domingo, janeiro 04, 2015

Sting: Prêmio Kennedy 2014



No dia 07 de dezembro — somente agora os vídeos foram disponibilizados na web —, Sting foi um dos agraciados com o Prêmio Kennedy 2014 pelo conjunto de sua obra. 

Nada mais justo: gostem alguns ou não, trata-se de um dos mais brilhantes compositores populares do século XX, autor de pérolas como “Every Breath You Take”, “Fields Of Gold” e “Roxanne”, entre outras. Bom melodista e exímio letrista, não ganhou 16 Grammy Awards à toa.

Como de praxe, algumas canções do homenageado foram interpretadas por outros artistas em um pocket show, que sempre conta com a presença do presidente dos Estados Unidos e sua primeira dama. Os demais laureados dessa edição foram o ator Tom Hanks, a comediante Lily Tomlin, a bailarina Patricia McBride e o “reverendo” da soul music Al Green.



Lady GaGa — que, certa vez, em pleno palco, classificou Sting como “uma de suas pessoas favoritas no mundo” — abriu os trabalhos. Acompanhada por uma banda afiada, cantou a suingada “If I Ever Lose My Faith In You”. E nem mesmo os exageros vocais da cantora comprometeram a sua (boa) releitura:




Em seguida, Esperanza Spalding e Herbie Hancock tocaram “Fragile”, uma das canções de Sting com notável influência da sonoridade brasileira:




Na sequência, Bruce “O Cara” Springsteen retribuiu a (excelente) participação de Sting no Prêmio Kennedy de 2009, quando foi um dos homenageados. E simplesmente “quebrou tudo” em uma versão antológica do country “I Hung My Head”. Em um determinado momento, o autor, no camarote, fechou os olhos tentar para conter a emoção. Após um lancinante solo de guitarra de “The Boss”, um coral gospel adentra o palco, coroando uma performance para ver e rever várias e várias vezes:




O grand finale ficou sob a responsabilidade de Bruno Mars — o mesmo que, na cerimônia do Grammy de 2013 conseguiu a façanha de colocar Sting para cantar uma canção sua (!). E o jovem não fez feio no medley que reuniu dois dos maiores sucessos do Police: “So Lonely” e “Message In A Bottle”. É bem verdade que Sting assistiu a apresentação inteira com os olhos marejados. Mas o momento de maior emoção para o baixista foi quando, para sua surpresa, todo o elenco de The Last Ship, seu primeiro musical na Broadway, entrou em cena para o encerramento:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘I Hung My Head’, de Sting


No DVD Live In Berlin [2010], Sting revelou que o seu apreço de infância por seriados western como Bonanza fez com que se aproximasse da música country. Anos mais tarde, quando começou a compor, era natural eventualmente querer escrever canções inspiradas no gênero, como “This Cowboy Song” [1994]. Contudo, o fato de ser inglês sempre o deixou tímido para enveredar por um estilo musical tradicionalmente americano.

Até que, um dia, o lendário Johnny Cash regravou a sua “I Hung My Head” — o que foi recebido por Sting como uma espécie de “aval”.

Faixa do quinto álbum solo de estúdio do ex-Police, Mercury Falling [no detalhe, a capa], de 1996, trata-se de uma de suas letras mais instigantes, embora pouco conhecida: no raiar do dia, um camponês pega emprestado o rifle de amigo e sai para caminhar. Ao avistar um cavaleiro que passava ao longe, apontou em sua direção para treinar a própria mira. Subitamente, a arma lhe escapa das mãos e dispara sozinha, ferindo mortalmente a vítima. Julgado diante da população da pequena cidade, o atirador mostra-se arrependido e implora o perdão da viúva e dos filhos do cavaleiro. Mas não escapa da punição: a guilhotina.

A canção também foi interpretada de modo magistral por Bruce Springteen na cerimônia na qual Sting recebeu o Prêmio Kennedy 2014




Ouça a versão de Johnny Cash, lançada no surpreendente American IV: The Man Comes Around, de 2002:




E veja o vídeo com a versão do autor, extraído do supracitado DVD Live In Berlin:

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Kanye West e Paul McCartney lançam novo single


Em agosto de 2014, surgiram rumores de que Paul McCartney e Kanye West estariam em estúdio trabalhando juntos em “algumas faixas” que poderiam vir a ser lançadas em um álbum. Procurada pela imprensa, a assessoria do ex-Beatle não confirmou nem desmentiu: “Sem comentários”.

Nas primeiras luzes de 2015, os indícios se confirmaram: o rapper americano surpreende e lança o single Only One [no detalhe, a capa], que traz, no órgão e nos backing vocais, a participação (mais do que) especial justamente de... McCartney (!).

Já se sabe que a (suave) canção integrará o novo CD de West, ainda sem título — o primeiro desde 2009 —, que chegará às prateleiras ainda este ano. 



Veja o vídeo oficial de “Only One:


quarta-feira, dezembro 31, 2014

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Almost Home’, de Moby



Um ano após a tocante “The Perfect Life” ter se tornado o tema da menina autista interpretada brilhantemente por Bruna Linzmayer em Amor à Vida, Moby emplacou mais uma no horário nobre global. 

A bela “Almost Home” — com participação do cantor indie Damien Jurado nos vocais — integra a trilha sonora de Império, atual novela das nove.

Por sinal, o álbum que abriga as duas canções, Innocents, de 2013 [no detalhe, a capa], vale a audição.



Veja o vídeo de “Almost Home:

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Vai Passar’, de Chico Buarque



“(...) E pode despertar o interesse do mercado internacional de rock para o autor de ‘Vai Passar’...”




Analisando nos dias de hoje, não deixa de ser irônico lembrar que Chico Buarque finalizou o seu álbum epônimo de 1984 [no detalhe, a capa] com o samba “Vai Passar”, que trazia os seguintes versos:


Dormia a nossa pátria, mãe tão distraída,
sem perceber que era subtraída
em tenebrosas transações...”



sexta-feira, dezembro 12, 2014

Sérgio Vid ousa ao reler Chico em roupagem roqueira e com letras em inglês


CD 
Rock ‘N’ Chico (independente)
2015 
(Foto: Elias Nogueira)


Ao longo dos anos, a obra de Chico Buarque já foi relida inúmeras vezes, e pelos artistas das mais diversas vertentes. Mas, sem sombra de dúvida, nunca de maneira tão inusitada quanto no projeto Rock ‘N’ Chico — que levou sete anos até ver a luz do dia —, de Sérgio Vid, uma das melhores vozes da cena carioca dos anos 1980.

A idéia de Vid, ex-Sangue da Cidade — do sucesso “Brilhar a Minha Estrela (“Dá Mais Um)” — sobressaiu em relação a todas as abordagens anteriores das canções de Chico: regravá-las com uma roupagem roqueira. E com todas as letras vertidas para inglês (!).

O resultado é simplesmente estupendo. Produzido pelo tecladista PH Castanheira, o álbum apresenta excelente padrão sonoro. Dono de um inglês impecável, Vid continua com o vocal em plena forma. E respeitou a temática das letras de todas as dez faixas do álbum, lançadas entre 1968 e 1989. 

Apesar de não possuir resquício algum de samba em seu arranjo, “If You Know Who You Are (Partido Alto)”, que abre a bolacha, consegue conservar a malandragem da gravação original. Já a pungente “I Forgive You (Mil Perdões)” manteve a sua carga emocional preservada. Outro grande momento é a etérea “Two Brothers’s Hill (Morro Dois Irmãos)”, que finaliza o disco. Todavia, o destaque inconteste é “Women Of Athens”, épica versão de “Mulheres de Atenas”, cuja sonoridade lembra as grandiloquentes baladas do Led Zeppelin.

Fã ardoroso de Chico, Sérgio Vid revelou que o compositor — que, todos sabem, sempre foi admirador dos gêneros mais tradicionais da música brasileira — “adorou” o projeto. Não é para menos: independentemente da ousadia, Rock ‘N’ Chico, com lançamento previsto para janeiro de 2015, é um trabalho de alto nível. E pode despertar o interesse do mercado internacional de rock para o autor de “Vai Passar”.



Ouça a versão de Sérgio Vid para “Mulheres de Atenas:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Brilhar a Minha Estrela’, do Sangue da Cidade



(...) Vid, ex-Sangue da Cidade — do sucesso ‘Brilhar a Minha Estrela (Dá Mais Um)’...”




Em 1982, a quinta formação da banda Sangue da Cidade — já com o vocalista Sérgio Vid — gravou uma faixa que, antes mesmo de ter sido lançada comercialmente, se destacou na programação da lendária Rádio Fluminense FM, a “Maldita”. Era o matador “reggae de branco” — gênero popularizado mundialmente pelo Police a partir de seu primeiro álbum, Reggatta De Blanc [1979] — “Brilhar a Minha Estrela (Dá Mais Um)”, composição do guitarrista DiCastro.

Pouco tempo depois, a Warner convidou o grupo para participar de um “pau-de-sebo” — coletânea de vários artistas iniciantes — chamado “Rock Voador”, do qual também participaram nomes como Kid Abelha e o saudoso Celso Blues Boy, entre outros. Naquele mesmo ano, a empresa propôs a gravação de um compacto com a canção.

Decorridos 32 anos, “Brilhar a Minha Estrela” não datou. O vocal de Vid e a guitarra de DiCastro soam como se não tivesse transcorrido tanto tempo. Prova disso foi a inclusão da faixa na trilha sonora de Tropa de Elite I [2007], de José Padilha.



Ouça “Brilhar a Minha Estrela (Dá Mais Um)”, do Sangue da Cidade:

Da série ‘Fotos’: Antonio Carlos Jobim



Rua Nascimento Silva, 107...”


O primeiro verso de “Carta ao Tom ‘74”, de Toquinho e Vinícius de Moraes, menciona o antigo endereço de Antonio Carlos Jobim, no bairro de Ipanema — o qual não pude deixar de fotografar na última vez em que passei pelo local. 

Jobim nos deixou há exatos vinte anos — faleceu no dia 08 de dezembro de 1994, em Nova York. Mas não é clichê afirmar que as suas canções — que, a bem da verdade, o Brasil ainda não descobriu em sua totalidade — nos acompanharão para sempre. 

Afinal, ele mesmo cantou: “Longa é a arte / tão breve é a vida...

terça-feira, dezembro 02, 2014

‘The Art Of McCartney’, digna homenagem a uma obra imorredoura



CD duplo
The Art Of McCartney (Sony Music)
2014


Um álbum-tributo a Paul McCartney, uma das figuras mais importantes da música popular de todos os tempos, não poderia fazer por menos: precisa estar à altura do homenageado. Esta é a (árdua) tarefa do ambicioso CD duplo The Art Of McCartney, que apresenta regravações de 34 canções de (quase) todas as fases da carreira do ex-beatle — a mais “recente” é “No More Lonely Nights”, que está completando exatos trinta anos em 2014, presente em uma boa versão do The Airbourne Toxic Event.

Dentre os 31 artistas — três deles, Steve Miller, Billy Joel e o grupo Heart, ao contrário dos demais, regravaram duas músicas —, os melhores resultados foram alcançados por aqueles que souberam imprimir a própria “assinatura” nas canções de McCartney. É o caso do eterno beach boy Brian Wilson, que emociona em “Wanderlust”, de Tug Of War [1982], e de Willie Nelson, que, com uma interpretação sentida, transformou “Yesterday”, a faixa mais executada e regravada do mundo, em uma música... sua. O mesmo vale para Corinne Bailey Rae, que tratou “Bluebird”, de Band On The Run [1973], com a delicadeza necessária, e para a lenda viva B. B. King, visceral no obscuro blues “On The Way”, de McCartney II [1980].

Um dos trunfos do projeto é mostrar a versatilidade do autor, capaz de compor canções que soam naturais nas vozes de artistas de estilos tão distintos quanto o vocalista do The Who, Roger Daltrey (que deu conta do recado na bombástica “Helter Skelter”), o veterano Allen Toussaint (“Lady Madonna”) e o garoto-prodígio do jazz Jamie Cullum (absolutamente confortável em “Every Night”).

Contudo, nem tudo são acertos. Chrissie Hynde, vocalista do Pretenders, foi apenas OK em sua releitura de “Let It Be”. Nada comparável à arrasadora versão de James Taylor e Mavis Staple, que quase levou às lágrimas o próprio Macca, em 2010. Já a Harry Connick Jr. Foi boa: aproximar a bela “My Love” de um standard à La Sinatra. Falta-lhe, no entanto, um “pequeno” detalhe: uma voz como a dos Velhos Olhos Azuis. E Cat Stevens, que hoje atende pelo nome de Yusuf, não teve como competir com a magnífica versão original de “The Long And Winding Road”.

Por fim, se alguns figurões como Bob Dylan (mais rouco do que nunca em “Things We Said Today”) e Smokey Robinson (“So Bad”) marcaram presença, não há como não lamentar a ausência de outros que já colaboraram com Paul em algum momento de suas carreiras — como Stevie Wonder, Elvis Costello, Eric Clapton e Dave Grohl (Foo Fighters), entre outras. Todavia, as lacunas não invalidam The Art Of McCartney, digna homenagem a uma obra imorredoura, monumental. Tanto que, pasmem, ficaram de fora gemas como “Here There And Everywhere”, “And I Love Her”, “Another Day”, “Blackbird”, “Ebony And Ivory”, “Get Back”, “Penny Lane”...




Ouça “Bluebird”, na voz de Corinne Bailey Rae:





Ouça “Wanderlust”, na voz de Brian Wilson:

sábado, novembro 22, 2014

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Panamericana’, de Lobão



Parceria sua com o baixista Arnaldo Brandão (ex-A Outra Banda da Terra e Hanoi Hanoi) e o poeta Tavinho Paes, “Panamericana” abre o sexto álbum de estúdio de Lobão, Sob o Sol de Parador, editado em 1989 [no detalhe, a capa].

Na ocasião de seu lançamento, o cantor explicou:

— “Panamericana” fala sobre uma hipotética “República das Bananas” — no caso, Parador —, com 19 perguntas e nenhuma resposta.

De fato, a incisiva letra faz um resumo da (triste) história política da América Latina, enumerando vários de seus movimentos armados: os uruguaios Tupamaros, os argentinos Montoneros, o peruano Sendero Luminoso e os colombianos do 19 de abril (M-19), entre outros. A citação da famosa frase do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, no refrão (“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”), evidentemente, foi pura ironia...

A síntese de “Panamericana” pode ser encontrada no segundo verso da canção, que questiona a fragilidade das instituições democráticas do continente: “O que é democracia ao sul do Equador?

Curiosidade: as também mencionadas Mães da Praça de Maio, do Chile, haviam sido homenageadas, dois anos antes, pelo U2, em “Mothers Of The Disappeared”, (de The Joshua Tree) e por Sting, em “They Dance Alone” (de ...Nothing Like The Sun).