O período em que George Michael [foto] esteve internado em um hospital de Viena, Áustria — vítima de uma pneumonia que quase o matou — acabou rendendo um single.
Os versos de “White Light”, a faixa em questão, aludem claramente à enfermidade do cantor, que não esconde a felicidade de não se deparar com “a luz branca” do fim. E agradece a quem rezou por ele.
O vídeo, que não economiza na produção — GM, por sinal, costuma caprichar nos seus clipes —, tem a participação da top model Kate Moss. E a letra de “White Light” soa sincera. Mas a verdade é que, em priscas eras, George Michael já escreveu canções bem melhores...
Depois de Michael Jackson — com “Black Or White”, “Remember The Time” e, principalmente, “Thriller” —, o videoclip extrapolou a sua função, a princípio, meramente promocional para se tornar, de maneira inconteste, uma forma de arte.
Um exemplo recente é “My Valentine”, uma das duas inéditas do (estupendo) Kisses On The Bottom [no detalhe, a capa], novo álbum de Paul McCartney, que chegou às prateleiras em fevereiro deste ano. No vídeo, Natalie Portman e Johnny Depp “interpretam” a letra da canção, utilizando a linguagem dos sinais.
Embora aparentemente simples, a ideia não poderia ter sido mais brilhante — não somente do ponto de vista poético, mas, sobretudo, por aproximar a faixa daqueles que, infelizmente, estão privados de ouvi-la.
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Em entrevista recente, Paul McCartney revelou que a inspiração para “My Valentine” surgiu durante uma viagem de férias ao Marrocos, quando uma frase pronunciada pela sua atual esposa, Nancy Shevell, acabou se transformando no primeiro verso da música: “E se choveu? / Não nos importamos”.
Na ocasião, McCartney sentou em um antigo piano do hotel em que o casal estava hospedado e, segundo ele, “a canção saiu praticamente de uma só vez”.
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Curiosidade: apesar de a gravação contar com a (impecável) participação de ninguém menos que Eric Clapton no violão de nylon, é realmente Johhny Depp quem executou, no vídeo, o solo de violão. Para quem não sabe, o ator também é músico, tendo, entre outras colaborações, tocado slide guitar em “Fade-In-Out”, faixa do terceiro álbum do Oasis, Be Here Now, de 1997.
A outra faixa inédita do mais recente CD do ex-Beatle é “Only Our Hearts”, cuja ficha técnica tem um convidado (mais do que) especial: Stevie Wonder [no detalhe, a dupla de gênios], na companhia de sua inconfundível harmônica, exatos 30 anos após o belíssimo dueto em “Ebony And Ivory”.
O repertório de Kisses On The Bottom — cuja direção musical foi assinada pela cantora, pianista e compositora canadanese Diana Krall, que também “emprestou” a sua banda para a gravação do disco — é formado por standards americanos dos anos 20, 30 e 40. E os dois originais de McCartney estão irrepreensivelmente conectados a essa estética — como ocorrera em Run Devil Run, de 1999, no qual o baixista incluiu três autorais inéditas em meio a releituras de rocks da década de 1950.
A singela “Meu Amigo, Meu Herói” foi um “presente” de Gilberto Gil a Zizi Possi, que a gravou em seu terceiro álbum, epônimo, editado em 1980. Naquele mesmo ano, integrou a trilha sonora da novela Plumas & Paetês. No entanto, curiosamente, Gil jamais a incluiu em nenhum disco seu.
Por razões familiares, esta canção sempre me comoveu sobremaneira. E, no dia de hoje, sua menção se faz mais do que oportuna.
Veja o vídeo da gravação original de “Meu Amigo, Meu Herói”, cantada por Zizi Possi — que este vosso amigo considera a mais bela voz feminina brasileira viva...
...e também a versão de Caetano Veloso, extraída do especial de TV Grandes Nomes, de 1981. Curiosidade: no colo de Renato Aragão, ainda criança, está Moreno Veloso, filho de Caetano:
“...ah, but I was so much older then / I'm younger than that now...”
O curioso verso de Bob Dylan sobre “rejuvenescimento” está incluído em “My Back Pages”, faixa de Another Side of Bob Dylan, lançado pelo bardo americano em 1964. E também foi citado no encarte de O Descobrimento do Brasil [1993], penúltimo álbum da Legião Urbana.
O fato já foi mencionado publicamente inúmeras vezes tanto por Roberto quanto por Erasmo Carlos. Quando um dos faz aniversário, o aniversariante telefona para o outro e diz:
— Bicho, você pode ligar para cá e o telefone estar sempre ocupado. Ou acontecer de eu ter saído. Então, estou ligando só para você me dar os parabéns....
Há um detalhe raramente observado — e, consequentemente, pouco comentado — na belíssima “Woman”, na qual John Lennon homenageou sua esposa, Yoko Ono — e, por tabela, as demais mulheres do planeta.
Na introdução da faixa — mais precisamente em 0:03 do vídeo abaixo —, o ex-beatle sussurra a “dedicatória”: “For the other half of the sky” (“Para a outra metade do céu...”). Esta frase nada mais é do que um antigo provérbio chinês, utilizado certa vez pelo ditador Mao-Tse-tung. E traduz o quão... hum, celestial Lennon considerava Yoko e suas congêneres.
Em sua última entrevista, concedida à *Rolling Stone americana em 05 de dezembro de 1980 — três dias antes de seu assassinato — e publicada na edição de janeiro da revista, Lennon classificou “Woman” como a “versão adulta” de “Girl”, pérola de Rubber Soul, que os Fab Four editaram em 1965. A canção foi lançada no (bom) álbum Double Fantasy [1980], seu derradeiro trabalho.
* Na famosa — e ousada — foto de Annie Leibovitz que ilustrou a capa da Rolling Stone de janeiro de 1981 [no detalhe], Lennon aparece nu, em posição fetal, simbolizando a sua “fragilidade” diante de Yoko Ono, a quem chamava de... “mãe” (!). O conceito da foto foi idealizado pelo músico. Sincera, a fotógrafa tentou argumentar que “as pessoas não querem ver Yoko na capa”. John, contudo, fez prevalecer a sua decisão.
Veja o vídeo de “Woman”. Na letra de rara sensibilidade, Lennon não se constrange em reconhecer a “criancinha” que “existe dentro do homem”:
“As mulheres realmente são ‘a outra metade do céu’, como eu sussurro no início da música. Para elas, é ‘nós’ ou... nada.”
(John Lennon, dezembro de 1980. No detalhe, a capa de Double Fantasy [1980], último álbum do ex-beatle — no qual está contida “Woman”, canção citada pelo músico na declaração acima)
Com seu jeitão gospel e belas imagens, “Let Your Soul Be Your Pilot” — do álbum Mercury Falling [1996] — é uma das mais interessantes letras já escritas por Sting [foto]. Um ouvinte menos atento pode classificá-la como uma mera mensagem de incentivo, de encorajamento a alguém que está desnorteado (“se a bússola gira / para nenhum lugar que você conheça bem...”)
Entretanto, bem ao estilo do ex-Police — ou seja, longe de qualquer obviedade —, trata-se, na verdade, de uma canção... romântica. A explicação está nos versos:
“Deixe que a sua dor seja o meu sofrimento
Deixe que as suas lágrimas sejam minhas também...”
Afinal, que prova de amor pode ser mais eloquente do que assumir a dor da pessoa amada — para que esta não sofra?