sexta-feira, dezembro 26, 2014

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Vai Passar’, de Chico Buarque



“(...) E pode despertar o interesse do mercado internacional de rock para o autor de ‘Vai Passar’...”




Analisando nos dias de hoje, não deixa de ser irônico lembrar que Chico Buarque finalizou o seu álbum epônimo de 1984 [no detalhe, a capa] com o samba “Vai Passar”, que trazia os seguintes versos:


Dormia a nossa pátria, mãe tão distraída,
sem perceber que era subtraída
em tenebrosas transações...”



sexta-feira, dezembro 12, 2014

Sérgio Vid ousa ao reler Chico em roupagem roqueira e com letras em inglês


CD 
Rock ‘N’ Chico (independente)
2015 
(Foto: Elias Nogueira)


Ao longo dos anos, a obra de Chico Buarque já foi relida inúmeras vezes, e pelos artistas das mais diversas vertentes. Mas, sem sombra de dúvida, nunca de maneira tão inusitada quanto no projeto Rock ‘N’ Chico — que levou sete anos até ver a luz do dia —, de Sérgio Vid, uma das melhores vozes da cena carioca dos anos 1980.

A idéia de Vid, ex-Sangue da Cidade — do sucesso “Brilhar a Minha Estrela (“Dá Mais Um)” — sobressaiu em relação a todas as abordagens anteriores das canções de Chico: regravá-las com uma roupagem roqueira. E com todas as letras vertidas para inglês (!).

O resultado é simplesmente estupendo. Produzido pelo tecladista PH Castanheira, o álbum apresenta excelente padrão sonoro. Dono de um inglês impecável, Vid continua com o vocal em plena forma. E respeitou a temática das letras de todas as dez faixas do álbum, lançadas entre 1968 e 1989. 

Apesar de não possuir resquício algum de samba em seu arranjo, “If You Know Who You Are (Partido Alto)”, que abre a bolacha, consegue conservar a malandragem da gravação original. Já a pungente “I Forgive You (Mil Perdões)” manteve a sua carga emocional preservada. Outro grande momento é a etérea “Two Brothers’s Hill (Morro Dois Irmãos)”, que finaliza o disco. Todavia, o destaque inconteste é “Women Of Athens”, épica versão de “Mulheres de Atenas”, cuja sonoridade lembra as grandiloquentes baladas do Led Zeppelin.

Fã ardoroso de Chico, Sérgio Vid revelou que o compositor — que, todos sabem, sempre foi admirador dos gêneros mais tradicionais da música brasileira — “adorou” o projeto. Não é para menos: independentemente da ousadia, Rock ‘N’ Chico, com lançamento previsto para janeiro de 2015, é um trabalho de alto nível. E pode despertar o interesse do mercado internacional de rock para o autor de “Vai Passar”.



Ouça a versão de Sérgio Vid para “Mulheres de Atenas:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Brilhar a Minha Estrela’, do Sangue da Cidade



(...) Vid, ex-Sangue da Cidade — do sucesso ‘Brilhar a Minha Estrela (Dá Mais Um)’...”




Em 1982, a quinta formação da banda Sangue da Cidade — já com o vocalista Sérgio Vid — gravou uma faixa que, antes mesmo de ter sido lançada comercialmente, se destacou na programação da lendária Rádio Fluminense FM, a “Maldita”. Era o matador “reggae de branco” — gênero popularizado mundialmente pelo Police a partir de seu primeiro álbum, Reggatta De Blanc [1979] — “Brilhar a Minha Estrela (Dá Mais Um)”, composição do guitarrista DiCastro.

Pouco tempo depois, a Warner convidou o grupo para participar de um “pau-de-sebo” — coletânea de vários artistas iniciantes — chamado “Rock Voador”, do qual também participaram nomes como Kid Abelha e o saudoso Celso Blues Boy, entre outros. Naquele mesmo ano, a empresa propôs a gravação de um compacto com a canção.

Decorridos 32 anos, “Brilhar a Minha Estrela” não datou. O vocal de Vid e a guitarra de DiCastro soam como se não tivesse transcorrido tanto tempo. Prova disso foi a inclusão da faixa na trilha sonora de Tropa de Elite I [2007], de José Padilha.



Ouça “Brilhar a Minha Estrela (Dá Mais Um)”, do Sangue da Cidade:

Da série ‘Fotos’: Antonio Carlos Jobim



Rua Nascimento Silva, 107...”


O primeiro verso de “Carta ao Tom ‘74”, de Toquinho e Vinícius de Moraes, menciona o antigo endereço de Antonio Carlos Jobim, no bairro de Ipanema — o qual não pude deixar de fotografar na última vez em que passei pelo local. 

Jobim nos deixou há exatos vinte anos — faleceu no dia 08 de dezembro de 1994, em Nova York. Mas não é clichê afirmar que as suas canções — que, a bem da verdade, o Brasil ainda não descobriu em sua totalidade — nos acompanharão para sempre. 

Afinal, ele mesmo cantou: “Longa é a arte / tão breve é a vida...

terça-feira, dezembro 02, 2014

‘The Art Of McCartney’, digna homenagem a uma obra imorredoura



CD duplo
The Art Of McCartney (Sony Music)
2014


Um álbum-tributo a Paul McCartney, uma das figuras mais importantes da música popular de todos os tempos, não poderia fazer por menos: precisa estar à altura do homenageado. Esta é a (árdua) tarefa do ambicioso CD duplo The Art Of McCartney, que apresenta regravações de 34 canções de (quase) todas as fases da carreira do ex-beatle — a mais “recente” é “No More Lonely Nights”, que está completando exatos trinta anos em 2014, presente em uma boa versão do The Airbourne Toxic Event.

Dentre os 31 artistas — três deles, Steve Miller, Billy Joel e o grupo Heart, ao contrário dos demais, regravaram duas músicas —, os melhores resultados foram alcançados por aqueles que souberam imprimir a própria “assinatura” nas canções de McCartney. É o caso do eterno beach boy Brian Wilson, que emociona em “Wanderlust”, de Tug Of War [1982], e de Willie Nelson, que, com uma interpretação sentida, transformou “Yesterday”, a faixa mais executada e regravada do mundo, em uma música... sua. O mesmo vale para Corinne Bailey Rae, que tratou “Bluebird”, de Band On The Run [1973], com a delicadeza necessária, e para a lenda viva B. B. King, visceral no obscuro blues “On The Way”, de McCartney II [1980].

Um dos trunfos do projeto é mostrar a versatilidade do autor, capaz de compor canções que soam naturais nas vozes de artistas de estilos tão distintos quanto o vocalista do The Who, Roger Daltrey (que deu conta do recado na bombástica “Helter Skelter”), o veterano Allen Toussaint (“Lady Madonna”) e o garoto-prodígio do jazz Jamie Cullum (absolutamente confortável em “Every Night”).

Contudo, nem tudo são acertos. Chrissie Hynde, vocalista do Pretenders, foi apenas OK em sua releitura de “Let It Be”. Nada comparável à arrasadora versão de James Taylor e Mavis Staple, que quase levou às lágrimas o próprio Macca, em 2010. Já a Harry Connick Jr. Foi boa: aproximar a bela “My Love” de um standard à La Sinatra. Falta-lhe, no entanto, um “pequeno” detalhe: uma voz como a dos Velhos Olhos Azuis. E Cat Stevens, que hoje atende pelo nome de Yusuf, não teve como competir com a magnífica versão original de “The Long And Winding Road”.

Por fim, se alguns figurões como Bob Dylan (mais rouco do que nunca em “Things We Said Today”) e Smokey Robinson (“So Bad”) marcaram presença, não há como não lamentar a ausência de outros que já colaboraram com Paul em algum momento de suas carreiras — como Stevie Wonder, Elvis Costello, Eric Clapton e Dave Grohl (Foo Fighters), entre outras. Todavia, as lacunas não invalidam The Art Of McCartney, digna homenagem a uma obra imorredoura, monumental. Tanto que, pasmem, ficaram de fora gemas como “Here There And Everywhere”, “And I Love Her”, “Another Day”, “Blackbird”, “Ebony And Ivory”, “Get Back”, “Penny Lane”...




Ouça “Bluebird”, na voz de Corinne Bailey Rae:





Ouça “Wanderlust”, na voz de Brian Wilson:

sábado, novembro 22, 2014

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Panamericana’, de Lobão



Parceria sua com o baixista Arnaldo Brandão (ex-A Outra Banda da Terra e Hanoi Hanoi) e o poeta Tavinho Paes, “Panamericana” abre o sexto álbum de estúdio de Lobão, Sob o Sol de Parador, editado em 1989 [no detalhe, a capa].

Na ocasião de seu lançamento, o cantor explicou:

— “Panamericana” fala sobre uma hipotética “República das Bananas” — no caso, Parador —, com 19 perguntas e nenhuma resposta.

De fato, a incisiva letra faz um resumo da (triste) história política da América Latina, enumerando vários de seus movimentos armados: os uruguaios Tupamaros, os argentinos Montoneros, o peruano Sendero Luminoso e os colombianos do 19 de abril (M-19), entre outros. A citação da famosa frase do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, no refrão (“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”), evidentemente, foi pura ironia...

A síntese de “Panamericana” pode ser encontrada no segundo verso da canção, que questiona a fragilidade das instituições democráticas do continente: “O que é democracia ao sul do Equador?

Curiosidade: as também mencionadas Mães da Praça de Maio, do Chile, haviam sido homenageadas, dois anos antes, pelo U2, em “Mothers Of The Disappeared”, (de The Joshua Tree) e por Sting, em “They Dance Alone” (de ...Nothing Like The Sun).




Da série ‘Frases’: Winston Churchill


A democracia é o pior dos regimes — com exceção de todos os outros”.


Do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874 — 1965).



sábado, novembro 08, 2014

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Perfeição’, da Legião Urbana



Com todo respeito a Ary Barroso e a sua imorredoura “Aquarela do Brasil” — merecidamente considerada o “hino extra-oficial brasileiro” —, provavelmente nenhuma outra canção foi capaz de retratar o País (com o perdão da redundância) de modo tão perfeito do que “Perfeição”, da Legião Urbana.

Em sua letra discursiva, com clara influência do rap — Renato Russo revelou que o groove da faixa foi trazido ao estúdio pelo baterista Marcelo Bonfá em uma fita K7 —, nada escapa aos olhos de águia do líder da banda. A “estupidez do povo”, que, “a cada fevereiro e feriado” comemora “como idiotas”, sem necessariamente ter motivos para tal. A “violência” (“O meu país e sua corja de assassinos covardes / estupradores e ladrões”). A “desunião” da população. O “descaso por educação”. O estado deplorável da saúde pública (“Os mortos por falta de hospitais”). A crueldade da Previdência Social brasileira (“...a nossa gente / que trabalhou honestamente a vida inteira / e agora não tem mais direito a nada”). 

Também apontou problemas estruturais (“a água podre”), sociais (“a fome”), ambientais (“queimadas”) e as mazelas inerentes à natureza humana (a “hipocrisia”, a “inveja”, a “indiferença” e as “mentiras”). E, embora tenha lembrado que, apesar de tudo, existe algum patriotismo (“Vamos cantar juntos o Hino Nacional / a lágrima é verdadeira”), não poupou de crítica sequer... a si próprio (“Também podemos celebrar / a estupidez de quem cantou essa canção”).

Outro trecho digno de registro: “Vamos celebrar nossa bandeira”. Entre os “absurdos gloriosos” do passado a que o autor se refere, certamente se encontra a própria Proclamação da República — na verdade, um golpe militar. E vale frisar que, naquele momento, a família Real não apenas foi apeada do poder, como também banida do Brasil para sempre, além de ter todos os seus bens confiscados e, posteriormente, leiloados. Ou seja, naquele momento, o País saiu de um regime absolutista (a Monarquia) para ser governado por dois ditadores (os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto). E, a cada ano, a data é feriado nacional...

“Perfeição” foi lançada em 1993. Portanto, é um desalento constatar que, decorridos 21 anos, seus versos continuam tristemente atuais. E que, para nos tornarmos, de fato, uma nação, ainda há muito, muito a ser realizado.

A evocação aos mitos gregos também não foi gratuita: a menção a Eros e Thanatos (o Amor e a Morte) trata-se de uma menção velada à sua condição de soropositivo. E Perséfone e Hades representam, no caso, a chamada “síndrome de Estocolmo” — o estranho e inexplicável apego por alguém que lhe fez/faz mal. 

Já nas duas estrofes finais da canção — que citam a melodia de “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada na voz de Elis Regina —, o cantor nos deixa uma mensagem de esperança (“Nosso futuro recomeça”). E exalta a verdade (“Só a verdade liberta / chega de maldade e ilusão”), remetendo-nos imediatamente ao Evangelho de João (8:32): “Conhecereis a verdade. E a verdade vos libertará”.

Parceria dos supracitados Russo e Bonfá com o guitarrista Dado Villa-Lobos, “Perfeição”, eterna obra-prima do rock nacional, integra o álbum O Descobrimento do Brasil [no detalhe, a capa], sexto e antepenúltimo álbum de estúdio da Legião Urbana. 




Veja o vídeo de “Perfeição:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Somos Todos Iguais nesta Noite’, de Ivan Lins



Faixa-título do sexto álbum de Ivan Lins, editado em 1977, “Somos Todos Iguais nesta Noite” traz uma série de mensagens subliminares referentes ao contexto político da época em que foi lançada — no caso, o governo do general Ernesto Geisel. Curiosamente, embora tenha sido o período do regime militar que marcou o início da abertura política, também foi quando ocorreu o caso Vladimir Herzog.

Escrita por Vitor Martins, parceiro mais constante de Ivan, a (capciosa) letra deixa claro, em linhas gerais, que, “no ensaio diário de um drama”, sempre resta à população... o “papel de palhaço” (“Olha nós outra vez no picadeiro...”).

Um dos aspectos mais interessantes, contudo, é justamente... o título da canção. Não importa região, etnia ou mesmo classe social: ninguém fica imune a uma governança equivocada. Ninguém. Portanto, somos todos iguais nesta “noite” — ou seja, no “breu” que temos que atravessar...

E, sendo assim, “vamos dançar mais uma vez...”



Ouça “Somos Todos Iguais nesta Noite:





Da série ‘Frases’: Victor Hugo


Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa”.


Do poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista francês Victor Hugo (1802 — 1885).