sexta-feira, outubro 04, 2013

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Oração de São Francisco’, com Fagner



Embora a sua autoria seja frequentemente atribuída ao próprio santo, a Oração de São Francisco de Assis — também conhecida como Oração da Paz — apareceu pela primeira vez em um boletim espiritual em Paris, em 1912. O autor é desconhecido.

Quatro anos depois, foi impressa em Roma, em uma folha em cujo verso aparecia a imagem de Francisco. Considerando que a oração, de fato, reflete com fidelidade os ideais franciscanos, é fácil compreender o motivo da associação.

Fundador da Ordem dos Frades Menores — também chamada como Franciscanos —, São Francisco é tido por muitos como a segunda figura mais importante do Cristianismo. Pelo seu apreço à natureza, passou a ser considerado o patrono dos animais e do meio ambiente. Seu dia comemora-se precisamente hoje, 04 de outubro.


***


Em seu álbum O Quinze, de 1989, Raimundo Fagner gravou uma (boa) versão para a oração, que foi musicada em 1968 pelo padre paraguaio Casimiro Irala.




Veja o vídeo da versão de Fagner para “Oração de São Francisco”, gravado durante uma apresentação do cantor no Teatro Guaíra, em Curitiba, em dezembro de 2012:

terça-feira, setembro 24, 2013

Em ‘The Last Ship’, Sting ‘navega’ distante do pop


CD
The Last Ship (Cherrytree/Interscope/A&M Records)
2013


Ex-Police edita o seu primeiro álbum de inéditas em uma década

Nos últimos dez anos, até que Sting trabalhou um bocado. Em 2004, lançou a sua (excelente) autobiografia, Fora do Tom, e rodou o mundo até o ano seguinte com a turnê batizada com o nome do livro (Broken Music). Em 2006, na companhia do músico bósnio Edin Karamazov, editou Songs From The Labyrinth, o disco de alaúde mais vendido de todos os tempos. Entre 2007 e 2008, realizou uma (surpreendente) turnê mundial ao lado do Police, que acabou gerando CD/DVD/Blu-ray ao vivo, Certifiable. Já em 2009, deixou a barba crescer e lançou o belo e introspectivo If On a Winter's Night..., composto apenas  por canções invernais. Por fim, em 2010, acompanhado por uma orquestra sinfônica, releu o seu cancioneiro em Symphonicities, que também gerou o audiovisual ao vivo Live In Berlin. Entretanto, apenas de tanta labuta, o fato é que o último disco de inéditas do baixista — o bom Sacred Love — chegou às prateleiras em 2003. Há exatos... dez anos (!).

Rompendo o silêncio autoral, Sting — após um processo criativo que lhe rendeu quase três anos (!) de “imersão” — ressurge com The Last Ship, lançado mundialmente hoje, 24 de outubro de 2013. O trabalho, na verdade, é a trilha sonora do musical homônimo, que marcará a sua estreia na Broadway. O tema do espetáculo é a derrocada da indústria naval de Newcastle, sua cidade natal, situada ao norte da Inglaterra, ocorrida na década de 1980. E, embora a peça só entre em cartaz em 2014, o músico, com astúcia, lançou o disco um ano antes, para que o público se “familiarizasse” com as canções — a maior parte delas, de uma forma ou de outra, fala sobre rios, marés, barcos e quetais.

Ambicioso, o álbum está disponível em quatro formatos: CD simples, vinil — ambos com 12 faixas — e CD duplo com 17 ou 20 músicas.



Nenhum sinal do autor de ‘If I Ever Lose My Faith In You’ 

Primeiramente, é essencial frisar que, em The Last Ship, não há o mais remoto vestígio do pop de “If I Ever Lose My Faith In You” ou “Every Breath You Take”. Sendo assim, é recomendável que aqueles que procuram essa faceta do artista mantenham distância segura deste trabalho. O Sting que se faz presente se assemelha, na verdade, ao autor das bucólicas “Fields Of Gold” [1993] e “The Ghost Story” [1999].

Musicalmente, contudo, o disco é bem variado. A épica faixa-título, que abre os trabalhos, apresenta clara influência celta, com direito, inclusive, a gaita de fole — e o instrumento, por sinal, volta a aparecer em “Ballad Of Great Eastern” e na também celta “What Have We Got?”, dueto com o ator-cantor inglês Jimmy Nail. Curiosamente, em vários momentos do álbum, Sting, pela primeira vez em toda a sua discografia, evoca o sotaque típico de Newcastle — o chamado Novocastrian.

