Em
1983, David Bowie encontrava-se em estúdio gravando um novo álbum,
até então sem título, sob a batuta do produtor Nile Rodgers. Um
belo dia, Bowie mostrou uma nova canção —
“descartável”, segundo a avaliação do músico inglês — para
Rodgers:
—
Olha,
tenho aqui uma coisinha chamada “Let's Dance”. É bem caretinha,
mas acho que dá para entrar como algum lado B, só para encher
linguiça.
Após
ouvir a música, o guitarrista do Chic disse:
—
Não,
deixa ela comigo.
O
resto é história. Em entrevista concedida em 1990, o cantor
comentou com entusiasmo:
—
Rodgers
fez o arranjo e mudou completamente a música, criando um “monstro”,
uma verdadeira obra-prima para as pistas! Algo que eu nunca poderia
imaginar!
Além
de se tornar a faixa-título do álbum [no detalhe, a capa], “Let's
Dance” foi um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Bowie:
Eu era apenas um menino quando ouvi falar em David Bowie pela primeira vez. E foi, pasmem, em um divertido comercial da Pepsi, veiculado em meados da década de 1980. No anúncio, Bowie era um cientista que introduzia várias fotos — e até um salto alto — de beldades em uma máquina que criaria a “mulher ideal”. Iniciado o processo, o “professor Pardal” esbarra no refrigerante e causa uma pane instantânea. Em meio à fumaça, sai de dentro do equipamento a sua tão desejada criatura: Tina Turner.
A canção tema era a infalível “Modern Love”, faixa de Let's Dance [1983]. E, apesar da minha pouca idade, percebi que estava diante de algo muito especial — tanto que é uma das minhas preferidas de Bowie até hoje. Mais uma vez, ficava claro que a canção pop poderia ser algo profundo, sem abandonar o seu caráter infeccioso. E comover.
Somente anos depois vim a conhecer a fase Ziggy Stardust e a trilogia Low [1977], “Heroes” [1978] e Lodger [1979]. E passei a admirar até títulos pouco celebrados de sua discografia, como o eletrônico Earthling [1997]. Sem nenhum favor, era um mais imprevisíveis músicos de que se tem notícia. Poucos, pouquíssimos tiveram tamanha coragem para se reinventar tantas vezes (quem se lembra, por exemplo, do Tin Machine?).
Bowie lançou o seu 25º — e derradeiro — trabalho, Blackstar, há exatos três dias (!), quando completou 69 anos de idade. Chegou a gravar dois vídeos do álbum (a faixa-título e “Lazarus”). E, até então, nenhum veículo jornalístico do planeta havia informado que o cantor se encontrava em tratamento contra um câncer há 18 meses. Por tudo isso, a notícia de seu desaparecimento chocou a todos nas primeiras horas da manhã de hoje.
Na supracitada “Modern Love”, há um curioso verso que diz: “Mas eu nunca aceno adeus”. Não há a menor dúvida quanto a isso. Descanse em paz, Camaleão.
Veja o comercial da Pepsi, estrelado por David Bowie e Tina Turner nos anos 1980…
“Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil. Mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.”
(Carlos Drummond de Andrade. In: Receita de Ano Novo (antologia), 2008)
Não se pode negar: Lulu Santos [em foto de Leonardo Aversa] é ousado. Às vésperas do Natal, o cantor, compositor e guitarrista lançou em single digital — disponível no iTunes e em serviços de streaming como Deezer, Spotify e Napster — uma releitura de “Xibom Bombom”, faixa do extinto grupo baiano As Meninas.
Enquanto a gravação original, de 1999, foi um hit da axé music, Lulu a conduziu em direção ao funk, com direito a “tererê” — corruptela do refrão de “Whoomp! There It Is”, da dupla Tag Team — e tudo. Embora o resultado tenha sido surpreendente e divertido, não supera as releituras do músico carioca de “Se Você Pensa” (de Roberto e Erasmo), “Fullgás” (Marina Lima), e, principalmente, “O Descobridor dos Sete Mares” (sucesso na voz de Tim Maia), entre outras.
“Xibom Bombom” estará presente no próximo álbum de Lulu Santos, ainda sem título, sucessor do (bom) Luiz Maurício, de 2014.
Lançado em 2014, o mais recente álbum de inéditas de Lulu Santos, Luiz Maurício, começou a ser gravado dois antes. Em entrevista, o autor de “Um Certo Alguém” revelou que mostrou a faixa-título ao DJ Marcelo “Memê” Mansur, que produziu quatro trabalhos seus — a bem-sucedida trilogia Assim Caminha a Humanidade [1994], Eu & Memê, Memê & Eu [1995] e Anticiclone Tropical [1996], além de Bugalu [2003].
— Memê é o meu outro ouvido. Sempre que estou em dúvida, recorro a ele.
O DJ gostou da gravação. Mesmo assim, Lulu perguntou se ele conseguiria melhorá-la. A resposta: “vastamente”. Não por acaso, o remix assinado por Memê inicia os trabalhos — o que é algo absolutamente incomum.
Editado também em vinil, Luiz Maurício apresenta duas facetas distintas. O lado A abraça a eletrônica e mira o futuro. Além do remix da faixa-título, a irresistível “Sócio do Amor” foi igualmente repaginada pelos DJ Sany Pitbull e Batutinha. “SDV (Segue de Volta?)” transita no universo das redes sociais, com uma inteligente comparação com os julgamentos dos imperadores romanos (“Se o ícone do polegar é positivo ou não / no Coliseu particular da sua multidão”). Já “Michê (Chega de Longe Bis)” teve as participações de Mr. Catra e do cantor Jorge Aílton, baixista de Lulu. A faixa foi gravada originalmente em Canções em Ritmo Jovem [2013], segundo álbum solo de Aílton, em dueto com o próprio Lulu. Finalizando o bloco, a instrumental “Drones”, uma das últimas gravações produzidas pelo craque Lincoln Olivetti, falecido em 2015.
O lado B, por sua vez, apresenta uma sonoridade mais tradicional. Composta no ukelele, “Torpedo”, a primeira faixa, não consegue afastar completamente, apesar do arranjo animado, uma certa melancolia de sua melodia claramente influenciada pelo samba. A bem-humorada “Efe-se” é seguida por duas pop song típicas de Lulu, “Fogo Amigo” e a reflexiva “Lava Jato” — não, a letra não fala sobre política. Além da hendrixiana instrumental “Blueseado”, as versões originais de “Luiz Maurício” e “Sócio do Amor” — com direito a um quarteto de cordas na introdução — encerram os trabalhos.
Na ocasião de seu lançamento, Lulu Santos explicou que “foi bastante criterioso em relação ao repertório”, pelo fato de que “não estava muito interessado em lançar um disco novo”. Deu certo: apesar de inferior ao seu último álbum verdadeiramente bom — Letra e Música, de 2005 —, Luiz Maurício supera amplamente os seus antecessores Longplay [2007] e Singular [2009].
Veja o vídeo de “Luiz Maurício”, com participação de Mariana Ximenes, Paula Burlamaqui, Marcius Melhem, Carlinhos de Jesus, Lúcio Mauro Filho e Cláudia Ohana, entre outros. Detalhe: os “candidatos” apresentam os diversos visuais que Lulu adotou ao longo de sua carreira:
E também o de “Sócio do Amor”, extraído do DVD Toca + Lulu – Ao Vivo [2015]:
Além da beleza do timbre e da dicção absolutamente perfeita – podia-se compreender cada palavra que ele cantava –, Frank Sinatra (1915 – 1998) era dotado de impecável afinação e extremo bom gosto na escolha de seu repertório e arranjadores. Por tudo isso – com todo o respeito a Bing Crosby, Tony Bennett, Nat King Cole e Mel Tormé, entre outros –, foi, é e sempre será o maior dentre todos os crooners.
Sinatra completaria hoje um século de vida. E, embora seja o clichê dos clichês, não poderia ser mais verdadeiro: para todos aqueles que sabem apreciar a boa música e reverenciam sua memória até os dias atuais, The Voice… vive.
Ouça a irrepreensível versão de Sinatra para “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, também famosa na voz de Elvis Presley:
Single digital Stolen Car (Take Me Dancing) (Universal Music) 2015
Lançada em Sacred Love [2006], sétimo álbum solo de estúdio de Sting, “Stolen Car (Take Me Dancing)” foi regravada pela cantora Mylène Farmer, em dueto com o autor. O ex-Police, aliás, também participa do (lascivo) vídeo.
Farmer, tida como uma “Madonna francesa” — embora tenha nascido no Canadá — preferiu não se arriscar, mantendo-se bastante fiel ao (eletrônico) arranjo original. Inclusive, não esqueceu os bongôs marroquinos (!) da introdução. Dessa forma, deu uma nova oportunidade a uma das mais instigantes canções de Sting — que, na ocasião de seu lançamento, passou em brancas nuvens.
Na letra, o eu-lírico é um rapaz pobre que rouba um carro de luxo. E, enquanto conduz o veículo pelas ruas da cidade, projeta-se na vida de seu dono — e imagina os seus prováveis problemas. O refrão, por sinal, é uma hipotética “cobrança” da esposa do ricaço: “Por favor, leve-me pra dançar essa noite / tenho estado completamente sozinha. / Você prometeu que, um dia, poderíamos ir / foi o que você disse no telefone (...) Leve-me para dançar / por favor, leve-me para dançar essa noite”.
Embora a gravação tenha sido concluída em 2014, somente agora foi lançada em single digital. E também integrará Interstellaires, décimo trabalho de Mylène Farmer.
Veja o vídeo oficial de “Stolen Car (Take Me Dancing)”, no qual Sting se divide em dois papéis: o homeless que dirige o carrão e o magnata em tórridas cenas com a madame. Resta saber como ele explicou isso em casa...
E se alguém transformasse o famoso “Sonnet 18”, de William Shakespeare (1564? — 1616), editado pela primeira vez em 1609 (!), em uma ensolarada canção pop?
Foi exatamente o que Sting fez em 2006: musicou os versos do maior escritor da língua inglesa — detalhe: sem realizar uma única alteração na grafia original — e assim surgiu “Like a Beautiful Smile”. O resultado? Shakespeare jamais imaginaria tal ousadia.
Inicialmente gravada ao vivo no estúdio para o DVD Inside: The Songs of Sacred Love, foi incluída posteriormente como faixa-bônus de Sacred Love [2006], sétimo álbum solo de estúdio do ex-Police.
Em novembro de 2005 – portanto, há exatos dez anos –, tornei-me colaborador do jornal International Magazine, dando início à minha, digamos, “vida pública”.
Naquela edição (no detalhe, a capa), resenhei os então novos álbuns de Lulu Santos (Letra & Música), Rolling Stones [A Bigger Bang] e Eric Clapton [Back Home]. No caso de Lulu, há uma peculiaridade: a resenha foi publicada ao lado de uma entrevista exclusiva concedida pelo guitarrista.
Continuei atuando no veículo carioca até o encerramento de duas atividades, em 2009. Foi um período de enorme aprendizagem, no qual escrevi sobre mais de cem trabalhos de artistas nacionais e estrangeiros (saiba mais aqui). E me orgulho sobremaneira de ter feito parte da publicação musical independente mais longeva de que se tem notícia na imprensa brasileira.
Foi, aliás, através do meu trabalho no IM que tive o insight de criar esse blog, em 2006. Sim, amigos: o TomNeto.com completará uma década de existência em 2016. E é claro que a efeméride não passará em branco.
Há cerca de cinco anos, eu estava saindo do estacionamento de um shopping da zona sul do Rio, quando percebi que conhecia de algum lugar o motorista do veículo cor prata que se encontrava à minha frente. Era o Miele.
Levemente impaciente, ele estava às voltas com o ticket do estacionamento — não conseguia inseri-lo no terminal de jeito nenhum. Quando finalmente a cancela abriu, ele rapidamente engatou a primeira e seguiu em frente. Chegando a minha vez, tive que remover o ticket dele, que havia ficado engatado na máquina.
Luiz Carlos Miele era uma artista completo. Um showman, na acepção da palavra. Atuava. Cantava. Dono de um humor fino, era um exímio contador de histórias, dotado de uma elegância que já não existe nos nossos dias. E, na companhia do também saudoso Ronaldo Bôscoli, produziu espetáculos de artistas do calibre de Roberto Carlos e Elis Regina, entre outros.
Mesmo sendo clichê, é inevitável dizer: com ele, um capítulo importante da história do show business brasileiro se vai. Até hoje, arrependo-me de não ter levado comigo o ticket de estacionamento que ele deixou preso no terminal. Seria uma boa recordação.