quinta-feira, novembro 19, 2009

O sagrado (e multifacetado) amor de Sting

...Sting editou o seu último álbum de canções inéditas, Sacred Love, em 2003...

(“Sting: quando o inverno chegar...”)


O mais recente álbum de inéditas de Sting, Sacred Love, de 2003 (!), causa algum estranhamento nas primeiras audições, devido à eletrônica utilizada em faixas como “Forget About The Future” e, principalmente, “Never Coming Home”.

Mas o ouvinte mais atento logo percebe que, em meio aos sequenciadores, há elementos nada usuais nas pistas de dança como o violão flamenco – cortesia do espanhol Vicente Amigo em “Send Your Love” –, bongôs marroquinos e improvisos de jazz.

O que faz concluir que Sting, obviamente, jamais se permitiria cair na... obviedade.

Nas letras, o bom nível de sempre, desde a tensa e claustrofóbica “Inside” (“Aqui dentro, está mais frio do que nas estrelas / Aqui dentro, os cães estão uivando”), que abre os trabalhos, passando pela raivosa “This War”, até a otimista faixa-título, que fecha o CD.

A delicada “Dead Man's Rope” menciona “dor”, “vazio”, “raiva” e “angústia” e, depois, a “doce chuva do perdão”, através do “amor de Jesus”. E cita “Walking In Your Footsteps”, de Synchronicity, último trabalho do Police. Já os engenhosos versos de “Stolen Car (Take Me Dancing)” contam a estória do sujeito que rouba o carro de um ricaço, e enquanto dirige, começa a se imaginar na vida do dono do veículo.

The Book Of My Life”, belíssima, usa a metáfora de um livro – no caso, Fora do Tom, a ótima autobiografia do cantor – para refletir sobre a vida: “Porque o fim é um mistério, que ninguém consegue ler / no livro de minha vida.” E traz a boa participação da citarista Anouskha Shankar – sim, filha de Ravi Shankar, o homem que, indiretamente, introduziu os sons indianos na música dos Beatles.

O ponto alto do disco, entretanto, é o soul “Whenever I Say Your Name”, dueto com Mary J. Blige.

Sacred Love, de um modo geral, é um bom álbum. Mas já se passaram seis anos desde o seu lançamento. De onde se conclui que passou da hora de Sting providenciar o seu sucessor...



P.S.: Devido à fria recepção à eletrônica de Sacred Love, o ex-Police regravou, ao vivo, todas as faixas do álbum no DVD Inside The Songs Of Sacred Love – mas excluindo dos arranjos os sequenciadores, e dando mais ênfase ao jazz. E, cá para nós, as canções soaram bem melhores assim...



Veja o vídeo de “Whenever I Say Your Name”, com Sting e Mary J. Blige:

Mary J. Blige

A supracitada Mary J. Blige [foto] possui dez álbuns em seu currículo.

Além da mencionada colaboração com Sting, a americana já participou de duetos com Elton John – a (fraca) versão ao vivo de “I Guess That's Why They Call It The Blues” – e George Michael – a excelente gravação de “As”, clássico de Stevie Wonder.


Veja “I Guess That's Why They Call It The Blues”, com Elton John e Mary J. Blige:




E o interessante vídeo de “As”, dueto da cantora com George Michael:

Sting e o ‘outono’

...a boa ‘The Hounds of Winter’, originalmente gravada em Mercury Falling, de 1996...





Mercury Falling [no detalhe] foi o álbum que Sting editou em 1996 – cuja faixa inicial era “The Hounds of Winter”, em versão superior à regravada pelo músico em seu recém-lançado trabalho, If On a Winter's Night....

Gravado em um período de suposta “crise de meia-idade” do ex-Police, o CD mostra desencanto já na foto da capa, que flagra o músico com um semblante de quem está atolado em dívidas...

Em entrevista da época, Sting declarou: “Tenho que aceitar a ideia de que estou ficando velho. E que vou morrer.” O próprio título do disco menciona, ainda que de forma metafórica, o “crepúsculo”: o mercúrio (do termômetro) descendo. A temperatura caindo. O outono. O ocaso.

Entretanto, as canções do álbum, curiosamente, não transparecem essa melancolia. Pelo contrário: há temas bastante “otimistas”, como o pseudo-gospel “Let Your Soul Be Your Pilot” – que foi o primeiro single de trabalho – e a pop “You Still Touch Me”.

Apesar de apresentas faixas menos inspiradas – como “Twenty-Five To Midnight” e o reggae placebo “All Four Seasons” –, o CD está repleto de bons momentos. Exemplos: a celta “Valparaiso” e a curiosa bossa nova em francês “La Belle Dames San Regrets”, cuja introdução é algo... hum, “sambista”, com direito à cuíca (!).

No quesito letra, Sting continuou à margem do superficial. A narrativa de “I Hung My Head”, presumivelmente ambientada no século XVIII, fala sobre um indivíduo que, disparando seu rifle a esmo contra uma colina, atinge acidentalmente – e fere de morte – um cavaleiro. Julgado, acaba condenado à guilhotina. Foi gravada de modo pungente pelo lendário Johnny Cash no CD American IV: The Man Comes Around, de 2002.

Já o country “I'm So Happy I Can't Stop Crying” fala sobre um homem cuja esposa o abandonou (“Ela aparece para perguntar como estou. Diz: ‘Você está bem? Estou preocupada com você. Você me perdoa? Quero que seja feliz’.”). E que, passada a tristeza inicial, aceita a separação (“Algo me fez sorrir / algo parece aliviar a dor / algo sobre o Universo / e como está tudo conectado”). Em 1997, recebeu uma versão do americano Toby Keith, com participação do próprio Sting.

Contudo, o ponto alto do disco, é a abrasileiradaI Was Brought To My Senses”, dona de versos “existencialistas” (“Pela primeira vez, vi a obra Divina / na linha onde as colinas se encontram com o céu”) e belas imagens (“Seríamos como a lua e sol /e, quando a nossa delicada dança no céu houvesse terminado seu curso, / então repousaríamos juntos”).

Mercury Falling termina com uma mensagem de esperança na rural “Lithium Sunset”* (“Tenho estado amedrontado / tenho estado despedaçado / (...) mas ficarei melhor”). O verso final, todavia, não deixa de constatar: “Vejo o mercúrio descendo...



* “Lithium Sunset” – “Crepúsculo de Lítio”. O lítio é o mais conhecido “estabilizador de humor”, amplamente utilizado na prevenção de crises depressivas e bipolares.




Veja o vídeo de “I Was Brought To My Senses:



E também “The Hounds Of Winter”, com participação do violoncelista brasileiro Jacques Morelenbaum:

Em seu novo livro, Stewart Copeland fala sobre o Police

O (estupendo) baterista do Police, Stewart Copeland [foto], 57 anos, acaba de lançar um novo livro. Espécie de “diário de viagens”, Strange Things Happen, inclui relatos de escapadas de leões no Congo e até vitórias em partidas de pólo contra o Príncipe Charles.

Mas Copeland não poderia deixar de falar sobre os (turbulentos) bastidores da turnê de seu famoso trio. Em entrevista recente, o americano falou sobre a provável reação de Sting ao livro:

– Não consigo imaginar que ele [Sting] vai lê-lo. Ele nunca assistiu ao meu filme [nota: o DVD Everyone Stares: The Police Inside Out]. Ele vai ler todas as partes do livro, exceto as que são sobre ele. Ele é completamente alérgico a ler qualquer coisa sobre ele, ou ver fotos deles.

E aproveita para desmitificar:

– Sting não tem nada disso [de egocentrismo]. Ele não é aquele cara que muita gente pensa. É uma pessoa sem um pingo de afetação, a pessoa menos vaidosa que você poderia imaginar. Ele é real – pura música. E também melancolia. Ele nasceu com uma química cerebral que não faz dele um cara feliz. Mas acho que é dessa melancolia que vem a sua grande arte.

Sobre um novo CD do Police, Copeland foi sincero:

– Um novo álbum, provavelmente não. Odeio entrar no estúdio para gravar bateria. E a versão mais dolorosa de algo que eu já odeio fazer é entrar no estúdio com o Police. É incrível subir no palco com aqueles dois filhos da mãe – eles são monstros da música. Mas entrar no estúdio sem aquelas 80.000 pessoas vibrando com a gente é um verdadeiro inferno...

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Primavera (Vai Chuva)’, com Tim Maia

Ah, sim: a canção citada no título da resenha do CD novo de Sting é a comovente “Primavera (Vai Chuva)”, de Genival Cassiano e Sílvio Rochael.

Lançada por Tim Maia [foto] em seu primeiro álbum, epônimo, de 1970, a faixa mantém o seu encanto inalterado – mesmo depois de quase quatro décadas (!).

E, cá para nós, o “Síndico” é um artista que faz muita, muita falta...



Veja o vídeo de “Primavera (Vai Chuva)”, com Tim Maia:


Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Gostava Tanto de Você’

Onze anos após o seu desaparecimento, a influência de Tim Maia na música brasileira não perdeu sua força. Exemplo disso é a recente gravação de “Gostava Tanto de Você”, cometida pela cantora Tânia Mara que, impulsionada pela novela Viver a Vida, tem obtido boa execução radiofônica.

Há quem diga que “Gostava Tanto de Você”, composta por Édson Trindade, não fala de uma desilusão amorosa. Trindade, morto em 1993, teria escrito os versos da canção em homenagem à filha, que falecera.

A versão de Tânia Mara é até... correta, conferindo à faixa a melancolia condizente com a letra*. Mas o registro de Tim Maia, lançado originalmente em 1973, continua imbatível...


* Mas é importante frisar que Leila Pinheiro já havia gravado esta canção – e de modo semelhante – há alguns anos atrás...



Veja o vídeo de “Gostava Tanto de Você”, com Tânia Mara...




...e também com Tim Maia. Qual você prefere?

Sting e o Brasil

A ligação de Sting com o Brasil teve início na segunda metade da década de 1980.

Na ocasião, o músico engajou-se em uma campanha pela preservação da Amazônia, levando, inclusive, o cacique Raoni [foto] para a sua turnê europeia – o que rendeu muitas chacotas para ambos. Até de “CD player do Sting” o pobre indígena foi chamado...

Na entrevista de divulgação de seu show no Natura Nós – About Us, o inglês declarou-se fã de Gilberto Gil e Caetano Veloso, além de Antônio Carlos Jobim, é claro.

Com Jobim, aliás, Sting gravou uma belíssima versão de “How Insensitive (Insensatez)”, lançada no último álbum do Maestro Soberano, Antônio Brasileiro, de 1994.


***


Em sua autobiografia, Fora do Tom, Sting conta que o Police, no momento da assinatura do contrato com a A&M Records – o primeiro da carreira do trio –, recebeu autorização do diretor da companhia para retirar no depósito da gravadora, “como cortesia”, os discos que desejasse.

O baixista não teve dúvida: apanhou a discografia completa de Antônio Carlos Jobim...



Veja o vídeo de “How Insenstive (Insensatez)”, com Antônio Carlos Jobim e Sting:

Sting no Brasil


Por sinal, no próximo sábado, 21, Sting [em foto de Ivan Milutinovio, da agência Reuters] realizará o show de encerramento do festival Natura Nós – About Us, na Chácara do Jockey, em São Paulo.

Para surpresa geral, o baixista já avisou que, no set list, não haverá nenhuma canção (!) de seu CD novo, If On A Winter's Night.... Acompanhado por sua banda – “de rock”, como fez questão de frisar – ele tocará clássicos do Police e sucessos de sua carreira solo.

A considerar a sua recente apresentação no Uzbequistão, este é o provável roteiro:



* “If I Ever Lose My Faith In You
* “Message In A Bottle
* “Englishman In New York
* “Synchronicity II
* “Every Little Thing She Does Is Magic
* “If You Love Somebody Set Them Free
* “Fields Of Gold
* “Driven To Tears
* “Seven Days
* “Walking On The Moon” / “Tea In The Sahara
* “Shape Of My Heart
* “Wrapped Around Your Finger
* “Bring On The Night” / “When The World Is Running Down
* “Roxanne
* “Desert Rose
* “King Of Pain
* “Every Breath You Take

Bis:

* “Fragile

quinta-feira, novembro 05, 2009

Caetano: ‘Marina Silva não é analfabeta como Lula’


Com três shows da turnê Zii e Zie agendados para o próximo fim de semana na capital paulista, Caetano Veloso [foto] concedeu entrevista exclusiva ao jornal Estado de São Paulo. E, ao manifestar seu entusiasmo com a senadora Marina Silva (PV-AC) – provável candidata ao Palácio do Planalto em 2010 –, não deixou de alfinetar o presidente Lula:

– Não posso deixar de votar nela. É “por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar”*. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.

Contudo, ao mencionar o governador de SP, José Serra, não deixou de elogiar Lula – ainda que de modo enviesado:

– O Serra foi um excelente ministro da Saúde. Agora, ele é o tipo do cara que, se tivesse ganho no lugar de Lula, em 2002, teria trazido mais problemas à economia brasileira. Ele teria feito um governo mais à esquerda e a economia talvez tivesse problemas que não está tendo porque o Lula fez a economia de direita. E ouve os conselhos de Delfim Neto, que o Serra não ouviria. O Lula foi “mais realista que o rei”. Foi bom – a economia deslanchou**.

O compositor baiano ainda mostrou-se simpático à candidatura do governador de Minas Gerais, Aécio Neves:

– Os candidatos são todos de nível bom. Vou falar em Aécio, de quem eu gosto muito. Talvez seja meu favorito entre os gestores. Porque acho que o Serra talvez ficasse mais isolado que o Aécio.

Mas desdenhou da capacidade administrativa da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff:

– Ela tem um trabalho de pura gestão, mas sem experiência de poder político direto. Nunca foi eleita a coisa nenhuma.


Leia a entrevista de Caetano Veloso, na íntegra, clicando aqui.



* Citação a “Base de Guantánamo”, do CD Zii e Zie. Leia a resenha aqui.

** Nesse trecho, Caetano chutou na trave. A economia “deslanchou”? Só se for para os especuladores estrangeiros, que ganham 16% de juros reais ao mês no Brasil – algo impensável em qualquer lugar do mundo. Caetano deveria perguntar ao chamado “setor produtivo” se a economia realmente “deslanchou”...

Da série ‘Perguntar não ofende’: simulacro do inferno

Perguntar não ofende: será que existe alguém nessa cidade que tolera um calor desses?