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segunda-feira, setembro 26, 2011

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Sou Eu’, com Diogo Nogueira

Por ocasião do lançamento de seu novo CD, Chico, agosto acabou se tornando uma espécie de “mês Chico Buarque” no TomNeto.com, com diversas postagens sobre o artista.

Portanto, para encerrar — por ora — o tema, não podemos deixar de destacar uma das principais faixas do álbum: “Sou Eu”. Apesar de um tanto prejudicada pela participação de Wilson das Neves, a faixa é um dos pontos altos do trabalho. E, não por acaso, é umas das preferidas de Chico Buarque.

— Minha ideia era fazer um disco somente de inéditas. Mas não podia deixar “Sou Eu” de fora: adoro essa música.

Parceria de Chico com Ivan Lins — que também a registrou em seu álbum Íntimo, de 2010 —, foi presenteada a Diogo Nogueira [no detalhe], o primeiro a gravá-la, no seu primeiro álbum de estúdio, Tô Fazendo a Minha Parte, de 2009. A canção também acabou batizando o segundo disco ao vivo de Diogo, editado em 2010.

Impossível não conectá-la a um outro samba de gafieira, também gravado por Chico: “Sem Compromisso”, de Geraldo Pereira. Ambas as letras contam a estória do indivíduo que leva uma mulher para o baile, e acaba vendo-a dançar com outros homens.

A diferença é que, se em “Sem Compromisso”, o eu-lírico fica furioso com a situação (“Você só dança com ele / e diz que é sem compromisso / é bom acabar com isso / não sou nenhum pai-joão. / Quem trouxe você fui eu / não faça papel de louca / pra não haver bate-boca dentro do salão”), em “Sou Eu”, ele tem a segurança de quem sabe que é o “dono do pedaço”: (“Porém, depois que essa mulher espalha / seu fogo de palha / no salão / pra quem que ela arrasta a asa, / quem vai lhe apagar a brasa, / quem é que carrega a moça pra casa / sou eu. / Só quem sabe dela sou eu. / Quem dá o baralho sou eu. / Quem manda no samba sou eu”).


Veja o vídeo de “Sou Eu”, com a participação dos autores, Chico Buarque e Ivan Lins, extraído do DVD Sou Eu — Ao Vivo:




Veja também o vídeo com a versão de Ivan Lins, gravado na famosa casa de shows Bimhuis, em Amsterdã:

Da série ‘São Bonitas as Canções’: ‘Baile no Elite’, com João Nogueira

Impossível mencionar Diogo Nogueira sem lembrar de seu pai, o saudoso João Nogueira [no detalhe].

Desaparecido em junho de 2000, aos 58 anos, João fez parte da ala de compositores da Portela, sua escola de coração. Anos depois, integrou os dissidentes que fundaram a Tradição. Em mais de quatro décadas de carreira, deixou 18 discos gravados e inúmeros sucessos como “Clube do Samba”, “Nó na Madeira” e “O Poder da Criação”, entre outros.

Para relembrar o saudoso sambista, um retrato sonoro fiel da malandragem — na melhor acepção da palavra — carioca: o hilário chorinho “Baile no Elite” (“Tomei minha Brahma / levantei, tirei a dama / e iniciei meu bailado / no puladinho e no cruzado. / Até Trajano e Mário Jorge, que são caras que não fogem / foram embora humilhados: / eu estava mesmo endiabrado...”).

Faixa do álbum Vida Boêmia, de 1978, “Baile no Elite” foi composta por João Nogueira em parceria com Nei Lopes e cita, em sua (espirituosa) letra, Jamelão, a Orquestra Tabajara e... Nelson Motta.


segunda-feira, agosto 01, 2011

Chico Buarque: tal qual um bom livro


CD
Chico (Biscoito Fino)
2011


A música do compositor carioca torna-se cada vez mais minuciosa. Talvez por influência de sua... literatura


Nos últimos anos, Chico Buarque tem alternado sua atuação entre a música e a literatura. Após um disco de inéditas, invariavelmente sai em turnê — que acaba gerando CD/DVD ao vivo —, e recolhe-se para escrever mais um romance — o mais recente foi (o ótimo) Leite Derramado [2009]. Portanto, mantendo a “tradição”, o artista volta à ribalta, cinco anos após o seu último álbum de estúdio, Carioca, com um novo trabalho, intitulado simplesmente... Chico

Amparado por uma inteligente estratégia de marketing, concentrada no site www.chicobastidores.com.br — que disponibilizava conteúdo exclusivo para aqueles que adquiriam a bolacha ainda em fase de pré-venda —, Chico chega às lojas com boa visibilidade, mesmo em tempos de downloads ilegais. Este é o terceiro título do artista pela gravadora Biscoito Fino.

Faixa que abre os trabalhos — e também a primeira música de trabalho —, a modinha “Querido Diário” chama a atenção pelo sabor algo... interiorano. Entretanto, ao mesmo tempo, remete o ouvinte à cordialidade típica do Rio antigo. A letra é clara: é como se alguém estivesse fazendo anotações do próprio cotidiano em um diário. Mas não deixa de causar certa estranheza com o verso “amar uma mulher sem orifício”, que faz uma crítica velada a uma certa... digamos, “irracionalidade” das religiões — que vem praticamente desde o início da história da Humanidade...

Rubato” — que significa, em italiano, “roubado” — é, na linguagem musical, o termo utilizado para designar a aceleração ou desaceleração do tempo de execução de uma peça. Ou seja, o intérprete “rouba” um pouco do tempo de algumas notas e o compensa em outras. É também o título da simpática (e espirituosa) marchinha composta em parceria com o baixista Jorge Hélder, cuja letra menciona três musas com nomes que rimam entre si: Aurora, Amora e Teodora. Entretanto, o título não é gratuito. Na letra, o compositor revela seu temor: “Venha, Aurora, ouvir agora / a nossa música / depressa, antes que um outro compositor me roube”. E, em contrapartida, assume: “Venha ouvir, sem mais demora / a nossa música / que estou roubando de outro compositor”. 

Moral da história: na arte, ninguém parte do zero.

Com um discreto acento blues, “Essa Pequena” fala claramente do relacionamento entre um homem maduro e uma mulher mais jovem: “Meu tempo é curto / o tempo dela sobra. (...) / Feito avarento, conto os meus minutos / cada segundo que se esvai”. Mas, no final, o eu-lírico se conforma: “Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas / o blues já valeu a pena”.


Parceria com João Bosco, ‘Sinhá’ é a letra mais instigante

Mesmo não sendo um baião legítimo, “Tipo um Baião” traz a influência do gênero no qual Luiz Gonzaga foi rei — por sinal, o Velho Lua é citado no final da canção. Como o título entrega, é... “tipo um baião”. Igualmente gracioso é o dueto de Chico com Thaís Gulin em “Se Eu Soubesse”, já gravada pela cantora curitibana, com a participação do autor, em Ôôôôôôôô, seu segundo álbum, lançado este ano. Já a (bela) “valsa russa” “Nina” ilustra o romance virtual de um brasileiro com uma moça... moscovita: “Nina anseia por me conhecer em breve / me levar para a noite de Moscou. / Sempre que esta valsa toca / fecho os olhos / bebo alguma vodca / e vou...”

Parceria com Ivan Lins — e já gravada por Diogo Nogueira —, “Sou Eu” ressente-se pela participação do veterano baterista Wilson das Neves, totalmente inexpressivo como intérprete. Melhor resultado é obtido em outro samba do álbum, “Barafunda”, cuja letra fala das difusas recordações do autor de “O que Será? (A Flor da Terra)” e cita Cartola, Garrincha, Zizinho, Pelé e... Mandela.

O provável ponto alto de Chico é a delicada “Sem Você nº 2”. Inspirada na pérola de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes — que, além do título, é citada na introdução —, possui versos... capciosos: “Sem você, o tempo é todo meu / posso até ver o futebol (...). / Sem você, é um silêncio tal / que ouço uma nuvem a vagar no céu / ou uma lágrima cair no chão. / Mas não tem nada, não”.

Contudo, a letra mais instigante do disco é justamente a da última faixa. Composta em parceria com João Bosco — e com a participação do próprio no violão e nos vocais —, “Sinhá” é samba de nítidos matizes africanos, que narra a estória do velho escravo que está sendo castigado, sob a acusação ter visto nua a “sinhá” que batiza a canção. “Por que talhar meu corpo? / Eu não olhei Sinhá. / Para que que vosmecê / meus olhos vai furar? / Eu choro em iorubá / mas oro por Jesus. / Para que que vassuncê / me tira a luz?”.

Em dez faixas que totalizam apenas 31 minutos de música, Chico, o disco, dá o seu “recado” de maneira concisa. Atualmente, a produção de Chico, o compositor, é desapegada dos “apelos” da música popular: refrões fáceis, etc. Ao contrário: é minuciosa, concentrada. Para ser apreciada sem pressa. Tal qual um bom livro — por influência, presume-se, de sua recente (e proveitosa) proximidade com a literatura. 

Chico está no mesmo nível de trabalhos anteriores do artista, como os (excelentes) Paratodos [1993] e As Cidades [1998]. E possui melhor aproveitamento do que o seu antecessor, o bom Carioca [2006]. Em suma: trata-se de um trabalho de Chico Buarque — com tudo o que isso significa. E não é à toa que ele é chamado de gênio.



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Ouça “Querido Diário...




...e “Sem Você nº 2: