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quarta-feira, novembro 21, 2007

O 'universo particular' das letras de samba

O samba - a exemplo do blues e do reggae -, além de ter as suas particularidades melódicas e harmônicas, tem também as suas peculiaridades líricas. E, considerando que o gênero surgiu nas camadas menos favorecidas da população, é natural que as letras contem estórias do cotidiano de pessoas, digamos, “simples”.

E foi justamente isso que eu quis destacar quando mencionei, na resenha abaixo, a semelhança entre os versos de “Tá Perdoado”, de Arlindo Cruz e Franco, e “Tô Voltando”, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. Ambas têm o mesmo... hum, espírito.

E isso não tem nada a ver com plágio, certo?

Confira as duas letras e tire as suas conclusões:



Tá Perdoado

Arlindo Cruz - Franco


Perfumei o corredor,
Perfumei o elevador

Pra tirar de vez o mal olhado.

A saudade me esquentou,

Consertei o ventilador

Pro teu corpo não ficar suado.

Nessa onda de calor, eu até peguei uma cor,

com o corpo todo bronzeado.

Seja do jeito que for, eu te juro meu amor,
Se quiser voltar, perdoado.

Fui a pé a Salvador,

De joelho ao Redentor

Pra ver nosso amor abençoado.

Nosso lar se enfeitou,

A esperança germinou,

Ah, tem muita flor pra todo lado.


Pra curar a minha dor,
Procurei um bom doutor -

Me mandou beijar teu beijo mais molhado.


Seja do jeito que for, eu te juro meu amor,

Se quiser voltar,
perdoado.

E, se voltar, te dou café,

Preliminar com cafuné,

Pra deixar teu dia mais gostoso.

Pode abusar do que quiser e repetir

Te dou colher -

Faz daquele jeito carinhoso.


Deixa pintar o entardecer,

O sol brincar de se esconder,

Tarde, chuva eu fico mais fogosa.


E vai ficando pro jantar

Tu vai ver só, pode esperar
Que a noite será maravilhosa.






Tô Voltando

Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós


Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto -

Eu
voltando.
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar,

Muda a roupa de cama -

Eu
voltando.
Leva o chinelo
pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar.


Quero te abraçar -

Pode se perfumar

Porque eu
voltando.

Dá uma geral, faz um bom defumador,
Enche a casa de flor

Que eu
voltando.
Pega uma praia, aproveita, tá calor,

Vai pegando uma cor

Que eu
voltando.
Faz um cabelo bonito pra eu notar

Que eu só quero mesmo é despentear.


Quero te agarrar

Pode se preparar

Porque eu
voltando.

Põe pra tocar na vitrola aquele som,

Estréia uma camisola -

Eu
voltando.
Dá folga
pra empregada,
Manda a criançada
pra casa da avó
Que eu
voltando.
Diz que eu só volto amanhã, se alguém chamar.

Telefone, não deixa nem tocar.


Quero lá.. lá.. lá.. ia.....

Porque eu tô voltando.

Maria Rita: na cadência bonita do samba

Em seu terceiro álbum, a filha de Elis Regina dedica-se inteiramente ao ziriguidum

A bem da verdade, o samba não é uma novidade na carreira de Maria Rita. A cantora já havia feito incursões no gênero tanto no seu primeiro álbum (com “Cara Valente”, do (ex?) Hermano Marcelo Camelo) quanto em Segundo (na boa “Recado”, de Rodrigo Maranhão). Novidade foi o fato de a filha de Elis ter dedicado um álbum inteiro ao gênero: esse é caso de seu terceiro disco, sintomaticamente batizado de Samba Meu, que chega ao mercado via Warner.

Com sua bela capa - aliás, a cantora está cada vez mais bonita e sensual -, Samba Meu (produzido por Leandro Sapucahy) sofre da mesma linearidade de trabalhos focalizados em um único gênero (em se tratando de um disco inteiro de reggae ou blues, a impressão seria igual). Além disso, ao contrário de Marisa Monte - que em seu Universo ao Meu Redor, produzido por Mário Caldato Jr., inseriu timbres e efeitos incomuns em discos de samba - Maria Rita optou por um enfoque inegavelmente tradicional. Mas, como diziam os antigos, ela tem bossa. E até que consegue se sair bem.

Não leve em conta a melancolia da faixa-título, que abre o álbum. O disco começa realmente na segunda música, “O Homem Falou”, de Gonzaguinha, com participação da Velha Guarda da Mangueira. Outro destaque é “Num Corpo Só”, de Arlindo Cruz (que, aliás, contribui com seis das quatorze canções do álbum), em registro que nada deve a sambas gravados por sua famosa mãe. E por falar em maternidade: “Cria”, de autoria de Serginho Meriti e César Belieny, é uma faixa simpática que fala sobre uma criança - mas sob a ótica da mãe.

O maior acerto, no entanto, foi a escolha do primeiro single de trabalho: “Tá Perdoado”, também de Arlindo Cruz, é simplesmente um golaço. A letra remete imediatamente a “Tô Voltando”, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós, bastante conhecida na voz de Simone: “(...) A saudade me esquentou/ Consertei o ventilador/ pro teu corpo não ficar suado./ Nessa onda de calor, eu até peguei uma cor/ tô com o corpo todo bronzeado./ Seja do jeito que for, eu te juro meu amor/ Se quiser voltar, tá perdoado”.

Apesar do purismo - e da conseqüente reafirmação do apreço de Maria Rita pela tradição da música brasileira -, Samba Meu não deixa de ser um movimento inesperado na carreira da cantora.

E, assim, ela segue em frente.



Veja o video de Tá Perdoado”: