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quarta-feira, novembro 15, 2017

Em bela homenagem, Lulu Santos ‘se apropria’ e ‘desconstrói’ Rita Lee



CD
Baby, Baby! (Universal Music)
2017

2017 seria uma um “ano sabático” para Lulu Santos [em foto de divulgação de Léo Aversa]. Sim, “seria”: a leitura da autobiografia de Rita Lee, editada no final de 2016, alterou os planos do cantor. E motivou o lançamento de Baby, Baby!, no qual regravou doze faixas da legítima rainha do rock nacional. É a segunda vez que Lulu dedica um trabalho a um outro artista: em 2013, prestou uma respeitosa homenagem a Roberto e Erasmo Carlos.

Do alto de 35 anos de carreira discográfica, não se poderia esperar que Lulu caísse na armadilha do cover – e, naturalmente, ele não caiu. Muito pelo contrário: “se apropriou” de “Desculpe o Auê”, “Baila Comigo” – embora esta não tenha necessariamente se beneficiado da mudança de compasso – e “Caso Sério”, inserindo-as na estética de “bolero havaiano” de sucessos seus como “Sereia” e “Como uma Onda”.

O mesmo vale para “Disco Voador”, que abre os trabalhos – e supera a gravação original, lançada por Rita no LP Babilônia, de 1978 – com direito a um solo de slide guitar que remete à sonoridade dos três primeiros discos do artista. Para quem não conhece a canção, soa tranquilamente como a “a música nova de Lulu Santos”. No mais, o músico se dedicou a “desconstruir” as canções de sua musa.

Famosa pela gravação de Elis Regina, “Alô, Alô, Marciano” ganhou inesperada roupagem eletrônica. O clássico “Ovelha Negra” – cujo refrão, aliás, batizou o CD –, apesar dos sequenciadores, tem uma levada de… baião (!). E o rock “Agora Só Falta Você” se transformou em um... funk melody (!). Aos críticos do ritmo carioca, uma observação: o resultado, acreditem, foi bastante satisfatório.

Originalmente dançante, a pouco conhecida “Paradise Brasil” – do álbum Reza, de 2012 – não sofreu alterações na releitura de Lulu. “Mania de Você”, no entanto, ressurgiu como um trip hop soturno, acrescido de um belo solo de guitarra. Do repertório d'Os Mutantes, a escolhida foi “Fuga nº II”, que, apesar dos timbres bem escolhidos, nada acrescentou à faixa.

Concebido com um rock a la Rolling Stones para o terceiro disco solo da cantora, Atrás do Porto Tem uma Cidade [1974], “Mamãe Natureza”, na versão de Lulu, tornou-se um blues, com a adição de discretos metais estilo “Penny Lane”. O calcanhar-de-Aquiles do disco é a (surpreendentemente) apática releitura de “Nem Luxo, Nem Lixo”, que encerra os trabalhos em uma espécie de “anticlímax”. Melhor lembrar do matador registro de 1995 de Marina Lima.

Baby, Baby! possui dois grandes méritos: a) a originalidade com que a obra de Rita Lee – que merece ser sempre celebrada e atualizada para as novas gerações – foi abordada; b) não é sempre que temos a feliz oportunidade de presenciar um vértice do “triângulo mágico” do pop nacional homenageando o outro – o terceiro chama-se Guilherme Arantes. Contudo, em se tratando de um hitmaker como Lulu Santos, um CD de inéditas seria bem-vindo: o mais recente, o regular Luiz Maurício, é de 2014.



Leia também:




Veja o simpático lyric video de “Baila Comigo:


quarta-feira, maio 14, 2014

Alexandre Pessoal (1974 — 2014)



Alexandre Pessoal foi meu contato no Facebook durante muito tempo. Precisamente até o momento em que decidiu excluir o perfil e criar uma página (sem trocadilho) pessoal. Foi ele, aliás, quem me adicionou — possivelmente por causa do meu blog. Na ocasião, confesso que não conhecia o seu trabalho à frente do bloco Fica Comigo. E fiquei surpreso — e, claro, muito honrado — quando me dei conta de quem ele era filho.

Por timidez de ambas as partes, não chegamos a trocar uma única palavra no período em que estivemos adicionados. Mas é evidente que eu prestava atenção nas postagens dele. É provável que ele também visse as minhas. Vascaíno roxo como o pai, ele jamais escondeu o seu entusiasmo pelo time da Colina.

Portanto, foi com enorme consternação — e não poderia ser de outra forma — que recebi a notícia de seu trágico desaparecimento. Parecia um cara alegre. Cheio de vida. E tinha exatamente a minha idade.

Que ele possa descansar eternamente em paz. E que Deus conforte o Tremendão e seus familiares nesse momento tão difícil.




Ouça a bela “Primogênito”, do álbum Mulher [1981], na qual Erasmo homenageia Alexandre — que era o seu filho mais velho:

quinta-feira, dezembro 26, 2013

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Seres Humanos’, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos



Uma das mais esclarecidas letras da dupla Roberto &; Erasmo, o rap-placebo “Seres Humanos” foi lançada originalmente como faixa-bônus do CD ao vivo, epônimo, que Roberto Carlos editou em 2002 [acima, a capa]. No ano seguinte, integrou o repertório de Pra Sempre, último álbum de inéditas do Rei.

Sob um belo arranjo, RC exalta as conquistas da humanidade (“O telefone, o rádio, a luz elétrica / a televisão, o computador / progressos na engenharia genética / maravilhas da ciência prolongando a vida”), a despeito do quanto o planeta tem sido “castigado” ao longo dos anos (“Que negócio é esse de que nós não temos / os devidos cuidados com o mundo em que vivemos? / Fazemos tudo por necessidade”). E não deixa de citar os mistérios que envolvem a existência humana neste mundo (“Nem sabemos por que aqui estamos / e, mesmo sem saber, seguindo em frente vamos”).

Em uma observação para lá de oportuna, Roberto menciona a busca por “respostas” — e também a tolerância religiosa (“Buscamos apoio nas religiões / e procuramos verdades em suposições. / Católicos, judeus, espíritas e ateus / somos maravilhosos / afinal, somos filhos de Deus”). E, em linhas gerais, rejeita a visão de “culpa” e “pecado” que várias crenças procuram impor a seus fiéis: “Que tal olhar as coisas que a gente tem conseguido? / E o mundo, hoje, é bem melhor / do que há muito tempo atrás / e as mudanças desse mundo / o ser humano é que faz”.

Uma reflexão e tanto para os nossos tempos.




Veja o vídeo de “Seres Humanos”, extraído do especial de Roberto Carlos de 2002:

domingo, dezembro 22, 2013

Roberto Carlos ‘na pista’



EP
Remixed (Amigo Records/Sony Music)
2013


Anunciado em dezembro de 2012 como um CD completo, Remixed chega às prateleiras como EP de cinco músicas — repetindo o formato de Esse Cara Sou Eu, que obteve estrondoso sucesso no ano passado. Essa, aliás, não foi a única modificação: o (espirituoso) título inicial, Reimixed, acabou sendo alterado, provavelmente pelo fato de que, em 52 anos de carreira, nenhum trabalho de RC foi batizado com qualquer menção à palavra “rei”.

Os remixes de “Fera Ferida”, “Se Você Pensa”, “O Portão”, “É Preciso Saber Viver” e “É Proibido Fumar” “respeitam” as gravações originais — com destaque para o primeiro, assinado pelo experiente DJ Marcelo “Memê” Mansur [saiba mais aqui]. E, se não são exatamente brilhantes, também não comprometem. E atestam a versatilidade das canções de Roberto & Erasmo.

No mais, fica a impressão de que os remixes já haviam sido gravados há algum tempo, pelo fato de  ao contrário das faixas eletrônicas do novo CD de Paul McCartney —, não soarem propriamente “modernos”. E um certo “conservadorismo” também se faz notar na capa, que segue o padrão habitual dos discos de RC.  

A bem da verdade, Remixed apenas cumpre o papel de oferecer ao público um produto “novo” de Roberto Carlos para as vendas de Natal, considerando que o aguardado disco de inéditas do cantor — o primeiro em dez anos (!) — foi novamente adiado. Três prováveis motivos: a atribulada agenda de shows do artista; o seu perfeccionismo extremo; o fato de não desejar editar um novo álbum justamente em um ano 13...




Leia também:





Ouça o remix do DJ Felipe Venâncio para “O Portão”, faixa lançada originalmente em 1974:


quarta-feira, julho 10, 2013

Da série ‘Discos para se Ter em Casa’: ‘As Canções que Você Fez para Mim’, de Maria Bethania



Antes de Lulu Santos, apenas Maria Bethania, há exatos 20 anos — com o ótimo As Canções que Você Fez para Mim — havia recebido a deferência de gravar um álbum inteiro dedicado à obra de Roberto e Erasmo Carlos.




Com um milhão de cópias vendidas, As Canções que Você Fez para Mim* foi uma ideia que partiu da gravadora da qual Maria Bethania era contratada na ocasião, a Polygram — atual Universal Music. O repertório, entretanto, foi selecionado pela cantora. 

Ao contrário de Lulu Santos — que optou por faixas lançadas até a primeira metade dos anos 1970 —, Bethania baseou as suas escolhas entre a segunda metade da década de 1970 e primeira dos anos 1980. O resultado? Um disco excelente da primeira à penúltima música — a exceção é “Emoções”, que encerra os trabalhos, a canção que intérprete algum deveria perder tempo em tentar regravar...

Destaque para “Olha” [1975], “Eu Preciso de Você” [1981], a épica versão de “Fera Ferida” [1982] — que tornou-se tema da homônima novela global — e, especialmente, a faixa-título, em registro amplamente superior ao original, lançado por Roberto Carlos em 1968.



* Ouça As Canções que Você Fez para Mim, na íntegra, aqui.

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Se Você Pensa’, com Lulu Santos

Se, em 1995, Lulu gravou, na companhia do DJ Marcelo ‘Memê’ Mansur, uma desconcertante versão de ‘Se Você Pensa’...”




A bem da verdade, a (ousada) releitura de Lulu Santos para “Se Você Pensa” foi gravada em 1994, para Rei, disco-tributo a Roberto e Erasmo, produzido por Roberto Frejat. Mas, por razões contratuais, acabou excluída do álbum.

Foi assim: Luís Oscar Niemeyer, então presidente da BMG-Ariola — gravadora de Lulu à época —, compareceu ao coquetel de lançamento do disco. No local, percebeu o “burburinho” dos presentes em torno da versão de “Se Você Pensa”. E concluiu que esta seria a faixa de trabalho — com grandes possibilidades de sucesso. 

Provavelmente temendo “entregar de bandeja” um hit para uma concorrente — no caso, a Sony Music —, o executivo conversou com Lulu, para explicar os seus motivos vetar a cessão do artista ao projeto. A capa do álbum [foto], desenhada pelo cartunista Angeli, já estava pronta, inclusive. O que fez com que a caricatura de Lulu Santos tivesse que ser totalmente pintada de preto — restando apenas sua “silhueta”.

Na ocasião, o músico carioca comentou o episódio em uma entrevista:

— Pelo arrazoado dele [Niemeyer] e pela relação que temos, tive que entender a sua decisão.

Na mesma entrevista, Lulu revelou a apreensão do Tremendão pela não-inclusão da faixa:

— O Erasmo me ligou, desanimado: “, bicho, não vai sair”. E eu respondi: “Calma. Vai, sim”.

Estruturada no (mortífero) riff de “Long Train Running”, do Doobie Brothers — e com a letra recitada no ritmo de rap —, a versão de Lulu acabou sendo lançada somente no ano seguinte, no álbum Eu & Memê, Memê & Eu, o título de maior sucesso comercial da discografia do autor de “Tudo Bem”.

Composta a quatro mãos por Roberto & Erasmo, “Se Você Pensa” foi lançada originalmente pelo Rei em 1968, no clássico O Inimitável.



segunda-feira, maio 13, 2013

Lulu opta por releituras ‘respeitosas’ das canções do Rei e do Tremendão

Em agosto de 2012, Roberto Carlos visitou o camarim do cantor carioca no show Lulu Canta e Toca Roberto e Erasmo, no Vivo Rio

CD
Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo (Sony Music)
2013


Em seu segundo disco, O Ritmo do Momento [1983], Lulu Santos não fez por menos e emplacou logo três sucessos: “Um Certo Alguém”, “Adivinha o Quê?” e a canção que se tornou o seu carro-chefe eterno, o bolero-havaiano “Como uma Onda”. No ano seguinte, com Tudo Azul, consolidou de vez o status de hitmaker, com gemas pop do calibre de “Tão Bem”, “Certas Coisas”, “Lua de Mel” e... “O Calhambeque”, versão de Erasmo Carlos que ficou célebre na voz de Roberto Carlos. Foi também neste álbum que Lulu lançou uma de suas faixas mais emblemáticas, “O Último Romântico” — que fez com que o cantor carioca passasse a ser identificado como “o roqueiro romântico”, “sucessor de Roberto Carlos” e classificações do tipo. Desconfortável com o rótulo, Lulu decidiu “subverter as regras do jogo”: em 1985, lançou o ácido e roqueiro Normal, que acabou não sendo compreendido pelo público e teve pouca repercussão. Mas com o qual o artista logrou a intenção de “desconstruir” a imagem de “romântico”.

No entanto, o mundo gira e a Lusitana roda. E eis que, 28 anos após Normal, Lulu Santos, aos 60 anos de idade e 31 de carreira, finalmente abraça a obra da dupla — que inequivocamente exerceu influência em seu trabalho — no recém-lançado Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo, decorrente do show homônimo que percorreu algumas capitais brasileiras em 2012. 

Se, em 1995, Lulu gravou, na companhia do DJ Marcelo “Memê” Mansur, uma desconcertante versão de “Se Você Pensa”, desta vez optou por uma abordagem “respeitosa” dos clássicos dos autores de “Detalhes”. A capa do CD, na qual o guitarrista veste um terno impecavelmente cortado, dá um indício de seu conteúdo. A própria “Se Você Pensa”, aliás, reaparece “comportada” — mas, ainda assim, emulando, em um determinado momento, o canto falado da versão anterior. 



Apesar da ‘reverência’, pequenas ‘ousadias’ 

Provavelmente recorrendo à sua memória afetiva, Lulu concentrou sua atenção nas canções lançadas até a primeira metade da década de 1970. E, oscilando entre o blues e o rock tradicional, foi feliz na escolha do repertório, que conta com “É Preciso Saber Viver”, “As Curvas da Estrada de Santos”, “Sentado À Beira do Caminho” — a melhor faixa do disco, na qual o cantor não poupou a emoção que a canção pede — e a impagável “Sou uma Criança, Não Entendo Nada”, entre outros. A única exceção — e também a música mais “recente” do álbum — é “Emoções” [1981], que, sinceramente, de tão cristalizada na voz de Roberto, não deveria ser regravada por ninguém...

Apesar da opção por releituras “reverentes” das canções de Roberto e Erasmo, Lulu não deixou de cometer pequenas “ousadias”, como a versão reggae de “Eu te Darei o Céu”, na qual executa boa parte da melodia com sua guitarra. E nas alterações de ritmo de “Quando” e de “Não Vou Ficar” — canção de Tim Maia que, lançada por Roberto Carlos em 1969, abriu portas para o Síndico.

Antes de Lulu Santos, apenas Maria Bethania, há exatos 20 anos — com o ótimo As Canções que Você Fez para Mim — havia recebido a deferência de gravar um álbum inteiro dedicado à obra de Roberto e Erasmo Carlos. E todos os artistas que já tentaram regravar faixas da dupla sabem de toda a “burocracia” envolvida na empreitada. E, embora nenhuma das versões de Lulu supere as originais — convenhamos: abordar clássicos de 40, 50 anos não é exatamente uma tarefa fácil —, Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo não deixa de representar uma lufada de ar fresco em um dos mais importantes cancioneiros nacionais. Trata-se, portanto, de um trabalho digno da discografia do músico carioca. E à altura dos homenageados.




Leia também:





Ouça “As Curvas da Estrada de Santos”, com participação da cantora Késia Estácio...




...e também a bela “Sentado À Beira do Caminho”:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Como É Grande o Meu Amor por Você’, com Lulu Santos




Lançada no dia 19 de abril, a primeira música de trabalho de Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo é “Como É Grande o Meu Amor por Você”. 

Composta solitariamente por Roberto Carlos — que, na ocasião, estava brigado com Erasmo Carlos —, a faixa integra o clássico Em Ritmo de Aventura, de 1967 [no detalhe, a capa]. Com sua letra extremamente simples e, apesar disto — ou justamente por causa disto — deveras tocante, “Como É Grande...” é faixa cativa no roteiro dos shows do Rei.

A versão de Lulu Santos, em alta rotação nas rádios e na internet, ganhou ares de fox, gênero americano do qual o próprio Roberto já se aproximou várias vezes ao longo de sua discografia*.



* Dois exemplos: “Pra Sempre”, faixa-título de seu álbum de 2003, e a versão de “Lovin' You”, sucesso de Elvis Presley, que gravou em 2005.





Ouça “Como É Grande o Meu Amor por Você”, o primeiro single de Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo...





...e também a versão do autor:



segunda-feira, dezembro 17, 2012

Roberto Carlos, ‘o cara’


Resenha de show
Data: 14 de dezembro de 2012
Local: Ginásio do Maracanãzinho — Rio de Janeiro



Orgulhoso de seu passado, mas olhando para a frente, RC já entra no palco com ‘o jogo ganho’

Eventualmente, Roberto Carlos é “acusado” de fazer, há décadas, “o mesmo show”, com “as mesmas músicas”. Uma análise mais atenta desmonta completamente essa teoria. Foi, aliás, o que RC provou, mais uma vez, diante de 11 mil pessoas, na apresentação realizada na noite de sexta-feira, 14, no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.

É bem verdade que, há muitos anos, o cantor faz a sua (triunfal) entrada no palco ao som de “Emoções”. Entretanto, o fato é que, por mais que o espectador já tenha visto dezenas de vezes, a cena é sempre impactante. Sempre. Os passos lentos. O sorriso aberto. O gesto de reverência à plateia. Enfim, no momento em que Roberto se aproxima do pedestal do microfone para cantar o primeiro verso (“Quando eu estou aqui / eu vivo esse momento lindo”) já está com o público na mão, apesar de quase uma hora e meia de atraso, devido a uma gravação para o Domingão do Faustão. Humilde, pediu “perdão” aos presentes e agradeceu pela paciência. Mas frisou, bem-humorado: “Não foi por minha culpa!”.

Assim como “Emoções”, duas que jamais estão ausentes do repertório dos shows do artista são “Detalhes” — em uma versão que começa com RC sozinho ao violão — e, sendo o homem de fé que sempre foi, “Jesus Cristo”, com seus “metais em brasa”, que encerra o show. Fica a pergunta: as pessoas que apreciam o seu trabalho conseguiriam conceber uma apresentação de Roberto sem estas três canções? Ou um show de Paul McCartney sem “Band On The Run”, “Hey Jude” e “Yesterday”? Ou um espectáculo dos Rolling Stones sem “Start Me Up”, “Brown Sugar” e “Jumpin' Jack Flash”? 

Esta é a questão.

Além das três citadas, existem outras que foram retomadas por Roberto Carlos há cerca de dez anos e que não saíram mais do seu set list. É o caso de “Além do Horizonte”, agora com claros ecos de bossa nova — diferentemente da versão original, de 1975, que flertava despudoradamente com o samba-rock. E também a pulsante versão de “Eu te Amo, te Amo, te Amo”, a infalível “Como É Grande o meu Amor por Você” e a homenagem de “Mulher Pequena”, que está longe de ser um de seus clássicos, mas é recebida com respeito pelo público — que sabe muito bem o que esta música significa para o cantor. 

Enfim, excluindo as canções “cativas”, várias músicas foram excluídas do roteiro. É o caso de “Amor Perfeito”, “É Preciso Saber Viver” e “Outra Vez”, entre outras. No lugar destas, entraram “Lady Laura” — em memória da mãe de Roberto, que faleceu em 2010 —, “Cama e Mesa”, a belíssima “Nossa Senhora”, “Desabafo” e a sentida “O Portão”.

O que prova que, ao seu estilo ponderado e criterioso de trabalhar — e, claro, sem mexer naquelas que não pode deixar de cantar —, Roberto Carlos altera com frequência o seu repertório, sim.



A versão eletrônica de ‘Fera Ferida’

Por sinal, apesar de (merecidamente) orgulhoso da sua obra que construiu ao lado de Erasmo Carlos, RC aparenta estar interessado em olhar para a frente. Não deixou de cantar “Furdúncio”, o seu (surpreendente) funk melody (!) lançado este ano. E revelou, no palco, que lançará, em 2013, um CD chamado Reimixes, no qual vários Djs irão “desconstruir” algumas de suas canções. E chamou ao palco o DJ Marcelo “Memê” Mansur para que o acompanhar em uma versão de “Fera Ferida” que empolgou o Maracanãzinho. Ver Roberto Carlos cantando sobre a base eletrônica de Memê foi simplesmente... de cair o queixo. “Nunca imaginei que, um dia, alguém faria algo assim com a minha música”, contou, sorrindo. Ah, esteja certo ninguém imaginaria, Roberto — e, principalmente, que você concordaria com a ideia.

Apesar da excelente resposta da plateia para “Fera Ferida”, a canção mais aplaudida da noite foi, sem dúvida alguma, “Esse Cara Sou Eu”, a primeira faixa inédita de Roberto em três anos. Música-tema do casal protagonista da novela Salve Jorge, “Esse Cara...” foi precedida por uma explicação do autor sobre a sua gênese. E interpretada de modo... impecável. Apesar de lançada em novembro, pode ser considerada a música do ano de 2012. O que confirma que “quem é Rei”... bem, vocês sabem.

Vale destacar um momento extra-musical: excepcionalmente, foram colocados à venda ingressos mais baratos, em um setor batizado de “arquibancada visão parcial” — à direita e à esquerda —, no qual o cantor era visto apenas de lado, quase de costas. Sabendo disso, RC, ao longo do show, inúmeras vezes cantou olhando para as pessoas situadas nesta direção — que deliravam. Exemplo de grandeza e sensibilidade de um artista ciente da dificuldade enfrentada por parte significativa de seu público para vê-lo ao vivo.

Aos 71 anos, com a voz nos conformes e ótima aparência — durante as músicas sensuais, como “Os Seus Botões” e “O Côncavo e O Convexo”, ele abusa do gestual e arranca gritinhos da plateia feminina —, Roberto Carlos finalmente assumiu: ele é realmente “o cara”.




Repertório:

* Overture
* Emoções (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1981)
* Eu te Amo, te Amo, te Amo (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1968)
* Além do Horizonte (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1975)
* Cama e Mesa (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1981)
* Detalhes (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1971)
* Desabafo (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1979)
* O Portão (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1974)
* Lady Laura (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1979)
* Nossa Senhora (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1993)
* Mulher Pequena (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1992)
* Fera Ferida (com participação do DJ Marcelo “Memê” Mansur) (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1982)
* Medley, com texto de Ronaldo Bôscoli (1928 — 1994): Seu Corpo (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1975) / Café da Manhã (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1978) / Os Seus Botões (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1976) / Falando Sério (Maurício Duboc — Carlos Colla, 1977) / O Côncavo e o Convexo (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1983)
* Esse Cara Sou Eu (Roberto Carlos, 2012)
* Furdúncio (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 2012)
* Medley: É Proibido Fumar (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1964) / Namoradinha de um Amigo Meu (Roberto Carlos, 1966) / Quando (Roberto Carlos, 1967) / E Por Isso Estou Aqui (Roberto Carlos, 1967) / Jovens Tardes de Domingo (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1977) / Emoções (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1981)
* Como É Grande o Meu Amor por Você (Roberto Carlos, 1967)
* Jesus Cristo (Roberto Carlos — Erasmo Carlos, 1970)

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Fera Ferida’, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos


Em 2008, Caetano Veloso criou o blog Obra em Progresso, no sentido de interagir com os internautas, durante a concepção do que viria a se tornar o CD Zii & Zie [2009]. E dedicou uma postagem à “Fera Ferida”, que ouviu no rádio de um táxi. É uma pena o espaço já não estar no ar — o que obriga este relato a ser “painted from memory”.

Na ocasião, Caetano contou que, embora conhecesse a canção desde o seu lançamento, em 1982 [no detalhe, a capa] — inclusive a regravou em seu álbum de 1987 —, ouvi-la ali, de sopetão, o deixou emocionado. O autor de “Outras Palavras” prosseguiu a sua observação, afirmando que, desde o primeiro verso (“Acabei com tudo / escapei com vida”), “a bola nunca mais cai”. Ou seja, a canção mantém presa a atenção do ouvinte. Até o final.

E finalizou dizendo que escutar “Fera Ferida” pela primeira vez foi “uma grata surpresa, a mais instigante canção lançada por Roberto Carlos em muito tempo”. 

Caetano Veloso estava certíssimo. Repleta de belas imagens (“Os meus rastros desfiz / tentativa infeliz de esquecer”), “Fera Ferida” é, sem dúvida alguma, uma das mais brilhantes letras escritas por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. E, embora também regravada, em um arranjo épico, por Maria Bethania em As Canções que Você Fez para Mim [1993] — inteiramente dedicado à obra da dupla —, a versão definitiva é, de fato, a de Roberto.

É o tipo de canção que o Rei nasceu para cantar. 




P.S.: Nutro sincera admiração pelas pessoas que conseguem fugir da escrita “analítica” da “terceira pessoa” e se expressam de modo mais pessoal em um blog. É algo que, confesso: sinto-me desconfortável em fazer — embora, através do Google Analytics, já tenha observado que, nas minhas raras postagens “confessionais”, a resposta, em visitações, é sempre muito positiva. Não está descartada, inclusive, a hipótese da criação de mais um blog, destinado apenas a pensatas e análises musicais “autobiográficas”. Ou, talvez, uma série — a exemplo da “São Bonitas as Canções” —, com estas características, dentro deste blog. Enfim, é uma ideia a ser amadurecida. Por ora, o que importa é destacar que as canções postadas neste espaço obedecem a três critérios: a) qualidade, evidentemente; b) relação com um ou mais textos postados recentemente; c) possuírem alguma história interessante a ser contada. Portanto, nada têm a ver com a minha pessoa ou com o meu cotidiano. E tampouco trazem alguma “mensagem subliminar”. “Fera Ferida”, contudo — independentemente de ser uma pérola —, é um caso à parte. Trata-se de uma música que tem “me acompanhado” há muitos anos e com a qual sempre me identifiquei. Sempre. Pela personalidade forte. Pelo temperamento arisco. Pelo modo irredutível de tomar decisões (“Não vou mudar: esse caso não tem solução”). E também pela minha trajetória de vida (“O coração perdoa / mas não esquece à toa / e eu não esqueci”). Alguns familiares, inclusive, já fizeram essa “associação”. Detalhe: sem que eu jamais tivesse manifestado para eles o meu apreço pela canção: “Olha a música do Tom!” Ou seja, do leão que só “se enfurece” e “ataca”... por ter sido “alvejado”. Sendo assim, “eternizá-la” neste espaço — além de uma tendência natural, dada a sua importância para mim — é um desejo antigo. A data do arquivo de imagem que ilustra esta postagem, guardada em meu pen drive durante um longo tempo, não me deixa mentir: “Modificado em 13/10/2008” (!).




Veja o vídeo da (surpreendente) versão eletrônica de “Fera Ferida”, com participação do DJ Marcelo “Memê” Mansur, extraído do Especial de Roberto Carlos de 2012. O fonograma será lançado no álbum Reimixes, que chegará às prateleiras em 2013:





E ouça a versão original da canção:



sábado, novembro 17, 2012

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Pensamentos’, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Em 2011, Roberto Carlos visitou o Santo Sepulcro, um dos locais mais importantes do Cristianismo


Pensamentos” foi lançada por Roberto Carlos em seu álbum de 1982. E, embora tenha sido regravada por Simone em seu disco natalino 25 de Dezembro, de 1995, permaneceu fora do repertório dos shows de RC até 2011 (!), quando foi retomada no CD/DVD Roberto Carlos em Jerusalém, gravado ao vivo na Terra Santa.

Composta em parceria com Erasmo Carlos, “Pensamentos” é uma das mais brilhantes letras escritas pela dupla. Ou, talvez, a mais brilhante. Os versos abordam temas complexos como a convivência humana (“Quem me dera que as pessoas que se encontram / se abraçassem como velhos conhecidos / descobrissem que se amam / e se unissem, na verdade dos amigos”) e, em um espectro mais amplo, a tolerância entre os povos (“Se as flores se misturam pelos campos / é que flores diferentes vivem juntas”).

A narrativa vai ainda mais fundo, considerando a possibilidade de que exista, de fato, destino (“Onde, às vezes, aparentes coincidências / têm motivos mais profundos”) e questionando o sentido da vida (“Pensamentos que me afligem / sentimentos que me dizem / dos motivos escondidos / da razão de estar aqui (...) / e eu penso nas razões da existência / contemplando a natureza desse mundo”).

Através de belas imagens (“E, no topo do Universo, uma bandeira / estaria no Infinito iluminada / pela força desse amor, luz verdadeira / dessa paz tão desejada”), Roberto e Erasmo finalizam amparando-se na fé para tentar compreender os mistérios que envolvem a Criação (“As perguntas que me faço / são levadas ao espaço / e, de lá, eu tenho todas as respostas que eu pedi (...) / e a voz dos ventos na canção de Deus / responde a todas as perguntas”).

Pensamentos” suscita uma reflexão profunda sobre a existência humana — e o seu papel nesse planeta. E nada fica a dever a outras canções que tratam de questões existenciais, como “Imagine”, por exemplo. Por tudo isso, é inacreditável que tenha ficado “esquecida” pelo Rei durante tantos anos.



Ouça a versão de “Pensamentos” do CD/DVD Roberto Carlos em Jerusalém. Se desejar, veja o vídeo — cuja padrão de imagem e áudio está abaixo do desejável —, clicando aqui:


sábado, novembro 10, 2012

Com apenas duas inéditas, Roberto Carlos reafirma seu apelo comercial


EP
Esse Cara Sou Eu (Amigo Records / Sony Music)
2012



Sem editar um disco de inéditas desde Pra Sempre, de 2003 (!) — o seu álbum de 2005, embora gravado em estúdio, trazia apenas uma música inédita —, Roberto Carlos acaba de lançar EP de quatro faixas, sendo duas inéditas. Desde a pré-venda, Esse Cara Sou Eu passou a liderar as vendas do iTunes — o que reafirma o apelo comercial do cantor de 71 anos de idade, mesmo na era dos downloads ilegais.

Já bastante conhecida do público devido à execução diária na novela Salve Jorge, a faixa-título é o tipo de letra — que, aliás, lembra “Romântico”, canção de 1995 — na qual RC é mestre: clara. Franca. Objetiva. E que retrata uma situação que muitas pessoas já vivenciaram. Ou vivenciam. Ou, pelo menos, gostariam de vivenciar. Por tudo isso, Esse Cara Sou Eu” atinge em cheio — e com extrema facilidade — a sensibilidade do ouvinte. Para completar, o refrão, a despeito de sua simplicidade, pega. No ato.

A maior surpresa do EP, entretanto, é a segunda inédita do EP, a descontraída “Furdúncio”. Funk melody (!) no estilo de “Ela Só Pensa em Beijar” de MC Leozinho — com quem, aliás, o Rei cantou em seu especial global de 2006 —, foi composta em 2007 em parceria com Erasmo Carlos. A parte instrumental contou com a participação da cozinha de Lulu Santos — o baixista Jorge Aílton e o baterista Chocolate. Os mais atentos observarão as terças de vozes, que escancaram a experiência de cinquenta anos do artista em estúdios de gravação. E, por mais improvável que, a princípio, a (ousada) empreitada pudesse parecer... deu certo.

A terceira faixa de Esse Cara Sou Eu é a solene “A Mulher que Eu Amo”, lançada em 2009 na trilha sonora da novela Viver a Vida — e que, até então, jamais havia aparecido em nenhum trabalho do cantor. Balada ao piano adornada com cordas e repleta de versos pungentes (“Quando vem pra mim, é suave como a brisa / e o chão que ela pisa / se enche de flor”), não soaria deslocada em um álbum de Antonio Carlos Jobim. 

Fechando o repertório, “A Volta”, que obteve boa repercussão ao integrar a trilha da novela América, em 2005. Composta a quatro mãos com o Tremendão em 1966, tornou-se o maior sucesso da carreira da dupla Os Vips. Contudo, só foi gravada por Roberto em seu supracitado álbum de 2005, em um (bom) arranjo a la Dire Straits. 

Embora altamente positivo, o lançamento de Esse Cara Sou Eu indica que o aguardado CD de inéditas de Roberto Carlos não deverá mesmo ser lançado este ano. Sendo assim, conclui-se que o álbum só verá a luz do dia em 2014. Afinal, supersticioso, RC provavelmente não lançaria/lançará nada no ano de 2013...




Veja o (simples, mas eficiente) vídeo, com letra, de “Esse Cara Sou Eu:





E ouça o funk melody Furdúncio:


sábado, março 10, 2012

Inaugurando a série ‘Causos’: Roberto Carlos & Erasmo Carlos



O fato já foi mencionado publicamente inúmeras vezes tanto por Roberto quanto por Erasmo Carlos. Quando um dos faz aniversário, o aniversariante telefona para o outro e diz:

Bicho, você pode ligar para cá e o telefone estar sempre ocupado. Ou acontecer de eu ter saído. Então, estou ligando só para você me dar os parabéns....

sábado, janeiro 28, 2012

Da série: ‘São Bonitas as Canções’: ‘Mãe’, com Gal Costa



Sejamos francos: canções em homenagens às mães, em sua maioria, soam... óbvias — desprovidas da poesia que a maior referência na vida de cada um de nós mereceria. Exceção feita — além de “Lady Laura”, de Roberto & Erasmo, e “Let It Be”, dos Beatles — a “Mãe”, composta por Caetano Veloso que, curiosamente, jamais a registrou. 

Gravada por Gal Costa no álbum Água Viva, de 1978, a letra de “Mãe” — repleta de imagens caleidoscópicas — detecta, com precisão cirúrgica, uma grande verdade: não importa o que um homem tenha se tornado ao longo de sua vida. Não importa. 

Diante de sua mãe, ele será sempre... um menino. E jamais deixará de ser amado por ela. 


terça-feira, abril 12, 2011

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Sementes do Amanhã’, com Erasmo Carlos

Em Buraco Negro, seu álbum de 1984, Erasmo Carlos [foto] gravou a bela “Sementes do Amanhã”.

Composta pelo saudoso Gonzaguinha, a faixa também foi registrada pelo autor naquele mesmo ano em Grávido, porém com o título de “Nunca Pare de Sonhar”. A gravação de Erasmo — impecável, diga-se de passagem — integrou também a trilha sonora da novela global Livre para Voar.

Na semana passada, doze “sementes do amanhã” foram perdidas diante de uma mente doentia e perversa. Mas que esta tragédia não faça que percamos... a fé. A“fé na vida”. A “fé no homem”. E muito menos a “fé no que virá”.

Afinal, como diz a canção, apesar de todos os pesares, “nós podemos tudo”. Decididamente, “nós podemos mais”.



segunda-feira, setembro 21, 2009

Da série ‘Parcerias’: Roberto & Erasmo nos últimos dez anos


O luto guardado por Roberto Carlos pela morte de sua esposa, Maria Rita, fez com que a sua parceria com Erasmo Carlos sofresse uma vertiginosa queda de produção na última década. Nos únicos três álbuns de estúdio que o Rei lançou em dez anos – os demais foram discos ao vivo ou projetos especiais, como Duetos (2006) –, há apenas cinco (!) parcerias inéditas com seu amigo de fé, irmão camarada.

O motivo: abalado, RC preferiu compor solitariamente durante esse período.

Na compilação 30 Grandes Sucessos, lançada em dezembro de 1999 – quando o estado de saúde de Maria Rita se agravou, e Roberto não teve condições de gravar um novo trabalho –, a única música nova era “Todas as Nossas Senhoras”, composta com Erasmo.

No CD Amor sem Limite, de 2000, o primeiro após o desaparecimento de Maria Rita, a única parceria inédita da dupla foi a bela “Tu És a Verdade, Jesus”. As outras duas canções que levavam a assinatura dos parceiros - “Mulher Pequena” e “Quando Digo que te Amo” - foram originalmente lançadas em 1993 e 1996, respectivamente.

Pra Sempre, que chegou às prateleiras em 2003, trazia somente duas faixas novas escritas por Roberto e Erasmo: a questionadora “Seres Humanos” e o bem-humorado blues “O Cadillac”.

No disco epônimo de 2005, a única inédita de RC com o Tremendão foi “Arrasta uma Cadeira”, gravada na companhia de Chitãozinho & Xororó. As demais – “Promessa” e “A Volta” – eram, na verdade, canções antigas que jamais tiveram registro na voz do Rei até então, além de “O Baile da Fazenda”, originalmente lançada em 1998.

Já nos discos de carreira que Erasmo Carlos editou desde 1999 – Pra Falar de Amor (2001), Santa Música (2004) e Rock ‘N’Roll (2009) – não há nenhuma parceria inédita da dupla. Pra Falar de Amor trazia a assinatura da dupla na boa “Qualquer Jeito”, versão de “It Should Have Been Easy”. Mas a faixa foi presenteada em 1987 à cantora Kátia, “afilhada” artística de Roberto e Erasmo. E obteve razoável execução radiofônica na ocasião.

Entretanto, os autores de “É Preciso Saber Viver” já confirmaram que existem quatro novas canções da dupla para o próximo CD de estúdio de Roberto, cujo lançamento está previsto para 2010.

terça-feira, julho 21, 2009

Roberto Carlos: meio século de reinado


Show
Itaú Brasil: Roberto Carlos – 50 anos
Data: 11 de julho de 2008
Local: Estádio do Maracanã - Rio de Janeiro


Para comemorar seus 50 anos de carreira, o Rei realiza um show histórico no Estádio do Maracanã

Cerca de 68 mil pessoas, de todas as faixas etárias, suportaram o vento frio que insistia em soprar no Estádio do Maracanã, na noite de sábado, 11 de junho. Mas por um bom motivo: tratava-se do show de comemoração aos 50 anos de carreira de Roberto Carlos, cujas canções fazem parte da vida de milhões de brasileiros.

Às 21h45, o Rei entrou ao palco de maneira triunfal, dirigindo o seu Calhambeque azul, modelo 1929, devidamente reformado. Após saudar a sua orquestra e a plateia extasiada, afirmou: “É a maior emoção que já senti em minha vida estar aqui no Maracanã cantando para vocês. Quando estava lá em Cachoeiro [nota: do Itapemirim, sua cidade natal] jamais imaginei que podia viver um momento como esse”. E iniciou os trabalhos com o seu cartão-de-visitas, “Emoções”.

O repertório foi basicamente o mesmo dos shows que o cantor tem apresentado ao longo dos anos, com as músicas que seu público sempre espera ouvir, como “Outra Vez”, “Proposta”, “Café da Manhã” e, no já tradicional esquema banquinho-e-violão, “Detalhes”, entre outras.

Contudo, dada a importância da ocasião, RC incluiu canções que não costumam fazer parte de seu set list, como “Do Fundo do meu Coração”, de 1986. Repleta da “tensão” encontrada em momentos anteriores da obra do Rei – como “Sua Estupidez”, por exemplo –, a faixa é uma das melhores da segunda metade de sua carreira.

Em homenagem a seus pais, o cantor reuniu em um tocante medley que reuniu a bela “Aquela Casa Simples” a “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo” e “Lady Laura”. E até “Nossa Senhora”, há muito afastada do repertório do artista, foi relembrada, em um dos pontos altos do show.

No bloco dedicado à Jovem Guarda, Roberto, surpreendentemente, resgatou “Quando” – uma das melhores canções daquele período – e “Namoradinha de um Amigo Meu”, juntamente com “É Proibido Fumar”, “E por Isso Estou Aqui” e “Jovens Tardes de Domingo”.


Com Erasmo, o momento mais emocionante da noite

Em “Caminhoneiro” – outra que o Rei não cantava há tempos –, a chuva desabou sobre o Maracanã, o que fez com que RC paralisasse o show por cerca de dez minutos.

Já a escolha dos dois convidados foi bastante coerente: Erasmo Carlos e Wanderléa. Erasmo, por sinal, protagonizou o momento mais emocionante da noite. Após dirigir algumas palavras a Roberto através do telão, o Tremendão foi chamado ao palco. Os parceiros choraram abraçados e cantaram “Amigo” com muita dificuldade. Na sequência, já refeitos, relembraram momentos engraçados e emendaram com “Sentado à Beira do Caminho”.

Com a Ternurinha, também bastante emocionada, Roberto, como não poderia deixar de ser, cantou “Ternura”. Por fim, Erasmo juntou-se à dupla em “Eu Sou Terrível”.

Outro momento de grande emoção foi “Como É Grande O Meu Amor por Você”, cantada por um Maracanã em uníssono. Destaque também para o arranjo grandiloquente, de matizes épicos, de “Cavalgada”.

No gran finale, o estádio foi encoberto pela fumaça dos fogos de artifício, enquanto o Rei lançava rosas para sua fiel público, ao som de “Jesus Cristo”, coroando um dos melhores show de sua carreira. Um momento único, digno de um artista verdadeiramente singular.



Veja o medley que reuniu “Aquela Casa Simples”, “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo” e “Lady Laura:




E também “Amigo”, com participação de Erasmo Carlos: