Heroes” [1978] e Lodger [1979]. E passei a admirar até títulos pouco celebrados de sua discografia, como o eletrônico Earthling [1997]. Sem nenhum favor, era um mais imprevisíveis músicos de que se tem notícia. Poucos, pouquíssimos tiveram tamanha coragem para se reinventar tantas vezes (quem se lembra, por exemplo, do Tin Machine?).
Bowie lançou o seu 25º — e derradeiro — trabalho, Blackstar, há exatos três dias (!), quando completou 69 anos de idade. Chegou a gravar dois vídeos do álbum (a faixa-título e “Lazarus”). E, até então, nenhum veículo jornalístico do planeta havia informado que o cantor se encontrava em tratamento contra um câncer há 18 meses. Por tudo isso, a notícia de seu desaparecimento chocou a todos nas primeiras horas da manhã de hoje.
Na supracitada “Modern Love”, há um curioso verso que diz: “Mas eu nunca aceno adeus”. Não há a menor dúvida quanto a isso. Descanse em paz, Camaleão.
Veja o comercial da Pepsi, estrelado por David Bowie e Tina Turner nos anos 1980…
‘I Remember You’ Em 2011, “I Remember You” completará, pasmem, 70 anos de idade (!) – foi composta em 1941. De lá para cá, recebeu inúmeras versões, como a de Ella Fitzgerald e, mais recentemente, da supracitada Diana Krall. George Michael optou por gravá-la de maneira suave, acompanhado apenas por uma harpa. Ficou bonito.
‘Secret Love’ Escrita em 1953, “Secret Love” foi lançada em single por Doris Day naquele mesmo ano. Desde então, foi gravada por mais de uma dezena de artistas – entre eles, a canadense k. d. lang e Frank Sinatra. Ao som de metais em brasa para Tony Bennett nenhum colocar defeito, George Michael... brilha. “Certa vez, tive um amor secreto / que vivia dentro de meu coração”, suspiram os ingênuos versos. Em 1995, “Secret Love” recebeu uma versão em português de Dudu Falcão, chamada “Um Segredo e um Amor”, que foi registrada por Jorge Vercillo para a trilha da novela Cara e Coroa.
‘Wild Is The Wind’ A primeira gravação de “Wild Is The Wind” foi de Johnny Mathis, em 1957, para a trilha sonora do filme homônimo. Em 1966, recebeu uma versão de Nina Simone, considerada a mais bem-sucedida.
A letra é pura paixão: “Você me toca – ouço o som de bandolins / Você me beija – com seu beijo, minha vida começa”. Curiosidade: David Bowie [foto], fã de Nina, encontrou-se casualmente com a cantora em Los Angeles, na década de 1970. Desse encontro, o cantor inglês teve a ideia de regravar “Wild Is The Wind”. Sua (boa) releitura aparece no álbum Station to Station, de 1976.