Em seu novo show, Symphonica, George Michael presta uma homenagem à sua compatriota Amy Winehouse [no detalhe], falecida em agosto desse ano. Do repertório do (ótimo) Back To Black, segundo — e derradeiro — trabalho de Amy, George relê a belíssima “Love Is a Losing Game”, provavelmente a faixa mais intensa do álbum.
A cada apresentação, “Love Is a Losing Game” é sempre precedida de um comentário do cantor, que revela, em cena, ter se separado há dois anos e meio:
— Minha vida amorosa, nos últimos vinte anos, tem sido bem mais turbulenta do que tenho deixado transparecer nas minhas canções.
Veja o vídeo da versão de George Michael para “Love Is A Losing Game”, extraída de sua apresentação do dia 22 de agosto em Praga, na República Tcheca:
E veja também o vídeo da (estupenda) versão original, com Amy Winehouse:
Além de ter tocado — e se emocionado — no velório-show de MJ, em 2009, Wonder incluiu no setlist de seu show uma versão de “The Way You Make Me Feel”. Originalmente lançada em Bad, de 1987, a faixa tornou-se, simplesmente, mais um petardo dançante de Stevie Wonder, do calibre de uma “Part-time Lover”.
Veja o vídeo de “The Way You Make Me Feel”, com a participação, ao piano, de John Legend — que, sabiamente, entrou mudo e saiu calado. Observem que, em um dado momento, Wonder se comove a ponto de não conseguir cantar. Mas, logo depois, se recompõe. E prossegue:
Já na sua apresentação no festival de Glastonbury, no ano passado, SW tocou uma belíssima versão de “Human Nature”, que Michael lançou em seu trabalho de maior sucesso Thriller, de 1983.
Vale lembrar que Stevie e Michael chegaram a gravar dois duetos – ambos muito aquém do talento da dupla. O primeiro foi “Get It”, do álbum Characters, que Wonder editou em 1987:
E o segundo foi “Just Good Friends”, do supracitado Bad, de Jackson:
Ao longo de sua carreira, George Michael [no detalhe] já recorreu várias vezes ao repertório de Stevie Wonder— que, por sinal, é um dos ídolos do ex-Wham!.
A primeira vez foi em 1991, no álbum Listen Without Prejudice, quando fez um registro digno da pungente “They Won't Go When I Go”, originalmente lançada no álbum Fulfillingness' First Finale, de 1974. Na ocasião, o artista declarou:
— Fiquei bastante satisfeito com o resultado final desta faixa. Afinal, deu muito trabalho...
Naquele mesmo ano, Michael incluiu no lado B do single Don't Let The Sun Go Down On Me — o (bem-sucedido) dueto com Elton John — uma gravação ao vivo de “I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)”, do clássico Talking Book, 1972
Três anos antes, entretanto, George já havia incluído “Too Shy To Say”, também do álbum Fulfillness' First Finale, no repertório de sua Faith Tour:
Também em 1988, no show em homenagem ao aniversário de 70 anos de Nelson Mandela, GM cantou “Village Ghetto Land”, originalmente lançada no essencial Songs In The Key Of Life, de 1976;
No Concert For Hope, realizado em 1993, Michael fez uma releitura de “Love's In Need Of Love Today”, a faixa que abre o já mencionado Songs In The Key Of Life, na companhia do próprio Stevie Wonder.
Em 1997, em um concerto promovido pelo canal VH-1, George cantou “Living For The City”, novamente acompanhado pelo ilustre autor da canção:
Em 1998, na compilação dupla Ladies & Gentlemen — The Best Of George Michael, o cantor regravou, na companhia da americana Mary J. Blige, a belíssima “As”, também de Songs In The Key Of Life. E, cá para nós: sua (elegante) versão não deve absolutamente nada à do mestre — pronto, falei.
Em 2006, o artista voltou a cantar uma faixa de Songs In The Key Of Life — ele deve gostar bastante desse disco: “Knocks Me Off My Feet” fez parte dos primeiros shows da turnê 25 Live. Contudo, por algum motivo, a faixa acabou posteriormente sendo excluída do roteiro.
Por fim, em abril deste ano George disponibilizou em seu site, para download gratuito, uma versão de “You And I”, do supracitado Talking Book. Na ocasião, o cantor ofereceu a faixa como um “presente de casamento” ao príncipe William e Kate Middleton [saiba mais aqui]:
Originalmente lançada no conceitual Journey Through “The Secret Life Of Plants” [no detalhe, a capa], de 1979, “Send One Your Love” é, por assim dizer, uma das mais belas melodias compostas por Stevie Wonder. Poderia ter sido gravada apenas em sua versão instrumental, se o artista assim desejasse. É, poderia.
Mas não: gênio que é, Wonder deu-se ao luxo de criar uma letra à altura da melodia — uma ode a exposição dos sentimentos. “Já ouvi muitas pessoas dizendo que os dias de romance não existem mais / e se apaixonar é tão antiquado. / Mas eles estão esperando o dia que, uma vez, em que deixarão escapar / a necessidade escondida / de cumprir o desejo do seu coração...”
E termina com um belo tapa de luva de pelica: “Sei que as pessoas dizem que ‘dois corações batendo como um’ é irreal / e só pode acontecer em contos de fadas. / Mas eles devem estar tão cegos que não conseguem acreditar no que veem / pois, ao nosso redor / estão os milagres da glória do amor”.
Traduzindo, é como se ele dissesse: “Vocês parecem ser mais cegos do que eu, caramba — não enxergam um palmo à frente do nariz...”
Curiosamente, Sting incluiu em Sacred Love [no detalhe, a capa], seu álbum de 2003, uma canção de título (muito) semelhante à de Stevie Wonder — de quem, aliás, o ex-Police é admirador confesso [saiba mais aqui].
“Send Your Love”, a faixa em questão, foi o primeiro single daquele CD. No entanto, a despeito da semelhança do título, a letra não apresenta a visão “romântica” de Wonder sobre o maior de todos os sentimentos — mas nem por isso menos... hum, abrangente, digamos assim.
Vale destacar também a magnífica fotografia do vídeo — na verdade, da versão remix de “Send Your Love”, que, ao contrário da gravação original, não conta com a participação do violonista flamenco Vicente Amigo.
Já os versos de “Sacred Love”, a faixa que dá nome àquele trabalho, abordam o amor de maneira — eu poderia classificar como “transcendente”, mas não gosto muito dessa palavra —... sagrada mesmo. Ou... universal, talvez. “Não preciso de médico / não preciso de comprimidos / tenho uma cura para os males do país. (...) / Todos os santos e anjos / e as estrelas lá no alto / tudo se resume ao amor”.
Encruzilhada (independente, com distribuição via Sony Music)
2011
Músico leva a harmônica para além dos limites do blues
Com de 20 anos de carreira – tendo gravado com nomes como Belchior, Celso Blues Boy, Norton Buffalo, Peter Madcat & Eddie Clearwater, entre outros – o gaitista Jefferson Gonçalves chega ao seu quarto CD solo.
Produzido pelo próprio Jefferson e gravado de forma independente – com distribuição via Sony Music –, Encruzilhada [no detalhe, a capa] apresenta em sua maioria, temas inéditos, compostos por Gonçalves e parceiros.
Instrumento normalmente associado ao blues, a harmônica alça voos mais altos nas mãos de Jefferson. Há um “sotaque” brasileiro — ou, para ser mais exato, nordestino — ao longo do álbum. A faixa-título, que abre os trabalhos, é um insuspeitado... baião (!). O mesmo vale para “Tudo Azul”, do flautista Carlos Malta, além das autorais “Na Hora” e “Arrumando a Casa”.
Na seara de covers, JG vai de “Catfish Blues”, do mestre Muddy Waters, “Long Hard Blues”, parceria de Roy Rogers com o supracitado Norton Buffalo, e “Down In Mississipi”, da cantora gospel Mavis Stapples.
Composta em 1962 por Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, “Garota de Ipanema” chamava-se inicialmente “Menina que Passa”. E recebeu os seguintes versos: “Vinha cansado de tudo / de tantos caminhos / tão sem poesia / tão sem passarinhos / com medo da vida / com medo de amar. / Quando, na tarde vazia / tão linda no espaço / eu vi a menina / que vinha num passo / cheio de balanço / caminho do mar”.
Entretanto, os dois parceiros estavam insatisfeitos com a letra. Sendo assim, Vinicius a reescreveu, inspirado na jovem Helô Pinheiro [à esquerda], que passava frequentemente pela calçada do bar Veloso — atual Garota de Ipanema —, situada na rua Montenegro — que, posteriormente, passaria a se chamar rua Vinícius de Moraes. Na época, o Maestro Soberano e o Poetinha eram habitués do local.
No ano seguinte, “Garota de Ipanema” foi gravada no célebre álbum Getz/Gilberto. E, em 1964, foi a vez do próprio Jobim registrá-la, em seu The Composer Of Desafinado Plays.
Três anos depois, Frank Sinatra convidou Tom para que, juntos, gravassem o histórico Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, o que projetou mundialmente a música do brasileiro. Adivinhem qual faixa abre o álbum?
“Garota de Ipanema” acabou se tornando a segunda canção mais executada e gravada no planeta em todos os tempos (!) — perdendo apenas para “Yesterday”, dos Beatles. O que deveria ser motivo de orgulho para todos nós, brasileiros.
No entanto, pouca gente se dá conta disso. Infelizmente.
Veja o antológico vídeo de Frank Sinatra e Antonio Carlos Jobim, ambos esbanjando charme, cantando “The Girl From Ipanema” em um especial da TV americana:
E ouça a (espetacular) versão gravada por Jobim em um de seus mais brilhantes trabalhos, Inédito, de 1987. Ao lado da sua inseparável Banda Nova, Tom, discretamente “desconstrói” o próprio clássico, começando a canção pela parte dois (“Ah, por que estou tão sozinho?”), criando improvisos, alterando andamentos – enfim, fazendo o diabo com “Garota de Ipanema”:
No momento em que Stevie Wonder [no detalhe] incluiu “Garota de Ipanema” no roteiro de sua recente apresentação no Rock In Rio, muitos podem ter pensado que tratava-se de mais um exemplo de “gringo fazendo média” — quando, na verdade, não é nenhum pecado que um músico estrangeiro tenha um gesto de “simpatia” para com a cultura de um país em que esteja visitando.
(Ainda que, em alguns casos, seja pura demagogia mesmo...)
Wonder, entretanto, possui uma ligação antiga com a música brasileira — tendo, inclusive, participado de trabalhos de artistas nacionais como Djavan e Sérgio Mendes [saiba mais aqui].
Em seu álbum Live, de 1970, Stevie gravou uma versão em inglês de Sergio Mendes — de quem é amigo de longa data — para “Sá Marina”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, sucesso na voz de Wilson Simonal.
Ouça “Pretty World (Sá Marina)”:
No ano seguinte, SW visitou o Brasil pela primeira vez, para uma pequena apresentação. Na ocasião, o samba “Você Abusou”, da dupla Antônio Carlos & Jocafi, fazia um estrondoso sucesso que, posteriormente, atravessaria fronteiras — a música foi gravada até em francês (!).
Eventualmente, Stevie a incluí no roteiro de seus shows. Foi assim em 1995, quando trouxe a sua turnê Conversation Peace para o Free Jazz Festival. E voltou a acontecer agora, no Rock In Rio, como música incidental em “Garota de Ipanema”.
Em 1973, Wonder compôs uma canção inspirada no modo “cuca fresca” do povo brasileiro: a arrasadora “Don't Worry 'Bout a Thing”, lançada originalmente no (excelente) Innervisions.
Veja o vídeo de “Don't Worry 'Bout a Thing”, extraído do (estupendo) DVD Live At Last, de 2009:
Por fim, em seu mais recente álbum de estúdio, A Time To Love [2005], a influência brasileira se faz presente na swingada — e praticamente desconhecida — “Sweetest Somebody I Know”, cuja melodia, em alguns momentos, se assemelha a... “Samba de Uma Nota Só”, clássico de Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça.