Recluso como sempre, João Gilberto completou hoje 85 anos sem nenhum alarde. Até a imprensa pouco noticiou o fato. Paciência: o importante é que, mesmo à sua maneira, o papa da bossa nova ainda se encontra entre nós. E que assim permaneça por muitos anos.
Em comemoração ao aniversário de João Gilberto, o ECAD divulgou os cinco fonogramas mais executados do baiano de Juazeiro. A campeã foi a definitiva versão de "Wave", clássico de Antonio Carlos Jobim, regravada no ótimo Amoroso, de 1977:
O blog faz questão de registrar o seu respeito eterno àquele que foi – e sempre será – um dos nossos maiores cantores. O primeiro ídolo brasileiro: Cauby Peixoto.
Poucos intérpretes souberam incorporar uma canção quanto Cauby em sua versão arrebatadora – e definitiva – de "Bastidores", de Chico Buarque:
Três meses após o abrupto desaparecimento de David Bowie, 2016 levou mais uma estrela de primeira grandeza do pop. Prince, 57 anos, foi encontrado sem vida no elevador de seu estúdio-residência Paisley Park, em Minneapolis, EUA. A causa do óbito ainda é desconhecida.
Em 38 anos de carreira fonográfica, deixou 39 álbuns, nos quais transitou com insuspeitada desenvoltura entre a black music e o rock. Além de cantar, compunha, produzia, dançava como poucos e era um exímio guitarrista. Não se deve classificar qualquer um como “gênio”. Mas ele bem que merecia o adjetivo.
Teve o seu auge comercial nos anos 1980, através de uma coleção de hits como “Purple Rain”, “When Doves Cry”, “Raspberry Beret”, “I Feel For You” (sucesso retumbante na voz de Chaka Khan) e “Nothing Compares 2 U” (conhecida mundialmente na versão de Sinéad O'Connor), entre outros, rivalizando com pesos-pesados com Michael Jackson e Madonna.
Na década seguinte, entrou em rota de colisão com as gravadoras e, desde então, passou a editar seus álbuns de modo independente. E foi além: começou a assinar os seus trabalhos com um símbolo ininteligível e impronunciável, exigindo que a imprensa musical o chamasse de O Artista. Por sua vez, os repórteres o denominavam como The Artist Formerly Known As Prince (O Artista Anteriormente Conhecido como Prince) — embora alguns repórteres se referissem a ele como… O Símbolo.
Do ponto de vista empresarial, Prince não lidou muito bem com o advento da internet. É bem verdade que vários de seus últimos singles foram lançados somente em formato digital. Mas, em contrapartida, por determinação judicial, a maioria de seus vídeos oficiais está disponível no YouTube sem a pista de áudio — ou seja... mudos. Tampouco permitiu que suas canções fossem incluídas em serviços de streaming como Spotify e Deezer. Resultado: embora continuasse lançando trabalhos de qualidade e com espantosa produtividade — eventualmente, mais de um CD por ano (!) —, os mesmos não chegavam ao grande público como deveriam.
Espera-se que o espólio de Prince reconsidere a relação de sua obra com as plataformas digitais. Para que as novas gerações tenham o privilégio de conhecer o talento de uma artista único.
Veja o vídeo de “Purple Rain”, tema do filme homônimo que, em 1984, permaneceu 24 semanas (!) no primeiro lugar da Billboard:
Lançada originalmente no segundo álbum de Prince, epônimo, de 1979, “I Feel For You” não obteve grande repercussão. Entretanto, ao ser regravada por Chaka Khan, cinco anos depois, em seu sexto álbum [no detalhe, a capa] — que, não por acaso, acabou sendo batizado com o nome da canção — tornou-se um hit instantâneo.
Convenhamos: amplamente superior à do autor, a (irresistível) versão da cantora é uma das mais poderosas faixas já concebidas para as pistas de dança. Além do rapper Melle Mel, “I Feel For You” conta com a participação (mais do que) especial de um certo… Stevie Wonder.
Detalhe: a produção ficou sob a batuta do próprio Prince. E, sendo o autor da canção, ele acabou levando para casa o Grammy de Melhor Faixa de R&B de 1985.
Embora nem todos saibam, a sentida “Nothing Compares 2 U”, retumbante sucesso na voz de Sinéad O'Connor, é de autoria de Prince. O músico a compôs para a banda The Family — contratada do seu selo, Paisley Park —, que a gravou em seu trabalho de estreia, epônimo, de 1985.
Adornada com um arranjo de cordas que lhe conferiu um ar solene, a versão de Sinéad é, de fato, magnífica. Contudo, boa parte do êxito da faixa — que, não por acaso, levou quatro estatuetas (!) do Grammy daquele ano — pode ser creditado ao seu vídeo oficial. Nele, o semblante angelical da cantora aparece na maior parte do tempo, em close. Até que, em um determinado momento, mostrando habilidade histriônica, ela… derrama uma lágrima.
Faixa de I Do Not Want What I Haven't Got [1990], segundo álbum de Sinéad O'Connor, “Nothing Compares 2 U” continua sendo o maior hit da carreira da irlandesa.
Prince e George Harrison (in memoriam), como artista solo, foram introduzidos no Hall da Fama do Rock And Roll em 2004. Na cerimônia, Prince acabou sendo escalado para participar do clássico beatle “While My Guitar Gently Weeps”, de autoria de George, na companhia de Tom Petty, Jeff Lynne e outros. Olívia Harrison, viúva do homenageado, só queria que os amigos do marido — o que não era o caso de Prince, que sequer chegou a conhecê-lo — participassem do tributo. Dhanny, seu filho, acabou a convencendo. Para nossa sorte.
Quando a canção começou, Petty e Lynne se revesaram nos vocais principais. Prince estava posicionado na lateral do palco, quase escondido, tocando guitarra base. As câmeras praticamente não o focalizavam. Para quem o conhecia, não restava dúvida que havia alguma coisa por trás de toda aquela “discrição”. Não deu outra.
Segundos antes do início do solo final — executado na gravação original, de 1968, por Eric Clapton —, Dhany lançou um sorriso malicioso para Prince, como se dissesse: “Manda ver”. E, literalmente roubando a cena, o americano brindou o público com um dos mais estupefacientes solos de guitarra de sua carreira.
E, como ainda se precisasse, provou que merecia estar ali. Entre os grandes.
Menos conhecida do que merecia, “Money Don't Matter 2 Night”, faixa do (bom) Diamonds And Pearls [1991], é uma canção pop suave, com pontuais intervenções de uma guitarra jazzy, um refrão eficaz e uma letra que não tem nada de ingênua.
Pop
rock melodioso, “Valentine's Day”
foi o quarto single — e uma das melhores
faixas — do penúltimo álbum de David Bowie, o ótimo The Next Day
[2013]. O título alude ao Dia de São Valentim*, celebrado em vários
países como o Dia dos Namorados a cada 14 de fevereiro. Não se
trata, contudo, de uma música sobre a data.
A
letra fala de um certo Valentim, presumivelmente um adolescente que,
como a maioria, vive “em seu próprio mundo” (“Sentimentos que
ele guarda mais do que tudo / os professores e os astros do
futebol”), em total inadequação com o que se passa ao seu redor
(“Como se o mundo inteiro estivesse nos seus calcanhares”).
Portanto, apesar do nome — e de ter “algo a dizer” —, ele não
tinha motivos para comemorar o Dia de São Valentim.
No
vídeo, Bowie apresenta-se despido de qualquer persona. Vestido
informalmente, era apenas um senhor de 66 anos, empunhando uma
guitarra G2T Hohner em um silo aparentemente abandonado e
interpretando sua canção com enorme intensidade. Observem os
olhares que ele lançava para a câmera.
Ao
final, com a respiração pesada, o artista ergue o seu instrumento,
triunfante. E certo de ter conseguido, com a sua antítese, fugir de
todos os clichês que se poderia esperar de uma faixa com esse
título.
*
Há inúmeras controvérsias acerca de São Valentim. A versão mais
aceita sobre a sua origem é a de que teria sido um bispo que,
clandestinamente, decidiu continuar realizando casamentos em períodos
de guerra, contrariando a ordem do imperador Cláudio II — que
considerava homens solteiros mais aptos para as batalhas. Descoberto,
foi preso e condenado à morte. Enquanto aguardava a execução,
recebia cartas e bilhetes de jovens solteiras, em sua maioria
reafirmando sua crença no amor. Acabou iniciando um romance (!) com
a filha de um dos carcereiros, que era cega e, milagrosamente,
recuperou a visão — de onde se explica a canonização. No dia de
sua execução, deixou para a moça uma mensagem de adeus, assinando
“do seu Valentim” — expressão que, no hemisfério norte,
passou a ser sinônimo de “namorado”. Exemplo: “My Valentine”,
canção composta e gravada por Paul McCartney em 2013.
Veja
o tocante vídeo oficial de “Valentine's Day”:
Por
essa ninguém esperava: Sting e Peter Gabriel anunciaram que farão
uma turnê juntos. Com início previsto para 21 de junho, em Ohio, a
Rock Paper Scissor já tem 19 datas agendadas nos EUA e no Canadá.
O
nome da turnê foi inspirado na brincadeira
(“Pedra, Papel, Tesoura”) utilizada pela dupla para escolher o
repertório. Na foto de divulgação, os músicos não perderam a
piada.
A
exemplo do que ocorreu nos shows que Sting empreendeu com Paul Simon
entre 2014 e 2015, não há nenhuma informação sobre o registro da
turnê em CD/DVD.
Embora
já tenham participado juntos de vários eventos, Sting e Peter
Gabriel, até o momento, jamais colaboraram em estúdio. Contudo, é
possível observar conexões entre a música dos dois britânicos.
Lançada por Gabriel no bem-sucedido So [1986], “Mercy Streey”,
acompanhada por um insuspeitado triângulo (!), não soaria deslocada
em um álbum do ex-Police. A bem da verdade, até as vozes de ambos
guardam certa semelhança:
Em
08 de janeiro de 2013, dia em que completou 66 anos, David Bowie
pregou um susto em todo mundo. Após um silêncio de quase uma década
— no qual se submeteu a uma cirurgia cardíaca —, lançou uma
música nova, pegando de surpresa até a sua assessoria de imprensa.
A
serena “Where Are We Now?” era o retrato de um homem nostálgico
passeando pelas ruas de Berlin, onde viveu entre 1976 e 1979. Vários
pontos da cidade, inclusive, citados na letra.
A
faixa era a prévia do roqueiro The Next Day, que chegaria às
prateleiras dois meses depois. Diferentemente do experimentalismo dos
anos anteriores, Bowie concebeu um disco básico, “tradicional” —
para os seus padrões — e com muitas guitarras. E a citação a
Berlin no primeiro single não é isolada: a capa [no detalhe] evoca
a arte do clássico “Heroes” [1978], segunda parte da chamada
“trilogia de Berlin”.
Curiosamente,
na letra de “Where Are We Now?”, Davie Bowie se define como um
“homem perdido no tempo” que se encontra… “caminhando com os
mortos”: