Embora o Queen jamais tenha tocado "The Miracle" ao vivo, trata-se de uma das mais belas letras escritas por Freddie Mercury. Faixa-título do trabalho [acima, a capa] que o quarteto editou em 1989 — o penúltimo lançado em vida pelo vocalista —, enumera realizações do homem (como a fertilização artificial, os Jardim Suspensos da Babilônia e o Taj Mahal) e forças da natureza como a chuva que cai sobre o deserto do Saara e... Jimi Hendrix.
Também fala de pequenos "milagres" contidos em momentos simples da vida, como "xícaras de chá nas manhãs de domingo", além de clamar pela harmonia e pela igualdade de oportunidades ("se cada criança de rua / tivesse o que comer e vestir / seria um milagre", em uma tradução livre). E termina como um libelo pela paz, cantado de modo visceral por Mercury.
Há, no entanto, uma mensagem subliminar nessa canção. Já ciente de sua sorologia positiva, o cantor esperava por um milagre que, lamentavelmente, não ocorreu. Decididamente, não foi à toa que o álbum recebeu esse título.
Concebido sem grandes aparatos, o vídeo de "The Miracle" é um capítulo à parte. Quatro meninos foram escolhidos pela interpretar os membros da banda em várias fases de sua carreira. E conseguem reproduzir à perfeição os trejeitos de cada um deles. E por que crianças? Porque elas, mais do que ninguém, representam a esperança. Assista. E se emocione:
O gaitista carioca dá continuidade à sua mistura de blues com ritmos regionais brasileiros
Dois anos após o seu mais recente trabalho, Encruzilhada, Jefferson Gonçalves reaparece com um novo álbum. Lançado de maneira independente, Encruzilhada — Ao Vivo, gravado no Centro Municipal de Referência da Música Carioca Artur da Távola, chega às prateleiras em um caprichado box contendo CD e DVD.
No repertório, composições autorais de Jefferson, como “Ar Puro”, “Teto Preto” e “Café Expresso”, que dão continuidade à instigante mistura de blues com ritmos regionais brasileiros, como o xote e o baião.
Entretanto, o músico não deixa de incluir sons do delta do Mississipi, como “CatFish Blues”, de Muddy Waters, e “Mellow Down Easy”, de Willie Dixon, além do clássico “All Along The Watchtower”, de Bob Dylan, imortalizado na versão de Jimi Hendrix. Destaque também para “Crossroads”, daquele é considerado “o papa” do gênero, Robert Johnson, em uma clara alusão ao título do álbum.
Com 23 anos de carreira, Jefferson Gonçalves mostra, em Encruzilhada — Ao Vivo, toda a originalidade da música instrumental brasileira. Vale a conferida.
Do alto de mais de meio século de carreira, Eric Clapton deixou, há muito, de ser “apenas” o segundo maior guitarrista de rock de todos os tempos, perdendo apenas para Jimi Hendrix — e talvez dividindo o posto com o seu colega de Yardbirds, Jimmy Page, ex-Led Zeppelin. Com o passar dos anos, Clapton tornou-se um bom arranjador e um intérprete convincente. Ao longo de sua trajetória, regravou canções de Bob Dylan, Stevie Wonder e até Michael Jackson (!), entre outros. E é justamente esta faceta que God quis evidenciar em 21º trabalho solo, o recém-lançado Old Sock, que chega às prateleiras três anos após o seu disco mais recente, o (bom) Clapton.
O título, Old Sock (“meia velha”) foi inspirado em uma expressão que o músico ouviu recentemente de David Bowie. E remete àquela roupa surrada, mas confortável como nenhuma outra — da qual ninguém gosta de desfazer. Esta é justamente a intenção de Clapton com este álbum: apresentar canções alheias que sempre fizeram parte de sua vida.
A bem da verdade, o disco não começa propriamente inspirado, com “Further Up Down The Road”, do bluesman americano Taj Mahal — e com participação do próprio —, em ritmo de reggae. Mahal, por sinal, também colaborou em duas faixas do CD ao vivo que Clapton dividiu com o saxofonista Winton Marsalis em 2011. A canção seguinte, “Angel”, do parceiro de longa data J. J. Cale, autor de “After Midnight” e do hit “Cocaine” — e que participa da gravação — deixa melhor impressão.
Curiosamente, as duas outras notas dissonantes do disco também estão relacionadas ao reggae: nas releituras “Till Your Well Runs Dry”, de Peter Tosh, e “Your One And Only Man”, soul originalmente gravado por Otis Redding. Clapton, aliás, já foi mais feliz ao se aproximar da música jamaicana — como, por exemplo, na regravação de “I Shot The Sheriff”, de Bob Marley.
De resto, contudo, Old Sock coleciona acertos.
Ao lado de Paul McCartney, Clapton brilha em ‘All Of Me’
Mostrando versatilidade, Clapton se aventura pelo country — “Born To Lose” e o clássico “Goodnight Irene”— e regrava, na companhia de Stevie Winwood no órgão Hammond, “Still Got The Blues”, o maior sucesso solo do ex-guitarrista do Thin Lizzy, Gary Moore, falecido em 2011. A exemplo do que fizera em seu álbum anterior, Clapton volta a resgatar standards como “The Folks Who Live On The Hill” e a magistral “Our Love Is Here To Stay”, de George Gershwin, que fecha o álbum.
A cereja do bolo, entretanto, é “All Of Me”. Retribuindo a “canja” que Clapton deu em duas faixas de seu mais recente trabalho, o ótimo Kisses On The Bottom [2012], Paul McCartney assume o baixo e os backing vocais do clássico norte-americano, em uma versão simplesmente irretocável. E, no sentido de evitar que o disco soasse exclusivamente revisionista, EC incluiu duas inéditas: “Every Little Thing” e a ensolarada “Gotta Get Over”, com participação de Chaka Khan nos vocais.
O íntimo e despretensioso Old Sock provavelmente não figurará na galeria de títulos essenciais da discografia de Eric Clapton. No entanto, descontados os pequenos equívocos, trata-se de álbum marcado pela competência de um músico de múltiplos talentos. E de audição extremamente agradável.
Impossível falar sobre power trios como The Jimi Hendrix Experience sem mencionar o Cream [no detalhe], supergrupo por formado por Jack Bruce, Eric Clapton e Ginger Baker na década de 1960.
Em apenas três anos (1966-1969), o Cream gravou quatro álbuns de estúdio — Fresh Cream, Disraeli Gears, Wheels of Fire e Goodbye — e encerrou as suas atividades, devido às brigas constantes entre Bruce e Baker. As apresentações da banda em sua reta final acabaram se tornando um mero espetáculo de exibicionismo por parte do baterista e do baixista/vocalista.
Reza a lenda que, durante um show, Baker e Bruce começaram a improvisar alucinadamente, como se quisessem provar um para o outro quem era o instrumentista mais competente. Clapton, obviamente, percebeu a situação. E, para ver qual seria a reação da dupla, parou de tocar a sua guitarra.
Pasmem: os dois rivais sequer perceberam (!). E prosseguiram o seu “duelo” particular.
Em 2005, o Cream se reuniu para cinco apresentações no Royal Albert Hall, em Londres. Clapton revelou à imprensa que a ideia partiu dele. E foi motivada pelo estado de saúde dos ex-companheiros — Baker sofria de artrite e Bruce, vítima de câncer, havia passado por um transplante de fígado. A fragilidade física da dupla é visível no vídeo abaixo, do maior clássico do grupo, “Sunshine Of Your Love”, extraído do DVD Royal Albert Hall London May 2-3-5-6, 2005. A (exuberante) técnica instrumental do trio, entretanto, não se dissipou com o tempo. E, infelizmente, o mesmo se pode dizer das rusgas do passado. Observem que, antes de saírem do palco, Clapton e Bruce, sorridentes, se abraçam. Este e Baker, por sua vez, mal se olham...
Um assunto acaba “puxando” o outro. Composta por Bob Marley, “I Shot The Sheriff” foi lançada pelos Wailers no álbum Burnin', de 1973. Logo no ano seguinte, foi regravada por Eric Clapton no seu 461 Ocean Boulevard [no detalhe, a capa], onde obteve o seu melhor desempenho comercial: foi direto para a primeira posição da Billboard.
Na edição 2010 do Crossroads Guitar Festival*, Clapton tocou uma versão simplesmente arrasadorade “I Shot The Sheriff”. Em oito minutos e meio (!), God mostra o músico repleto de recursos que sempre foi. E prova por que é considerado o maior guitarrista vivo do planeta — e o segundo maior da história do rock, perdendo apenas para Jimi Hendrix.
* O Crossroads é um festival beneficente, organizado por Clapton a cada triênio, com fundos revertidos para a sua fundação — o Crossroads Centre —, localizada na Antigua, no Caribe, com o objetivo de recuperar dependentes químicos.
Para finalizar, por ora, o assunto Jimi Hendrix, um episódio que ajuda a ilustrar toda a sua genialidade. Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, considerado o melhor e mais influente álbum da história da música pop, foi lançado pelos Beatles no dia 01 de junho de 1967, uma quinta-feira.
Pois bem: Hendrix comprou o álbum e, provavelmente antevendo o que aquele trabalho viria a representar, aprendeu a tocar a faixa-título. Na noite de domingo — apenas três dias (!) após o lançamento do disco —, o guitarrista abriu o show que realizou no Saville Theatre, em Londres, com ela.
Detalhe: na plateia, estava um atônito Paul McCartney, que mal acreditava no que estava vendo/ouvindo...
Veja o vídeo com a versão de Jimi Hendrix para o clássico “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”:
Ainda sobre Jimi Hendrix. No encarte de seu segundo disco solo de estúdio, ...Nothing Like The Sun [no detalhe, a capa], de 1987, Sting declarou:
“[O trio] The Jimi Hendrix Experience foi uma das primeiras bandas que vi tocar. Eu tinha 15 anos e havia comprado o primeiro compacto de Jimi, ‘Hey Joe’. Ele estava tocando no clube GoGo, em Newcastle [nota: cidade natal de Sting]. Eu nunca havia visto ou ouvido algo como aquilo na minha vida e suponho que jamais verei.”
No álbum em questão, Sting regravou “Little Wing”, uma das mais belas — e delicadas — faixas de Hendrix. Naquele mesmo ano, o ex-Police ainda teve a felicidade de tocá-la ao lado de outro de seus “heróis”, em alguns shows que realizaram juntos: o figurão do jazz Gil Evans.
Embora até tenha se saído bem em sua releitura, a versão de Sting se baseia em critérios afetivos — e não supera o original de Hendrix. Entretanto, vale a pena assistir o fan vídeo abaixo, repleto de imagens inebriantes, que conseguem fazer o espectador... viajar:
Em agosto de 1969, no final de sua apresentação no festival de Woodstock, Jimi Hendrix [no detalhe] (1942 — 1970) decidiu protestar, à sua maneira, contra a Guerra do Vietnã. Tocou uma (desconcertante) versão instrumental de “The Star-Spangled Banner”, o hino nacional dos Estados Unidos, emulando, em sua guitarra, sons de bombas, metralhadoras e aviões de guerra. E deixou a plateia simplesmente... perplexa.
Acabou fazendo história.
Se vivo fosse, Hendrix completaria, no dia de hoje, 70 anos de idade. E é sempre oportuno celebrar a memória daquele que, de maneira inconteste, é considerado, em seu instrumento, o mais brilhante músico de todos os tempos. O Pelé da guitarra.
A comparação não é descabida: assim como jamais surgirá um novo Pelé, nunca teremos outro Jimi Hendrix. Simples assim.
Confirmado: Eric Clapton [foto] virá ao Brasil este ano, mais precisamente em outubro. E se apresentará em três capitais: Porto Alegre, no dia 6; Rio de Janeiro, no dia 9; e São Paulo no dia 12.
Do alto de quase meio século de carreira, o maior guitarrista vivo do planeta — e, muito provavelmente, o segundo maior de todos os tempos, perdendo apenas para Jimi Hendrix — merece como poucos o epíteto de “lenda viva”. Nos anos 1960, aliás, jovens londrinos foram ainda mais longe, pichando os muros da cidade com a frase “Clapton Is God” (Clapton é Deus)[à direita].
Além de ter sido integrante dos John Mayall And The Bluesbreakers, dos Yardbirds, do Cream e do Blind Faith, EC construiu uma sólida trajetória solo, que não sucumbiu nem aos percalços pelos quais passou na década de 1970 — o vício em heroína e, posteriormente, o alcoolismo — e de 1990 — a morte do filho Conor, ao cair de um prédio em Manhattan.
E, não bastasse a destreza no instrumento, Clapton tornou-se, com o passar dos anos, um grande arranjador e intérprete, conseguindo emplacar sucessos — suas ou de outros autores — como “Wonderful Tonight”, “Cocaine”, a tristonha “Tears In Heaven” e “Change The World”, entre outros.
Na bagagem, ‘Clapton’, o novo CD
Eric Clapton vem ao Brasil para divulgar o seu vigésimo trabalho, intitulado tão somente Clapton [à esquerda, a capa], lançado em outubro do ano passado. Nele, o músico incluiu apenas uma canção autoral — a irresistível “Run Back To Your Side”, que conta com a participação do jovem guitarrista americano Derek Trucks.
Mas quem se importa? O artista escolheu a dedo covers da sua “praia” — o blues, claro — e de jazz. E brilha nas versões serenas de “Autumn Leaves” e “Rockin' Chair” — nas quais, aos 66 anos de idade, reflete sobre a passagem do tempo.
Clapton também se permitiu soar leve e bem-humorado tanto no fox “My Very Good Friend The Milkman” quanto em “When Somebody Thinks You're Wonderful”, que fala da adulação aos artistas. Em ambos os momentos, chega a lembrar — pasmem — Sinatra (!).
Contudo, os destaques do álbum são: o clássico “How Deep Is The Ocean”, escrito por Irving Berlin em 1932 (!); e, em especial, a pungente balada “Diamonds Made From Rain”, que traz Sheryl Crow nos vocais — e que, em um mundo ideal, estaria em alta rotação nas FMs.
A julgar por Clapton, o CD, o Brasil verá — e, principalmente, ouvirá—God ainda em alto nível. É só aguardar.