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sexta-feira, setembro 23, 2016

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Mortal Loucura (Oração)’, com Maria Bethania


O soneto “Oração” foi um raro momento de lirismo do poeta baiano Gregório de Matos (1623 – 1696), que, pelo teor satírico de sua obra, ficou conhecido como “Boca do Inferno”. Em 2005, rebatizando-o de “Mortal Loucura”, José Miguel Wisnik o musicou para a trilha do balé Onqotô, do Grupo Corpo, composta e executada na companhia de Caetano Veloso.

No primeiro semestre deste ano, Maria Bethania regravou a faixa – diga-se de passagem, com um arranjo magnífico e uma interpretação ímpar – para a novela Velho Chico, além de disponibilizá-la em single digital. É o tema do personagem Santo, interpretado por Domingos Montagner, cujo falecimento, na semana passada, comoveu todo o Brasil.

À luz dos tristes acontecimentos, é intrigante observar que se trata de uma canção cuja temática é justamente… a efemeridade da vida (“Já sei que a flor da formosura, usura / será, no fim dessa jornada, nada”). O que nos leva a crer que “coincidência” é apenas uma palavra criada para nomenclaturar algo que, a bem da verdade, não sabemos explicar ao certo.



segunda-feira, maio 13, 2013

Lulu opta por releituras ‘respeitosas’ das canções do Rei e do Tremendão

Em agosto de 2012, Roberto Carlos visitou o camarim do cantor carioca no show Lulu Canta e Toca Roberto e Erasmo, no Vivo Rio

CD
Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo (Sony Music)
2013


Em seu segundo disco, O Ritmo do Momento [1983], Lulu Santos não fez por menos e emplacou logo três sucessos: “Um Certo Alguém”, “Adivinha o Quê?” e a canção que se tornou o seu carro-chefe eterno, o bolero-havaiano “Como uma Onda”. No ano seguinte, com Tudo Azul, consolidou de vez o status de hitmaker, com gemas pop do calibre de “Tão Bem”, “Certas Coisas”, “Lua de Mel” e... “O Calhambeque”, versão de Erasmo Carlos que ficou célebre na voz de Roberto Carlos. Foi também neste álbum que Lulu lançou uma de suas faixas mais emblemáticas, “O Último Romântico” — que fez com que o cantor carioca passasse a ser identificado como “o roqueiro romântico”, “sucessor de Roberto Carlos” e classificações do tipo. Desconfortável com o rótulo, Lulu decidiu “subverter as regras do jogo”: em 1985, lançou o ácido e roqueiro Normal, que acabou não sendo compreendido pelo público e teve pouca repercussão. Mas com o qual o artista logrou a intenção de “desconstruir” a imagem de “romântico”.

No entanto, o mundo gira e a Lusitana roda. E eis que, 28 anos após Normal, Lulu Santos, aos 60 anos de idade e 31 de carreira, finalmente abraça a obra da dupla — que inequivocamente exerceu influência em seu trabalho — no recém-lançado Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo, decorrente do show homônimo que percorreu algumas capitais brasileiras em 2012. 

Se, em 1995, Lulu gravou, na companhia do DJ Marcelo “Memê” Mansur, uma desconcertante versão de “Se Você Pensa”, desta vez optou por uma abordagem “respeitosa” dos clássicos dos autores de “Detalhes”. A capa do CD, na qual o guitarrista veste um terno impecavelmente cortado, dá um indício de seu conteúdo. A própria “Se Você Pensa”, aliás, reaparece “comportada” — mas, ainda assim, emulando, em um determinado momento, o canto falado da versão anterior. 



Apesar da ‘reverência’, pequenas ‘ousadias’ 

Provavelmente recorrendo à sua memória afetiva, Lulu concentrou sua atenção nas canções lançadas até a primeira metade da década de 1970. E, oscilando entre o blues e o rock tradicional, foi feliz na escolha do repertório, que conta com “É Preciso Saber Viver”, “As Curvas da Estrada de Santos”, “Sentado À Beira do Caminho” — a melhor faixa do disco, na qual o cantor não poupou a emoção que a canção pede — e a impagável “Sou uma Criança, Não Entendo Nada”, entre outros. A única exceção — e também a música mais “recente” do álbum — é “Emoções” [1981], que, sinceramente, de tão cristalizada na voz de Roberto, não deveria ser regravada por ninguém...

Apesar da opção por releituras “reverentes” das canções de Roberto e Erasmo, Lulu não deixou de cometer pequenas “ousadias”, como a versão reggae de “Eu te Darei o Céu”, na qual executa boa parte da melodia com sua guitarra. E nas alterações de ritmo de “Quando” e de “Não Vou Ficar” — canção de Tim Maia que, lançada por Roberto Carlos em 1969, abriu portas para o Síndico.

Antes de Lulu Santos, apenas Maria Bethania, há exatos 20 anos — com o ótimo As Canções que Você Fez para Mim — havia recebido a deferência de gravar um álbum inteiro dedicado à obra de Roberto e Erasmo Carlos. E todos os artistas que já tentaram regravar faixas da dupla sabem de toda a “burocracia” envolvida na empreitada. E, embora nenhuma das versões de Lulu supere as originais — convenhamos: abordar clássicos de 40, 50 anos não é exatamente uma tarefa fácil —, Lulu Canta e Toca Roberto & Erasmo não deixa de representar uma lufada de ar fresco em um dos mais importantes cancioneiros nacionais. Trata-se, portanto, de um trabalho digno da discografia do músico carioca. E à altura dos homenageados.




Leia também:





Ouça “As Curvas da Estrada de Santos”, com participação da cantora Késia Estácio...




...e também a bela “Sentado À Beira do Caminho”:

sábado, abril 13, 2013

Livro mostra que Victor Biglione já é ‘de casa’


Livro
O Guitarrista Victor Biglione & a MPB, de Euclides Amaral (Esteio Editora)
2011/2013



Residente no Rio de Janeiro há meio século, Victor Biglione tem a sua proximidade com a música brasileira destrinchada em O Guitarrista Victor Biglione & a MPB, escrito por Euclides Amaral. Com prefácio do compositor Sérgio Natureza e nota do pesquisador Ricardo Cravo Albim, o livro foi editado originalmente em 2011 e recebe agora uma versão revista e ampliada.

Minucioso, Amaral refaz, em 221 páginas amplamente ilustradas — com fotos e partituras —, toda a trajetória profissional de Biglione, nascido em Buenos Aires e torcedor do San Lorenzo, o mesmo time do Papa Francisco I.

Antes de vir para o Rio — onde se estabeleceu em definitivo —, a família Biglione deixou a capital argentina para morar em São Paulo. Mais tarde, o músico transferiu-se para os Estados Unidos, para estudar na Universidade de Berklee, levando debaixo do braço uma carta de recomendação assinada por um certo... Antonio Carlos Jobim.

De volta ao Brasil, o guitarrista passou a acompanhar, em estúdio e apresentações ao vivo, nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethania, Gal Costa e Djavan, entre outros. O Guitarrista Victor Biglione & a MPB não deixa dúvidas: o músico estrangeiro com mais colaborações em shows e gravações de artistas brasileiros já é, definitivamente, “de casa”.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Fera Ferida’, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos


Em 2008, Caetano Veloso criou o blog Obra em Progresso, no sentido de interagir com os internautas, durante a concepção do que viria a se tornar o CD Zii & Zie [2009]. E dedicou uma postagem à “Fera Ferida”, que ouviu no rádio de um táxi. É uma pena o espaço já não estar no ar — o que obriga este relato a ser “painted from memory”.

Na ocasião, Caetano contou que, embora conhecesse a canção desde o seu lançamento, em 1982 [no detalhe, a capa] — inclusive a regravou em seu álbum de 1987 —, ouvi-la ali, de sopetão, o deixou emocionado. O autor de “Outras Palavras” prosseguiu a sua observação, afirmando que, desde o primeiro verso (“Acabei com tudo / escapei com vida”), “a bola nunca mais cai”. Ou seja, a canção mantém presa a atenção do ouvinte. Até o final.

E finalizou dizendo que escutar “Fera Ferida” pela primeira vez foi “uma grata surpresa, a mais instigante canção lançada por Roberto Carlos em muito tempo”. 

Caetano Veloso estava certíssimo. Repleta de belas imagens (“Os meus rastros desfiz / tentativa infeliz de esquecer”), “Fera Ferida” é, sem dúvida alguma, uma das mais brilhantes letras escritas por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. E, embora também regravada, em um arranjo épico, por Maria Bethania em As Canções que Você Fez para Mim [1993] — inteiramente dedicado à obra da dupla —, a versão definitiva é, de fato, a de Roberto.

É o tipo de canção que o Rei nasceu para cantar. 




P.S.: Nutro sincera admiração pelas pessoas que conseguem fugir da escrita “analítica” da “terceira pessoa” e se expressam de modo mais pessoal em um blog. É algo que, confesso: sinto-me desconfortável em fazer — embora, através do Google Analytics, já tenha observado que, nas minhas raras postagens “confessionais”, a resposta, em visitações, é sempre muito positiva. Não está descartada, inclusive, a hipótese da criação de mais um blog, destinado apenas a pensatas e análises musicais “autobiográficas”. Ou, talvez, uma série — a exemplo da “São Bonitas as Canções” —, com estas características, dentro deste blog. Enfim, é uma ideia a ser amadurecida. Por ora, o que importa é destacar que as canções postadas neste espaço obedecem a três critérios: a) qualidade, evidentemente; b) relação com um ou mais textos postados recentemente; c) possuírem alguma história interessante a ser contada. Portanto, nada têm a ver com a minha pessoa ou com o meu cotidiano. E tampouco trazem alguma “mensagem subliminar”. “Fera Ferida”, contudo — independentemente de ser uma pérola —, é um caso à parte. Trata-se de uma música que tem “me acompanhado” há muitos anos e com a qual sempre me identifiquei. Sempre. Pela personalidade forte. Pelo temperamento arisco. Pelo modo irredutível de tomar decisões (“Não vou mudar: esse caso não tem solução”). E também pela minha trajetória de vida (“O coração perdoa / mas não esquece à toa / e eu não esqueci”). Alguns familiares, inclusive, já fizeram essa “associação”. Detalhe: sem que eu jamais tivesse manifestado para eles o meu apreço pela canção: “Olha a música do Tom!” Ou seja, do leão que só “se enfurece” e “ataca”... por ter sido “alvejado”. Sendo assim, “eternizá-la” neste espaço — além de uma tendência natural, dada a sua importância para mim — é um desejo antigo. A data do arquivo de imagem que ilustra esta postagem, guardada em meu pen drive durante um longo tempo, não me deixa mentir: “Modificado em 13/10/2008” (!).




Veja o vídeo da (surpreendente) versão eletrônica de “Fera Ferida”, com participação do DJ Marcelo “Memê” Mansur, extraído do Especial de Roberto Carlos de 2012. O fonograma será lançado no álbum Reimixes, que chegará às prateleiras em 2013:





E ouça a versão original da canção: