Parceria de Eduardo Dussek com Isolda Bourdot, “Sou Eu” é a faixa-título do 18º álbum de estúdio de Simone, lançado em 1993. E uma das mais belas gravações da carreira da cantora soteropolitana.
Na letra, o eu-lírico questiona vários elementos sobre o significado do amor. E todos respondem à sua maneira. Na opinião do sol, é “um grande fogo”. Segundo os búzios, trata-se de “um jogo”. Para a lua, “tem tantas fases” e é “uma luz que não fim”.
De acordo com o vento, é “tempestade”. Enfim, cada um apresentou a sua interpretação pessoal acerca do maior e mais complexo dos sentimentos.
Entretanto, quando indagado, o coração resume de forma magistral: “O amor é fogo, água, céu e terra / Sente: o amor sou eu”.
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Isolda Bourdot compôs várias canções que fizeram sucesso na voz de Roberto Carlos, como “Um Jeito Estúpido de te Amar”, “Teste Esquecer”, “Elas por Elas”, claro, o megahit “Outra Vez”, entre outras. Aliás, a própria “Sou Eu”, com sua letra profunda e refrão grandiloquente, caberia como uma luva no repertório do Rei.
E essa´postagem é uma singela homenagem do blog à memória da compositora, que faleceu no dia 16 de dezembro, vítima de infarte. Tinha 61 anos.
Autor de algumas das mais belas canções populares de todos os tempos, o maestro, pianista e compositor americano Burt Bacharach completa hoje 90 anos de idade.
Vencedor de seis prêmios Grammy e três estatuetas do Oscars, foi regravado por artistas do calibre de Dionne Warwick, Frank Sinatra, Carpenters, Stevie Wonder e até os Beatles, entre outros. Enfim, uma carreira vitoriosa.
Admirador confesso de Ivan Lins, Antonio Carlos Jobim e de baião (!), ele, contudo, nem sempre foi unanimidade. Houve um tempo em que Burt Bacharach era sinônimo de muzak, easy listening, “música de elevador”. Posteriormente, os detratores perceberam que, apesar de sentimentais e de fácil assimilação, suas composições eram musicalmente muito elaboradas, passando ao largo de qualquer banalidade.
Detalhe: Bacharach não quer saber de aposentadoria. Seu trabalho mais recente foi a trilha sonora do filme A Boy Called Po, lançada no ano passado. E acreditem: ele continua cumprindo a sua agenda de shows (!).
Para os amantes da boa música, é uma alegria e um privilégio celebrar a vida e a obra desse gênio do pop. Flores em vida para ele.
Relembrem alguns de seus inúmeros sucessos:
“On My Own”, belo dueto de Patti LaBelle com Michael McDonald, obteve boa execução radiofônica na década de 1980:
Música-tema do filme Arthur, o Milionário Sedutor, “Arthur's Theme (Best That You Can Do)”, parceria de Bacharach com Christopher Cross, rendeu à dupla o Oscar de Melhor Canção:
Na sequência Arthur 2 – O Milionário Arruinado, Bacharach emplacou outra pérola, “Love Is My Decision” — dessa vez, na voz de Chris “The Lady In Red” deBurgh:
Imortalizada na voz de B.J.Thomas, “Raindrops Keep Fallin' On My Head” rendeu a Bacharach os seus dois primeiros Oscar, em 1969:
Sucesso na voz de Dionne Warwick — a maior intérprete de Burt Bacharach —, “Always Something There To Remind Me” ganhou uma boa releitura do Naked Eyes nos anos 1980.
Uma de suas canções mais emblemáticas, “I'll Never Fall In Love Again” foi regravada pelo maestro na companhia do amigo, fã e parceiro Elvis Costello — com quem gravou em 1998 o estupendo álbum Painted From Memory — para a trilha do filme Austin Powers: O Agente Bond Cama:
Por sua vez, a trilha de O Casamento de Meu Melhor Amigo trazia a ótima versão reggae de Diana King para “I Say A Little Prayer”:
Com a delicadeza habitual, os Carpenters, na sua releitura de “(They Long To Be) Close To You”, conseguem emocionar até uma parede:
Fechando a sequência com chave de ouro: faixa cuja renda seria destinada às vítimas do vírus HIV, acabou se tornando uma das mais comoventes canções já escritas sobre a amizade. Gravada inicialmente por Rod Stewart, “That's What Friends Are For” recebeu de Dionne Warwick e seus amigos Stevie Wonder e Elton John a sua versão definitiva:
Na capa de seu álbum de estreia, Definitely Maybe [1994], o Oasis prestou a devida reverência a Burt Bacharach: no canto inferior esquerdo, há um quadro com a imagem do mestre do pop ainda jovem.
Um belo dia, Martin Kierszenbaum, produtor de Sting e também empresário de Shaggy, pediu ao astro inglês para gravar os vocais no refrão de uma faixa inédita do cantor jamaicano, a singela “Don't Make Me Wait”. Poucos meses depois, os dois artistas anunciaram não apenas ter finalizado a canção, mas, para surpresa geral… um álbum inteiro (!). Assim surgiu 44/876 — cujo título faz referência aos códigos de discagem de Reino Unido e Jamaica, respectivamente —, disponível em formato físico e nas plataformas digitais desde o dia 20 de abril.
Logo de cara, o CD quebrou dois paradigmas. É a primeira vez, em 33 anos de carreira solo, que Sting divide um trabalho com outro artista. Além disso, com exceção de uma outra faixa desde o fim do Police — como “Love Is The Seventh Wave” (1985) e “All Four Seasons” (1996) —, representa uma volta ao reggae após um hiato de mais de três décadas.
O clima de bom humor e camaradagem exibido pela dupla nos pockets shows e entrevistas de divulgação não parece ser jogo de cena: em “Morning Is Coming”, na irresistível “Gotta Get Back My Baby” e na canção que dá título ao disco (na qual confessa que o fantasma de Bob Marley “o asssombra” até os dias de hoje) fica claro que o baixista entrou, numa boa, na praia de Mr. Boombastic. E, ao se deparar com as 15 faixas da bolacha, o ouvinte só imagina duas hipóteses: a) o autor de “Englishman In New York” teve um surto de criatividade; b) ou decidiu abrir o baú de composições.
Todavia, apesar de ter embarcado no território musical de Shaggy, a assinatura de Sting como compositor aparece com muita nitidez em algumas faixas. “16 Fathoms” e “Crooked Tree”, por exemplo, poderiam muito bem integrar a trilha sonora de The Last Ship, musical idealizado pelo baixista que estreou na Broadway em 2013. As melodias de “Sad Trombone” da bela “22nd Street” evocam a proximidade do músico com o jazz. Da mesma forma, um piano jazzístico pontua a boa “Waiting For The Break Of Day”, cujo verso anárquico “se as leis são perversas / você é forçado a desobedecer” instiga tanto quanto os backing vocais gospel (!) no final da faixa.
“Dreaming In The U.S.A.” é um caso à parte. Pop rock que, do ponto de vista sonoro, destoa do restante do álbum, trata-se de uma declaração de amor aos Estados Unidos e a ícones americanos como Elvis, Sinatra e Marilyn Monroe. Contudo, não deixa de lamentar, implicitamente, a era Trump: “Aguardo o dia em que todos habitaremos uma América melhor”. Curiosamente, entretanto, um dos destaques do álbum não é uma canção autoral. A delicada “Love Changes Everything”, um primor de letra e melodia de Andrew Lloyd Weber, emociona em sua roupagem lovers rock. É a única faixa na qual Sting canta sozinho.
Em resumo, 44/876 é um álbum leve, solar e despretensioso, que tem tudo para agradar tanto aos que acompanham a carreira de Shaggy quanto àqueles que apreciam o Sting mais pop, menos “erudito”. Aliás, ao longo dos últimos 15 anos, o ex-Police tem declarado que “a surpresa é o elemento-chave na música de hoje”. E, sintomaticamente, um novo trabalho dele é sempre muito diferente do anterior. Portanto, se a intenção dele era surpreender o seu público com uma parceria tão “improvável”, o objetivo foi atingido. Não se espantem se ele permanecer em silêncio nos próximos dois, três anos. E reaparecer com algo inesperado.
O vídeo oficial de “Don't Make Me Wait”, primeira faixa de trabalho de 44/876, foi gravado em Kingston, capital da Jamaica. Na companhia de seu novo-amigo-de-infância, o inglês parece estar à vontade: joga sinuca, dominó e ainda bebe uma cerveja Red Stripe. E se diverte em meio às cenas, digamos, calientes, do povão dançando no baile. Vale a pena conferir:
Gravado no Olympia, de Paris, o vídeo mostra uma rara execução ao vivo de “That Was Me”, faixa de Memory Almost Full [1996] que seria a “trilha sonora” perfeita da foto acima:
“Eu proporia que substituíssem todos os capítulos da Constituição por: ‘Artigo Único — Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara. Parágrafo único: Revogue-se todas as disposições em contrário’.”
(Historiador cearense, João Capistrano de Abreu (1853 — 1927) cunhou a frase repleta de sabedoria que deveria ser esculpida em pedra em cada praça do território nacional. Afinal, vergonha na cara — item escasso desde sempre no nosso país — é tudo, concordam?)
2017 seria uma um “ano sabático” para Lulu Santos [em foto de divulgação de Léo Aversa]. Sim, “seria”: a leitura da autobiografia de Rita Lee, editada no final de 2016, alterou os planos do cantor. E motivou o lançamento de Baby, Baby!, no qual regravou doze faixas da legítima rainha do rock nacional. É a segunda vez que Lulu dedica um trabalho a um outro artista: em 2013, prestou uma respeitosa homenagem a Roberto e Erasmo Carlos.
Do alto de 35 anos de carreira discográfica, não se poderia esperar que Lulu caísse na armadilha do cover – e, naturalmente, ele não caiu. Muito pelo contrário: “se apropriou” de “Desculpe o Auê”, “Baila Comigo” – embora esta não tenha necessariamente se beneficiado da mudança de compasso – e “Caso Sério”, inserindo-as na estética de “bolero havaiano” de sucessos seus como “Sereia” e “Como uma Onda”.
O mesmo vale para “Disco Voador”, que abre os trabalhos – e supera a gravação original, lançada por Rita no LP Babilônia, de 1978 – com direito a um solo de slide guitar que remete à sonoridade dos três primeiros discos do artista. Para quem não conhece a canção, soa tranquilamente como a “a música nova de Lulu Santos”. No mais, o músico se dedicou a “desconstruir” as canções de sua musa.
Famosa pela gravação de Elis Regina, “Alô, Alô, Marciano” ganhou inesperada roupagem eletrônica. O clássico “Ovelha Negra” – cujo refrão, aliás, batizou o CD –, apesar dos sequenciadores, tem uma levada de… baião (!). E o rock “Agora Só Falta Você” se transformou em um... funk melody (!). Aos críticos do ritmo carioca, uma observação: o resultado, acreditem, foi bastante satisfatório.
Originalmente dançante, a pouco conhecida “Paradise Brasil” – do álbum Reza, de 2012 – não sofreu alterações na releitura de Lulu. “Mania de Você”, no entanto, ressurgiu como um trip hop soturno, acrescido de um belo solo de guitarra. Do repertório d'Os Mutantes, a escolhida foi “Fuga nº II”, que, apesar dos timbres bem escolhidos, nada acrescentou à faixa.
Concebido com um rock a la Rolling Stones para o terceiro disco solo da cantora, Atrás do Porto Tem uma Cidade [1974], “Mamãe Natureza”, na versão de Lulu, tornou-se um blues, com a adição de discretos metais estilo “Penny Lane”. O calcanhar-de-Aquiles do disco é a (surpreendentemente) apática releitura de “Nem Luxo, Nem Lixo”, que encerra os trabalhos em uma espécie de “anticlímax”. Melhor lembrar do matador registro de 1995 de Marina Lima.
Baby, Baby! possui dois grandes méritos: a) a originalidade com que a obra de Rita Lee – que merece ser sempre celebrada e atualizada para as novas gerações – foi abordada; b) não é sempre que temos a feliz oportunidade de presenciar um vértice do “triângulo mágico” do pop nacional homenageando o outro – o terceiro chama-se Guilherme Arantes. Contudo, em se tratando de um hitmaker como Lulu Santos, um CD de inéditas seria bem-vindo: o mais recente, o regular Luiz Maurício, é de 2014.
Lulu Santos nunca escondeu que foi fã d'Os Mutantes desde o primeiro momento e acompanhou toda a carreira solo de Rita Lee. Não por acaso, a assinatura da cantora aparece duas vezes no álbum de estreia do guitarrista carioca, Tempos Modernos [no detalhe, a capa], editado em 1982.
Rita compôs o samba “Selenita”, que, durante as gravações, teve o título alterado para “Scarlet Moon”, em homenagem à então esposa do cantor, a jornalista Scarlet Moon de Chevalier, falecida em 2013. E também “De Leve”, versão do clássico beatle “Get Back” escrita em parceria com Gilberto Gil, lançada pela dupla em Refestança, gravado ao vivo em 1977.
A rainha do rock também já participou de um CD de Lulu: ao lado do marido Roberto de Carvalho, Rita gravou os backing vocais de “Ronca, Ronca”, faixa de Tudo Azul [1984], terceiro trabalho do autor de “Toda Forma de Amor”.
Ouça “Scarlet Moon”...
...e “De Leve” – observem que a gravação de Lulu é claramente influenciada pela sonoridade do The Police:
Quando Rita Lee lançou Bombom, em 1983, eu ainda era um garoto. Todavia, já me interessava por música. Tanto que lembro com nitidez de ter visto, na casa de um familiar, uma edição da extinta (e mítica) revista mensal Violão & Guitarra – que trazia cifras do sucesso do momento e do passado –, cuja capa dava destaque aos dois sucessos instantâneos do álbum: “On The Rocks” e “Desculpe o Auê”. E esta chamou-me particularmente a atenção.
Na minha tenra idade, fiquei intrigado com o título. “Como ela pôde colocar uma palavra como ‘auê’ no nome da música?”, questionei à época. E por nunca ter ouvido a canção – apenas li a letra na revista de cifras –, imaginei que se tratava de mais uma faixa bem-humorada, bem ao estilo da compositora. Ledo engano.
Dias depois, ouvi “Desculpe o Auê” no rádio. E fiquei fascinado. Era uma balada belíssima que, desde então, passou a ser uma das minhas preferidas do repertório de Rita Lee. Minha única ressalva, pasmem, era o desfecho da letra.
“Como a mulher diz que vai ‘roubar os anéis de Saturno’ para o cara? Isso é absurdo!” Bobagem de criança. Com a clareza que somente o tempo proporciona, hoje vejo que o verso final é justamente o que há de mais bonito, comovente e profundo nessa faixa.
“Roubar os anéis de Saturno” significa… fazer o impossível pela pessoa amada.
P.S.: em dezembro de 2008, compareci à gravação do especial global de Roberto Carlos, realizada no HSBC Arena. Rita Lee era uma das convidadas. No local, pensei em como seria fantástico vê-la cantando “Desculpe o Auê” ao lado de RC. Mas as duas realezas da música brasileira preferiram um medley de canções de ambos, como “Parei na Contra Mão”, “Flagra” etc.