Um dos pontos altos da apresentação de Stevie Wonder [acima, em foto do portal Terra] no Rock In Rio foi quando o artista convidou a sua filha, Aisha Morris — que inspirou, em 1976, a gema pop “Isn't She Lovely?” — para cantar “Garota de Ipanema”. Um momento antológico.
Mas não apenas pelo fato de Wonder estar tocando uma canção de Antonio Carlos Jobim [à direita] — ou seja, um gênio “se debruçando” sobre a obra de outro. Não.
A versão de SW para “Garota de Ipanema” entrou para a história pelos minutos em que a toda a magia da música do Maestro Soberano se fez ecoar na Cidade do Rock, na voz dos jovens que, “regidos” por Wonder. cantaram o clássico de Tom & Vinicius a plenos pulmões.
No entanto, estes mesmos jovens talvez não saibam de cor mais cinco — não mais: apenas cinco — canções do autor de “Wave”. Lamentavelmente. A (monumental) obra de Antonio Carlos Jobim — que, em um mundo ideal, deveria ser tão emblemática para o nosso povo quanto o Corcovado ou o Pão de Açúcar — ainda está para ser descoberta.
Cristo Redentor*. 80 anos. Cartão postal do Rio de Janeiro. Orgulho do Brasil.
* Esta foto foi tirada por mim em junho deste ano.
Veja o vídeo do clássico “Corcovado”, extraído do (magnífico) especial João & Antonio, gravado no Theatro Municipal do Rio em 1992 e exibido pela Rede Globo naquele mesmo ano.
Dizer que “há uma criança dentro de cada adulto” é um dos maiores clichês que existem. Entretanto, é uma afirmativa totalmente verdadeira.
Temos muito a aprender com as crianças. Basicamente o que acabamos por “desaprender” no decorrer dos anos. A sermos espontâneos. Puros. “Desarmados”. E alegres sem a menor culpa.
Fica a dica: sejamos como as crianças pelo menos um dia no ano — hoje.
Ontem, 09 de outubro de 2011, John Lennon, se vivo fosse, teria completado 71 anos de idade. Curiosamente, Paul McCartney escolheu precisamente esta data para realizar o seu terceiro casamento — com a empresária americana Nancy Shevell.
Se era controverso como pessoa, Lennon, como artista, merece ser sempre lembrado. E não apenas da maneira mais óbvia, através de clássicos incontestáveis como “Imagine”, “Jealous Guy” e tantos outros.
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Em 1980, durante o período de férias nas Bahamas, na companhia de seu filho Sean — onde nasceram as primeiras canções de Double Fantasy, seu último trabalho —, Lennon parecia ter recuperado a alegria. Ia à praia todos os dias e, influenciado pelas audições diárias de Burnin' [1973], sexto álbum dos Wailers, teve a ideia de gravar um álbum de “reggae e sons caribenhos”, segundo confidenciou, na época, a pessoas próximas.
O projeto acabou não seguindo adiante, devido à (sempre nefasta) interferência de Yoko Ono, que “sugeriu” que metade (!) do disco abrigasse composições dela — transformando o trabalho em uma espécie de “terapia de casal”.
Lennon, entretanto, chegou a gravar uma faixa inspirado pelo sol do Caribe. “Borrowed Time”, maravilhosa ode à maturidade, era uma “releitura pessoal” que Lennon fez de “Hallelujah Times”, do já mencionado Burnin'. Na letra, repleta de lucidez — e uma certa... hum, “clarividência”, digamos —, John concluiu que vivia em um “tempo emprestado”.
A mais pura verdade.
“Borrowed Time”, contudo, acabou ficando de fora da seleção final de Double Fantasy, sendo lançada apenas no primeiro álbum póstumo do ex-Beatle, Milk And Honey, de 1984.
Stevie Wonder, que se apresentará amanhã no Rock In Rio, é um artista cuja trajetória é absolutamente singular.
Assinou seu primeiro contrato com uma gravadora, a Motown, aos 11 (!) anos de idade. Em sua discografia, encontram-se álbuns essenciais como Talking Book [1972], Innervisions [1973], Fulfillingness' First Finale [1974] e, em especial, Songs In The Key Of Life [1976]. Aos 61 anos, com mais de trinta hits no currículo, é o artista masculino que mais ganhou prêmios Grammy — 25 ao todo. Nada disso, entretanto, é novidade para ninguém.
O que talvez nem todos saibam é que, não bastasse o soberbo cantor e compositor que sempre foi, Stevie — a despeito da deficiência visual de nascença —, é um multi-instrumentista, gravando várias de suas faixas praticamente sozinho (!).
Contudo, apesar de dominar piano, baixo e até... bateria, Wonder é mais identificado pelo público por um instrumento em especial: a harmônica [no detalhe].
Além de estar presente em vários de seus clássicos como “Isn't She Lovely”, “Send One Your Love”, “From The Bottom Of My Heart” e “For Once In My Life”, a gaita de Stevie Wonder também aparece em sucessos de outros artistas.
Confiram alguns exemplos:
Gravado em Los Angeles, Luz, quinto álbum de Djavan, conta com a participação da inconfundível harmônica de Stevie Wonder em “Samurai”. Anos depois, em entrevista a Jô Soares, o cantor alagoano fez uma curiosa observação sobre seu convidado: “Ele tem uma bunda enorme”:
No ano seguinte, Wonder emprestou sua gaita à belíssima “I Guess That's Why They Call It The Blues”, lançada por Sir Elton John em seu álbum Too Low For Zero:
Em 1984, Stevie colaborou com Chaka Khan, em sua incendiária releitura de “I Feel For You”, uma das mais infalíveis faixas para pista já gravadas. A versão original, que o autor Prince, lançou em seu segundo disco, epônimo, de 1979, não chega nem perto...
Faixa do álbum Be Yourself Tonight [1985], do extinto duoEurythmics, a bela melodia “There Must Be An Angel (Playing With My Heart)”, não poderia encontrar, além da voz cristalina de Annie Lennox, um adorno mais apropriado do que a harmônica de SW:
Stevie Wonder também participa da regravação da imortal “As Time Goes By”, que Carly Simon incluiu em seu Coming Around Again, de 1987:
Em Duets II, de 1996, derradeiro trabalho de Frank Sinatra, Stevie acompanhou o anfitrião e Gladys Knight em uma canção que fez muito sucesso em sua voz: “For Once In My Life”:
Por considerá-la um tanto parecida com o antigo sucesso “I Was Made To Love Her”, Sting — fã confesso de Wonder — convidou-o para tocar gaita na esperançosa “Brand New Day”, faixa-título do álbum que o ex-Police editou em 1999. Em vídeo extraído do DVD Live At Universal Amphitheatre, daquele mesmo ano, a entrada-surpresa de SW causou enorme frisson na plateia. E vale a pena observar também a reação de Sting: terminada a canção, Stevie vai deixando o palco e o baixista observa, em silêncio, com as mãos juntas — como se estivesse rezando. Segundos depois, com a voz calma, diz, simplesmente: “Stevie Wonder”. Então, olha para o alto e completa a frase: “Um ser elevado”:
Stevie Wonder também participou — brilhantemente, diga-se de passagem — da dobradinha* “Berimbau/Consolação”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, gravada por Gracinha Leporace em Timeless, álbum lançado por seu marido, Sérgio Mendes, em 2006. Wonder e Mendes, aliás, são amigos de longa data:
* Dedico esta canção ao pequeno capoerista aqui de casa.
“Ebony and Ivory” é uma das mais notáveis colaborações do pop — uma verdadeira “pororoca de gênios”.