No quesito letra, o compositor continua afiado. O acalanto “August Winds”, estruturado em um violão de nylon, remete aos questionamentos dos versos de “Shape Of My Heart” [1993] — inclusive, volta a falar em “máscara”. Já a valsa (!) “The Night The Pugilist Learned How To Dance” é de cortar o coração: conta a estória de um jovem pugilista de 15 anos — com seu “nariz quebrado” e “orelha de couve-flor” — que decide aprender a dançar para conquistar a sua amada. Cole Porter provavelmente aprovaria.

Outro grande momento é a delicada-porém-impactante “I Love Her But She Loves Someone Else”, em que o eu-lírico é um homem de idade avançada que, confrontado com a perspectiva de sua “mortalidade”, relembra o passado e seus revezes. E conclui: “Esqueci o primeiro mandamento do manual do realista: ‘Não se deixe enganar por ilusões que você mesmo criou’...”.



Do início ao fim, alto nível lírico e musical

A primeira faixa de trabalho foi a minimalista “Practical Arrangement”, possivelmente uma das menos óbvias letras românticas já escritas no cancioneiro popular mundial. Já o segundo single de trabalho é a (espirituosa) bossa nova “And Yet”, que conta com discretas (e precisas) intervenções de seu fiel escudeiro, o guitarrista Dominic Miller. Trata-se da melhor música do disco.

Ainda que um tanto hermético, o trabalho mantém, do início ao fim, alto nível lírico e musical. E reafirma que, artisticamente, o único “compromisso” do ex-Police, prestes a completar 62 anos de idade — e ainda com a voz “em dia” — é consigo próprio. Vale lembrar, no entanto, que The Last Ship é uma trilha sonora. Portanto, seria agradável ouvir, depois de tanto tempo, um disco com canções de Sting que não estivessem “vinculadas” a uma determinada temática.



Leia também:




Veja o vídeo da bossa nova “And Yet”, segundo single de The Last Ship, extraído do programa Later... with Jools Holland...





...e também da magnífica valsa (!) “The Night The Pugilist Learned How To Dance”, em vídeo extraído do programa Le Grand Studio, da TV francesa RTL:


Sting, de 2003 a 2013: índice remissivo



Sobre Sacred Love [2003], o último trabalho de inéditas de Sting, escrevi aqui. Sobre Fora do Tom, a excelente autobiografia do cantor, aqui. Para ler sobre Songs from the Labyrinth, álbum de alaúde gravado ao lado do músico bósnio Edin Karamazov, basta clicar aqui

A matéria sobre o histórico show do Police no Estádio do Maracanã encontra-se aqui. Já a análise de If Only a Winter's Night..., disco de “canções de inverno” lançado em 2009, está aqui. E, por fim, a resenha do CD Symphonicities, gravado com o acompanhamento de uma orquestra sinfônica pode ser lida aqui.

Da série ‘Frases’: Nelson Rodrigues

Tenho inveja da burrice porque ela é como a Pedra da Gávea: eterna”.

Do (sempre genial) dramaturgo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues (1912 — 1980).



sábado, agosto 31, 2013

‘New’: a música nova de Paul McCartney


Desde quinta-feira, 29 de agosto, está disponível nas rádios e nos iTunes a faixa-título do novo disco de inéditas de Sir Paul McCartney, o primeiro desde Memory Almost Full, 2006. 

Típico fruto pop do mais melodioso dos Beatles, “New” apresenta cadência que evoca “Penny Lane”, lançada pelo quarteto de Liverpool, em compacto, em 1967. As harmonias vocais, entretanto, remetem de imediato a Pet Sounds, clássico dos Beach Boys. 

Produzido por Mark Ronson, New [na foto, a capa], o álbum, será lançado mundialmente no dia 14 de outubro.



Ouça “New:


Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Jenny Wren’, de Paul McCartney



Carriça [foto] é um minúsculo pássaro comum em toda a Europa e América do Norte, assim como em algumas regiões da Ásia. Não é encontrável no Brasil. Em inglês, tem um nome que parece de menina: Jenny Wren.

Observando essa semelhança, Paul McCartney compôs uma canção com esse título, lançada no excelente Chaos And Creation In The Backyard, de 2005. Delicada balada dedilhada ao violão — contando apenas com uma discreta intervenção de violoncelo —, “Jenny Wren” alude instantaneamente à magistral “Blackbird”*, lançada pelos Beatles no chamado Álbum Branco, de 1968.

A letra, naturalmente, não desperdiça a metáfora: “Como várias garotas / Jenny Wren sabia cantar...”



* Vale lembrar que os versos de “Blackbird” — inspirada nos movimentos pelos Direitos Civis nos Estados Unidos da década de 1960, como os Panteras Negras e o Black Power — também trazem uma mensagem cifrada. Ou seja, o melro da letra é, na verdade... uma mulher negra.




Veja o vídeo de “Jenny Wren:

Da série ‘Frases’: Pilar del Río

O que me parece é que a razão tem que mandar sobre a vontade. Isto parece a coisa mais fria e mais forte que se pode dizer. Mas creio que somos racionais e temos a obrigação de ser racionais. E de não nos deixarmos levar, jamais, pelo instinto.”


Da jornalista e tradutora literária Pilar del Río — viúva de José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998 —, no (ótimo) documentário José e Pilar [2010], de Miguel Gonçalves Mendes. 


sábado, agosto 24, 2013

Jefferson Gonçalves faz o rio Mississipi desaguar no sertão



CD/DVD
Encruzilhada — Ao Vivo (independente)
2013


O gaitista carioca dá continuidade à sua mistura de blues com ritmos regionais brasileiros


Dois anos após o seu mais recente trabalho, Encruzilhada, Jefferson Gonçalves reaparece com um novo álbum. Lançado de maneira independente, Encruzilhada — Ao Vivo, gravado no Centro Municipal de Referência da Música Carioca Artur da Távola, chega às prateleiras em um caprichado box contendo CD e DVD.

No repertório, composições autorais de Jefferson, como “Ar Puro”, “Teto Preto” e “Café Expresso”, que dão continuidade à instigante mistura de blues com ritmos regionais brasileiros, como o xote e o baião.

Entretanto, o músico não deixa de incluir sons do delta do Mississipi, como “CatFish Blues”, de Muddy Waters, e “Mellow Down Easy”, de Willie Dixon, além do clássico “All Along The Watchtower”, de Bob Dylan, imortalizado na versão de Jimi Hendrix. Destaque também para “Crossroads”, daquele é considerado “o papa” do gênero, Robert Johnson, em uma clara alusão ao título do álbum.

Com 23 anos de carreira, Jefferson Gonçalves mostra, em Encruzilhada — Ao Vivo, toda a originalidade da música instrumental brasileira. Vale a conferida.

Da série ‘Frases’: Caio Fernando Abreu

Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é Maya/ilusão. Ou Samsara/círculo vicioso.”


Trecho da “Carta ao Zézim”, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948 — 1996). Embora tenha sido escrita em 1979, só veio a ser publicada (postumamente) em 2002, no livro Caio Fernando Abreu: Cartas, organizado por Ítalo Moriconi.



sexta-feira, julho 26, 2013

Mick Jagger: 70 anos



Embora tenha declarado, na década de 1970, que preferiria “estar morto do que cantar ‘(I Can't Get No) Satisfaction’ aos 45 anos”, eis que Sir Mick Jagger (felizmente) continua cantando a canção mais emblemática de sua banda, mesmo aos 70 anos (!) de idade — que está completando no dia de hoje.

Sem mais delongas — visto que, a esta altura, tudo já foi dito sobre o líder dos Rolling Stones —, relembremos alguns momentos marcantes dos 50 anos de carreira do “homem-dos-lábios-de-borracha”.




Seria uma obviedade sem tamanho falarmos sobre a supracitada “Satisfaction”. Portanto,  optemos por outra faixa fundamental dos Stones: a demolidora “Jumpin' Jack Flash”, lançada em single em 1968. O vídeo abaixo foi gravado no histórico show realizado da praia de Copacabana em fevereiro de 2006. E este que vos fala estava lá:





Em 1978, no auge do movimento punk, os Rolling Stones “flertaram” com a disco music em “Miss You”, do álbum Some Girls, que tornou-se um clássico instantâneo do grupo:





Em 1981, após um disco “meia boca” — Emotional Rescue, lançado no ano anterior —, Jagger & cia. reviraram o seu “baú” em busca de demo inacabadas. Daí surgiu uma canção que, desde então, não pôde mais estar ausente do roteiro das apresentações da banda: “Start Me Up:






Ainda que tenha lançado quatro discos solo — dos quais podemos pinçar faixas interessantes aqui e ali —, o fato é que Jagger não obteve sozinho, nem de longe, o sucesso que logrou ao lado do grupo. Destaque para “Just Another Night”, de seu primeiro álbum solo, She's The Boss [1985], que traz a participação de Jeff Beck e da dupla Sly & Robbie:





Uma das duas faixas inéditas da compilação Grrrrr, lançada em 2012 — a outra é “One More Shot” —, a caótica (e irresistível) “Doom And Gloom” simplesmente “coloca no bolso” 95% das bandas de rock da atualidade. E mostra que os Rolling Stones, digamos assim, “ainda dão no couro”: