Em Buraco Negro, seu álbum de 1984, Erasmo Carlos [foto] gravou a bela “Sementes do Amanhã”.
Composta pelo saudoso Gonzaguinha, a faixa também foi registrada pelo autor naquele mesmo ano em Grávido, porém com o título de “Nunca Pare de Sonhar”. A gravação de Erasmo — impecável, diga-se de passagem — integrou também a trilha sonora da novela global Livre para Voar.
Na semana passada, doze “sementes do amanhã” foram perdidas diante de uma mente doentia e perversa. Mas que esta tragédia não faça que percamos... a fé. A“fé na vida”. A “fé no homem”. E muito menos a “fé no que virá”.
Afinal, como diz a canção, apesar de todos os pesares, “nós podemos tudo”. Decididamente, “nós podemos mais”.
O desaparecimento de Gonzaguinha [foto] — decorrente de um acidente automobilístico ocorrido no Paraná — completou 16 anos no último 29 de abril. Não vi/ouvi na imprensa nada sobre a efeméride, provavelmente por não se tratar de uma “data redonda”.
Prefiro crer nisso.
Autor gravado por meio mundo da MPB — de Maria Bethânia a Zizi Possi, passando por Simone, Martinho da Vila e até o Professor Cauby Peixoto — Gonzaguinha deixou uma belíssima obra, repleta de canções como “Sangrando”, “Eu Apenas Queria que Você Soubesse”, o samba “O que É O que É” (“Viver e não ter a vergonha de ser feliz./ Cantar e cantar e cantar/ a beleza de ser um eterno aprendiz”), a pop “Lindo Lago do Amor” e o bolero “Começaria Tudo Outra Vez”, entre muitas outras. Mas há uma em especial: “Feliz”, que, por sinal, obteve boa execução radiofônica no ano de seu lançamento, 1983.
Faixa de Alô, Alô Brasil — disco que traz a versão do autor para “Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)”, sucesso na voz de Fagner — “Feliz” tem uma letra de rara sensibilidade, mesmo falando de um tema nada original: duas pessoas que a vida tratou de separar, mas que não conseguem se desligar por completo (“Trajetórias opostas / sem jamais deixar de se olhar”).
Impossível não se comover com versos como: “É um carinho guardado no cofre de um coração que voou; / é um afeto deixado nas veias / de um coração que ficou”. E, principalmente: “É a certeza da eterna presença / da vida que foi / na vida que vai”.