Faixa que finaliza o ótimo Tug Of War [no detalhe], álbum editado pelo ex-Beatle em 1982, “Ebony and Ivory” é um libelo pela igualdade racial, utilizando a (inteligente) metáfora das teclas do piano: “O ébano e marfim vivem juntos em perfeita harmonia / lado a lado / no teclado do meu piano.”
E foi justamente para enfatizar esta ideia que McCartney optou por convidar um artista negro para gravar esta música com ele. A escolha não poderia ter sido mais feliz.
Veja o vídeo original:
Em julho de 2010, 28 anos após a gravação original, Paul McCartney e Stevie Wonder reviveram o dueto, em apresentação realizada na Casa Branca, onde o autor de “The Long And Winding Road” foi agraciado com o Prêmio Gershwin, pelo conjunto de sua obra. Detalhe: foi o primeiro estrangeiro a receber tal honraria.
O carinho e o respeito que nutrem um pelo outro ficam claros desde o momento em sobem ao palco. E, depois de uma execução irrepreensível, Wonder, no final da canção, exclama: “Amamos você, Paul”.
Sensibilizado, McCartney se aproxima de Wonder. Beija-o na testa. Diz-lhe algo ao pé do ouvido. E o beija novamente.
Felizmente, este momento único está registrado para a posteridade.
Originalmente lançadas em Songs in The Key Of Life [no detalhe, a capa do álbum, de 1976] — álbum que está no mesmo patamar de clássicos do pop como Sgt. Peppers' [Beatles], Exile On Main Street [Rolling Stones] e Pet Sounds [Beach Boys] —, “Knocks Me Off My Feet” e “As” são duas das mais brilhantes canções do repertório de Stevie Wonder.
Suave e, ao mesmo tempo, intensa, “Knocks Me Off My Feet” soa como uma relato para lá de sincero: “Há algo que sinto algo por você / que me deixa fraco / e me tira o chão”. E possui um dos refrões mais inusitados — e infecciosos — do pop, que não deixa pedra sobre pedra: “Não quero chatear você com isso / mas te amo, te amo, te amo”.
Já “As” é, por assim dizer, uma das mais profundas declarações de amor já escritas ever. Um verdadeiro poema.
A versão que encerra o seu único DVD, Live At Last [2009], gravado ao vivo em Londres, é um capítulo à parte. Sem parar de tocar o seu teclado, Stevie deu um depoimento comovente, mencionando a mãe, que falecera dois anos antes — “foi o dia mais triste da minha vida”, lamentou. E revelou que, tempos depois, ela lhe pediu, em sonho, para que “continuasse levando sua mensagem de amor às pessoas”, através da música.
Ele prosseguiu, agradecendo “por tudo o que tenho recebido durante a minha carreira”, sem esquecer de mencionar o apoio recebido de sua família. E fechou com chave de ouro, pregando o amor universal e abençoando a todos [saiba mais aqui].
Stevie Wonder é um ser de luz. Suas canções exalam emoção em estado puro. Veja o vídeo abaixo. E tente se manter indiferente:
Julio Iglesias [no detalhe] é um artista controverso: possui, nos quatro cantos do planeta, fãs e detratores na mesma proporção.
Uma coisa, no entanto, não se pode negar: Iglesias é um sujeito de sorte. Por vários motivos. Para citar apenas um: o espanhol pode se jactar de já ter recebido de presente uma canção inédita de Stevie Wonder. E não uma faixa qualquer: mas uma pérola.
Lançada originalmente no álbum Non-Stop, de 1988, “My Love” — que Wonder jamais registrou em um CD seu —, é um verdadeiro tratado sobre o amor, no seu sentido mais amplo (“Para ricos e pobres, o amor é igual”) e libertário (“E se alguém lhe perguntar quem é o meu verdadeiro amor / diga que o meu verdadeiro amor / está sempre aberto a todo amor que vier”). E, além de participar da gravação cantando, Stevie produziu a faixa e tocou todos (!) os instrumentos.
A verdade é uma só: a canção é tão perfeita, que nem a “pouca intimidade” de Julio Iglesias com a língua inglesa conseguiu comprometê-la...
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Há um trecho de “My Love” que precisa ser destacado — o refrão, que diz: “Deixe que o meu amor brilhe através do mundo / em cada topo de montanha e campanário”. Campanário é o nome que se dá a qualquer torre de igreja que abrigue um sino — ou mais.
E ocorre que Wonder consegue criar, em uma letra de música, uma imagem de tamanha beleza... sem jamais ter visto (!) na vida esses elementos. O mesmo vale para o arco-íris, os botões de rosa, as árvores, o oceano, os golfinhos e os papagaios de “As”. E é justamente nestes pequenos detalhes que reluz a sua magia, a sua sensibilidade aguda.
Para quem crê, Deus está em toda a parte. E ouso dizer que Ele se manifesta com enorme nitidez na obra de Stevie Wonder.
Antes que alguém reclame: provavelmente por uma questão de agenda, Stevie Wonder nãoaparece no vídeo de “My Love”...
Em uma apresentação de TV, Wonder entoa a canção na companhia de Dionne Warwick. Observem que, em um dado momento, ele se comove, afasta o microfone por alguns segundos... e pede desculpas à plateia. Um certo artista brasileiro — criticando Elis Regina, que chorou várias vezes ao cantar ao vivo “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque —, declarou que o artista “não pode se emocionar com a própria arte”. Talvez este cidadão tenha se esquecido que, dentro do profissional mais experiente, continua existindo um ser humano, que pode muito bem fraquejar, sim — por que não? Para respondê-lo, ninguém melhor do que Noel Rosa: “Quem é você, que não sabe o que diz?”
Por ocasião do lançamento de seu novo CD, Chico, agosto acabou se tornando uma espécie de “mês Chico Buarque” no TomNeto.com, com diversas postagens sobre o artista.
Portanto, para encerrar — por ora — o tema, não podemos deixar de destacar uma das principais faixas do álbum: “Sou Eu”. Apesar de um tanto prejudicada pela participação de Wilson das Neves, a faixa é um dos pontos altos do trabalho. E, não por acaso, é umas das preferidas de Chico Buarque.
— Minha ideia era fazer um disco somente de inéditas. Mas não podia deixar “Sou Eu” de fora: adoro essa música.
Parceria de Chico com Ivan Lins — que também a registrou em seu álbum Íntimo, de 2010 —, foi presenteada a Diogo Nogueira [no detalhe], o primeiro a gravá-la, no seu primeiro álbum de estúdio, Tô Fazendo a Minha Parte, de 2009. A canção também acabou batizando o segundo disco ao vivo de Diogo, editado em 2010.
Impossível não conectá-la a um outro samba de gafieira, também gravado por Chico: “Sem Compromisso”, de Geraldo Pereira. Ambas as letras contam a estória do indivíduo que leva uma mulher para o baile, e acaba vendo-a dançar com outros homens.
A diferença é que, se em “Sem Compromisso”, o eu-lírico fica furioso com a situação (“Você só dança com ele / e diz que é sem compromisso / é bom acabar com isso / não sou nenhum pai-joão. / Quem trouxe você fui eu / não faça papel de louca / pra não haver bate-boca dentro do salão”), em “Sou Eu”, ele tem a segurança de quem sabe que é o “dono do pedaço”: (“Porém, depois que essa mulher espalha / seu fogo de palha / no salão / pra quem que ela arrasta a asa, / quem vai lhe apagar a brasa, / quem é que carrega a moça pra casa / sou eu. / Só quem sabe dela sou eu. / Quem dá o baralho sou eu. / Quem manda no samba sou eu”).
Veja o vídeo de “Sou Eu”, com a participação dos autores, Chico Buarque e Ivan Lins, extraído do DVD Sou Eu — Ao Vivo:
Veja também o vídeo com a versão de Ivan Lins, gravado na famosa casa de shows Bimhuis, em Amsterdã: